Prémio Nobel

“O agente racional e a agente temperamental”

Autor
166

No fim dos anos 70, Richard Thaler veio dizer-nos que nem todos os agentes eram racionais. Mas Thaler vai mesmo mais longe e argumenta que a regra é não sermos racionais, homens e tudo.

Esta Segunda-feira, Richard Thaler, professor na University of Chicago e que antes tinha passado pela Cornell University, ganhou o Prémio Nobel da Economia. O principal mérito dele foi o de criar um novo ramo da Economia: a Economia Comportamental. E criou este ramo por oposição e com a oposição do canône neoclássico, que era, e é, o paradigma dominante na academia económica.

Para entendermos qual o mérito de Thaler, temos primeiro de conhecer os princípios em que se baseia a economia neoclássica que ele veio desafiar. E esses princípios são relativamente simples. No paradigma neoclássico, considera-se que as pessoas (os agentes económicos, na gíria) são seres que actuam de forma racional para maximizar a sua felicidade — é um pouco tonto confundir isto com egoísmo, como se costuma fazer, dado que a felicidade dos outros pode perfeitamente estar repercutida na nossa. Acrescenta-se o pressuposto de que os gostos são estáveis e de que os mercados se equilibram e temos os princípios em que assenta todo o edifício neoclássico.

Dito de forma exageradamente simples: no fim dos anos 70, Thaler veio dizer-nos que nem todos os agentes eram racionais. Não parece ser grande novidade, afinal, num mundo em que mais de metade das pessoas são mulheres, isso é óbvio. Mas Thaler vai mesmo mais longe e argumenta que a regra é não sermos racionais, homens e tudo. Deixamo-nos vencer pela inércia, muitas vezes, escolhemos o mais caro entre produtos idênticos, temos problemas de autodomínio cedendo a impulsos que sabemos não serem bons para nós, etc.

Quais as implicações da alteração deste pressuposto nos modelos económicos? Comecemos pelo óbvio. Naturalmente, nenhum economista acreditava que as pessoas eram totalmente racionais e que não cometiam erros. Simplesmente, considerava-se que os modelos que tinham estes pressupostos como base forneciam uma boa aproximação à realidade. Ou seja, mais erro menos erro, as pessoas em média comportavam-se de forma racional e consistente para maximizarem a sua utilidade.

Thaler veio desafiar esta abordagem dizendo que, muitas vezes, as pessoas são mesmo irracionais e cometem erros sistemáticos. Numa fase inicial do seu programa de trabalhos, os seus exemplos eram pouco estimulantes e quase se confundiam com questões de marketing: como é que as empresas manipulavam as pessoas de forma a gastar mais dinheiro? Era como se a economia neoclássica explicasse que o preço certo de um produto era, por exemplo, de 100€ e a economia comportamental viesse corrigir a previsão dizendo que o preço seria de 99€ e 99 cêntimos. Não parecia grande feito.

Mas podemos dar outros exemplos mais interessantes. Não foi há muito tempo que soubemos das manigâncias a que alguns restaurantes em Lisboa recorrem para cobrar preços exorbitantes, confiando que a inércia dos clientes os manterá na ignorância relativamente aos preços de alguns pratos. Um dos primeiros trabalhos de Thaler demonstrou que tendemos a dar mais valor àquilo que já é nosso do que ao que ainda não é. Muitas vezes, as empresas aproveitam-se deste fenómeno, aliciando-nos com preços artificialmente baixos, para depois nos encherem de custos adicionais.

Numa segunda fase, Thaler foi acumulando provas de que os agentes eram muitas vezes irracionais e, graças à economia experimental, foi demonstrando que isso tinha impactos nos equilíbrios de mercado. À medida que o desafio foi aumentando, também o bloco de defesas da economia tradicional se foi tornando mais eficiente. Por exemplo, Becker, um dos expoentes do pensamento neoclássico, argumentava, e com alguma razão, que não interessava que 90% da população não soubesse calcular probabilidades, porque os 10% que sabiam iriam parar aos empregos em que tal era exigido. Argumentava-se também que os profissionais de uma determinada actividade, por serem profissionais, ir-se-iam comportar como agentes racionais e não como pessoas comuns, que cometem erros sistemáticos, caso contrário o próprio mercado acabaria por correr com eles.

Este terá sido, talvez, o grande desafio que Thaler enfrentou. Encontrar exemplos de erros sistemáticos, cometidos em mercados consolidados por profissionais competentes e bem pagos. Um exemplo engraçado que encontrou, e que de certeza terá ressonância junto dos adeptos de futebol, foi o da total irracionalidade das contratações de jogadores no futebol americano. Demonstrou de forma convincente que as primeiras escolhas são sistematicamente demasiado caras e que os clubes que as fazem incorrem em péssimos negócios em que pagam 4 ou 5 vezes mais do que o que deviam pagar tendo em conta o rendimento do jogador. Thaler acabou mesmo por ser contratado como consultor por alguns clubes, que, para seu desgosto, acabaram por fazer exactamente o oposto do que ele preconizava.

Mais importante, muito mais importante, foi a descoberta de várias “falhas” nos mercados financeiros. Desde produtos financeiros idênticos com preços muito diferentes a flutuações bolsistas praticamente impossíveis de explicar com a teoria padrão e, potencialmente, incompatíveis com a hipótese dos mercados eficientes. Terá sido neste momento que Thaler deixou de ser um académico famoso para se tornar numa estrela.

