Perder por pouco. Esta é a ambição da coligação Aliança Portugal, que dez anos depois juntou PSD e CDS-PP, na corrida às europeias. A dúvida dos partidos da direita é a distância a que ficará do PS, que as sondagens sempre deram como vencedor das eleições de domingo.

Os líderes dos partidos, Pedro Passos Coelho e Paulo Paulo, mudaram de estratégia nos últimos dias, tentando segurar os fiéis, tendo na mão estudos que dizem que o apoio dos mais idosos e das classes mais baixas estão irremediavelmente perdidos. “Não vamos lá, aos pensionistas e até aos funcionários públicos”, afirmou ao Observador um dirigente do PSD.

Entre 4% a 10% é o intervalo previsto pelas sondagens para a derrota da coligação PSD/CDS-PP nestas europeias, mas nem Nuno Melo, nem Paulo Rangel, que foram eleitos em 2009, dizem estar intimidados mas na campanha há quem esteja mais preocupado. As condições há cinco anos eram bem diferentes: não representavam um Governo maioritário associado à austeridade e à troika.

Prevê-se derrota, mas o fator Sócrates é imprevisível e só no domingo, depois das urnas fechadas e os votos contados, é que se vai ter a certeza se, tal como os candidatos da direita esperam e repetiram durante as últimas semanas, se os portugueses ainda guardam memória “da bancarrota dos socialistas que pôs aqui a troika”. Mais de 8% de diferença com a lista de Assis será um mau resultado, mas a coligação está a contar com a dispersão de votos à esquerda, nomeadamente em Marinho e Pinto e Rui Tavares para diluir a preferência pelos socialistas. Os resultados digerem-se na próxima quarta-feira em Conselho Nacional do PSD. “A nossa vida cá continuará no dia a seguir às eleições”, já avisou Passos esta quinta-feira na Trindade.

A campanha, essa, fez-se dentro de portas, entre fábricas e explorações agrícolas, com jantares comício com bilhetes pré-comprados e com contacto direto com a população apenas em Lisboa e no Porto. Ataques a Sócrates, selfies falsas e verdadeiras e a palavra credibilidade marcaram a parte final de uma campanha que se intitulava como uma onda crescente, mas pode ficar pela rebentação.

Sem grande convicção no princípio da semana, a campanha recebeu uma injecção de entusiasmo com Paulo Portas em Aveiro e Passos reforçou a Aliança Portugal por duas vezes – a terceira será esta sexta-feira à noite. Mas outros reforços não foram tão bem-vindos, nomeadamente Marcelo Rebelo de Sousa que em Coimbra deu um balde de àgua fria à coligação. Após um discurso em que declarou votar no PSD por apoiar Juncker como candidato a presidente da Comissão, enaltecendo mais as qualidades do ex-primeiro-ministro do Luxemburgo do que as dos candidatos da Aliança Portugal, o desalento da campanha foi visível.

Reuniram-se as hostes, realinharam-se os candidatos e chamaram-se outras figuras dois partidos. O primeiro-ministro veio ao jantar seguinte, um pequeno-almoço com Manuela Ferreira Leite e um jantar com o fundador do PSD, Pinto Balsemão – ocasião para a coligação voltar a perguntar, afinal onde anda Soares na campanha do PS? – mostraram união para dentro dos dois partidos e para fora. O almoço na Trindade foi prova disso, com meio governo e meio Parlamento em peso para apoiar Melo e Rangel.

Campanha dentro de portas e com a fechadura trancada

Na última semana de campanha da Aliança Portugal, mesmo se quisesse encontrar os candidatos Paulo Rangel e Nuno Melo nas ruas da sua cidade, tal seria difícil. Primeiro teria de viver nos redutos centristas e sociais-democratas como Aveiro ou Viseu, depois teria de ser dono ou trabalhar numa empresa próspera da região. O contacto com a população foi pouco ou nenhum, permitindo à coligação uma saída limpa, sem queixas nem contestação.

A estratégia concertada pareceu resultar bem para dentro. O candidatos estiveram a maior parte das vezes de acordo, embora tenham estilos diferentes – como aconteceu no moliceiro em Aveiro, onde Nuno Melo, sempre afoito, desafiou Rangel a ser o primeiro a descer para o cais. Paulo Rangel não fez da vísivel perda de peso um assunto tabu e numa empresa de codificação genética mostrou-se interessado em fármacos que previnam a obesidade, assim como não negou que tem o vício do chocolate, “apesar das dietas”.

O alvo dos dois candidatos também foi o mesmo: Sócrates. E para quem do outro lado disse que na Aliança Portugal só se falou de passado, os candidatos corrigiam, dizendo: “Quando falamos da dívida socialista, não estamos a falar do passado, estamos a prevenir o futuro e a garantir o presente”. Para uma campanha que não quis casos, a ligação de Alegre entre “o vírus socialista” e “o vírus dos judeus” na Alemanha durante os anos 40, afastou o debate de questões centrais como o euroceticismo na Europa e a subida dos partidos de extrema-direita no Parlamento Europeu.

Aliás, as questões europeias acabaram por ter um papel secundário, sem um debate efetivo das propostas da coligação. Rangel conseguiu desenvolver a temática da integração energética graças à carta de Durão Barroso à Gazprom e Nuno Melo continuou a lutar pela agricultura, no quadro do acordo de parceria de comércio livre com os EUA. Mas ficou por concretizar o mercado digital e a economia do mar, bandeiras de campanha da coligação. No entanto, a apresentação de Ruas como o candidato do interior e a promessa de em Bruxelas batalhar para atribuir às zonas de baixa densidade territorial um estatuto equivalente às zonas ultra periféricas, foi bem recebido pelos militantes.