Terminaram os campeonatos europeus mas o desporto mais popular do planeta continua a dar que falar – pelas piores razões. Nas últimas horas foram conhecidas várias situações que põem em causa a verdade do que se passa nos terrenos de jogo, e até a construção desses mesmo terrenos de jogo. Por partes: a organização do campeonato do mundo de 2022 entregue ao Qatar sempre foi polémica: porque vai obrigar jogadores a competir com temperaturas altíssimas e porque as denúncias de trabalho escravo e de mortes nas obras têm sido uma constante, mas principalmente porque sempre se suspeitou de corrupção na votação final que entregou o Mundial à monarquia absolutista do Médio Oriente.

E agora estas suspeitas parecem ter sido confirmadas. Hoje o Sunday Times anunciou que teve acesso a milhares de emails, cartas e documentos bancários que, defende, provam que Mohammed Bin Hammam, antigo dirigente da FIFA, terá utilizado cerca de 3,6 milhões de euros para comprar o voto favorável de vários oficiais à candidatura do Qatar ao Mundial. O também ex-presidente da Confederação Asiática de Futebol terá efetuado transferências bancárias para as contas de pelo menos 30 oficiais de associações africanas de futebol e de Jack Warner, antigo vice-presidente da FIFA – que, em dezembro de 2010, foi uma das 22 pessoas que votou na candidatura do Qatar ao Mundial de 2022. É muito possível que se volte a avaliar a entrega do Mundial ao Qatar tendo em conta que Jim Boyce, vice-presidente da UEFA, já admitiu fazer nova votação caso as acusações de suborno se confirmem.

Igualmente graves são as acusações de corrupção nos jogos de futebol prévios ao Mundial 2010. Um relatório de 44 páginas, produzido pela própria FIFA e ontem revelado em exclusivo pelo New York Times, revela situações de corrupção que envolvem agentes de apostas, empresas que organizaram amigáveis e vários dirigentes do futebol. Vários amigáveis realizados no território da África do Sul antes do Mundial terão sido alvos de esquemas de combinação de resultados. Um dos jogos sob suspetia era o amigável entre Portugal e Moçambique, realizado em Joanesburgo, que terá acabado por não ter intervenção externa – mas as suspeitas estendem-se a cinco outros jogos. Ralf Mutschke, atual diretor do departamento de segurança da FIFA, revelou ao New York Times que “um Mundial tem sempre um risco” de ser um alvo de corrupção por “gerar grandes quantidades de lucro” – com o campeonato do mundo do Brasil, a FIFA estima receber cerca de 2,9 mil milhões de euros.