Hoje em dia, e como muitas vezes acontece, a economia neoclássica absorveu a heterodoxia comportamental. Por um lado, reconheça-se que Thaler nunca hostilizou os modelos neoclássicos. Pelo contrário, sempre os considerou bons modelos não propriamente da realidade, mas modelos que nos fornecem um padrão do que seria ideal atingir. Sem eles não seria possível perceber quais os erros que os agentes económicos cometem, nem quais as consequências desses erros, nem que erros devem ser corrigidos. Por outro lado, dado o sucesso empírico da economia comportamental, os neoclássicos passaram muitas vezes a enriquecer os seus modelos com pressupostos comportamentais, melhorando assim a sua capacidade de previsão.

Aqui chegados, uma vez alcançada a sua aceitação geral, o passo seguinte seria retirar prescrições de política económica. Possivelmente, os reguladores económicos estão entre os que mais fazem uso destas teorias, precisamente para impedir que as grandes empresas se aproveitem da falta de sofisticação dos consumidores. Por exemplo, todos nós, ou quase todos, já fomos surpreendidos com renovações automáticas de contratos, que são uma excelente forma que as grandes empresas têm de se aproveitar da nossa inércia para cobrarem preços excessivos. Por isso, em 2011, a Ofcom (a ANACOM inglesa) proibiu as renovações automáticas de contratos. Mas, ainda assim, há que reconhecer que os impactos da Economia Comportamental são limitados. Num relatório preparado para a Autoridade da Concorrência da Holanda, especificamente sobre o impacto da Economia Comportamental na política da concorrência, a Oxera Consulting conclui que pouco haverá a mudar nos manuais de Economia e Lei da Concorrência.

Um domínio onde os ensinamentos da Economia Comportamental têm sido importantes é o da poupança. De facto, sobre esse assunto, a teoria neoclássica tradicional pouco nos diz. Se os agentes económicos actuam de forma racional e planeiam sem vieses o futuro, então, quase por definição, a poupança de cada pessoa é a poupança óptima. Levada à letra, nem sequer haveria necessidade de haver subsídios de desemprego ou pensões da Segurança Social, dado que cada um pouparia o suficiente para precaver possíveis situações de desemprego ou de reforma. Mas sabemos que assim não é e que a maioria das pessoas acha que deveria poupar mais. Havendo países com taxas de poupança preocupantemente baixas, como os Estados Unidos ou Inglaterra (e Portugal), as políticas públicas há alguns anos que se viraram para os comportamentalistas em busca de respostas.

As respostas encontradas procuram, essencialmente, fazer a inércia jogar a favor da poupança. Algumas foram apresentadas num livro de que sou co-autor com Fernando Alexandre, Pedro Bação e Miguel Portela, «Poupança e Financiamento da Economia Portuguesa». Por exemplo, em futuros aumentos salariais, pode ser proposto aos trabalhadores que metade do aumento vá automaticamente para uma conta de poupança-reforma. E, aqui, a simplicidade é a chave, ou seja, a criação desta conta de poupança deve ser automática, não envolvendo qualquer papelada ou qualquer esforço por parte do trabalhador. No fim do ano, as devoluções do IRS poderiam ir automaticamente parar a uma conta de poupança deste tipo (eventualmente majoradas por algum factor).

A naturalidade com que eu e os meus co-autores recorremos às prescrições da Economia Comportamental, nós que somos quatro economistas com formação neoclássica pura, é uma homenagem quer a Thaler quer ao paradigma económico dominante. Ilustra, em primeiro lugar, o sucesso do programa de investigação de Thaler, iniciado em 1978 na Cornell University. Mostra também a capacidade do paradigma dominante absorver heterodoxias que o valorizem e como a acusação de monolitismo é, tantas vezes, errada.

*Este é o título de um livro que eu e a Sandra Maximiano, professora na Purdue University, estamos a escrever. Escusado será dizer qual de nós é o racional e qual a temperamental/comportamental. Fazer este anúncio público é uma forma de vencermos a nossa natural tendência para a procrastinação.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Incêndios

Um governo debaixo de fogo

Luís Aguiar-Conraria
1.169

Cara ministra e caro secretário de Estado, acredito que fizestes o vosso melhor. Mas não chega. São necessárias qualidades de liderança que vós, visivelmente, não tendes. Ide de férias.

Diabetes

Não será possível fazer melhor?

Luís Aguiar-Conraria
1.982

A mãe de uma menina de 11 anos, com diabetes há 5, contou-me como a filha saiu a chorar quando, pela enésima vez, lhe disseram que já faltava pouco para ter uma bomba. Perguntou-lhe porque mentiam

Economia

Do Nobel, da racionalidade e da moralidade

João Pires da Cruz
153

O ecossistema que usa expressões como “especuladores da economia de casino” ou “fundos abutres” assenta num puritanismo antieconómico e em ideologias com 150 anos que há 149 que se sabe serem erradas.

Economia

Richard Thaler e o Estado como senhorio público

José Manuel Moreira e André Azevedo Alves
164

Trata-se de revelar a premissa omissa na agenda progressista: a noção de que o Estado se encontra investido da autoridade de um senhorio público com inquestionável poder de domínio sobre a sociedade.

CDS-PP

A moção e a censura de um país

José Pinto

A Constituição não limita o direito à censura por parte dos cidadãos. É a essa censura – e revolta indignada - que nenhum Governo pode fugir. Face à censura coletiva, a discussão da moção nada adianta

Incêndios

O fogo e o papel de Portugal

José Barbedo

Enquanto a ocorrência de fogos faz parte do ciclo natural das florestas, a escala dos incêndios que tem ocorrido ao longo das últimas duas décadas era totalmente desconhecida no passado.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site