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Foi considerada uma das 12 melhores peças de design dos últimos 100 anos pela BBC e é tida como um ícone de estilo sobre duas rodas. Usada com frequência no universo cinematográfico, desde A Doce Vida, de Fellini, a Férias em Roma, com Audrey Hepburn, permanece uma referência nas ruas do mundo. Associa-se ao valor da liberdade e tem evoluído, ao longo dos tempos, com as diferentes gerações. A primeira Vespa, com 98 cc, data de 1946, mas parece não ter envelhecido um dia.

Nasceu no período do pós-segunda grande guerra, em Itália. É da autoria da empresa de Rinaldo Piaggio que, fundada em 1884, começou o seu negócio no encaixe de navios luxuosos. Mais tarde, voltou-se para as carruagens de comboios e motores de camiões. Antes e durante o primeiro conflito mundial, a Piaggio era uma das principais fabricantes de aviões, sabedoria que foi posteriormente utilizada no conceito original da Vespa.

“Depois da guerra, a Itália ficou de rastos e a empresa, como outras, seriamente debilitada”, explica Sara Chen, responsável pela marca em Portugal. A situação social então vivida desencadeou uma ideia que foi, para muitos, genial. O filho de Piaggio, Enrico, idealizou um veículo de mobilidade individual, acessível para as grandes massas. A partir daí, o engenheiro D’Ascanio desenvolveu um protótipo cujas formas se assemelhavam a uma vespa. A piada e o nome ficaram até hoje.

Agora que a Itália renascia dos bombardeamentos aliados, a produção de uma máquina modesta arrancava rumo ao sucesso. Se em 1946 foram colocadas perto de 2.500 scooters no mercado, no ano seguinte o número ascendeu às 10.535 unidades. Em 1950, quando a Vespa começou a ser produzida na Alemanha, a produção chegou aos 60 mil veículos. Não admira que a marca se refira ao processo enquanto um “milagre”. Ao todo, e até à data, foram vendidas mais de 18 milhões de Vespas em todo o mundo. As linhas de produção para a Europa estão em Pontedera, Itália, além de outras fábricas para mercados exteriores ao continente.

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Vespa PX 150 D.R.

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Mas porque foi a Vespa um sucesso (quase) imediato? Era fácil de usar e de estacionar, apresentava um design apelativo. O motor, escondido debaixo do assento ou ao longo da roda pequena traseira – diz a BBC -, e as correias não estavam à vista, como era costume nas motos. Tanto senhores de fato como senhoras senhoras de saias podiam recorrer-se da Vespa para deslocações de uma forma elegante, isto é, sem ficarem sujos.

Foi uma questão de (pouco) tempo até o conceito ser exportado além das fronteiras italianas. Em Portugal, por incrível que pareça, a scooter chegou por volta da década de 1950. O Vespa Clube de Lisboa festeja, em 2014, 60 anos e, na opinião de Sara Chen, a sua existência atesta o bom resultado da Vespa no país, em plena ditatura.

“Um dos grandes sucessos da marca é conseguir reinventar-se de geração em geração. Agora vivemos numa era digital e tecnológica, pelo que, de momento, estamos a lançar scooters nesse sentido”. A Vespa 946, por exemplo, tem disponível uma plataforma multimédia que está ligada ao smartphone, tudo o que se passa no veículo é reproduzido numa aplicação específica. Tem um motor 100% ecológico, gasta 2 litros aos 100 e faz revisões de 10 mil em 10 mil quilómetros. Não utiliza plásticos, a estrutura é feita em aço e, pela primeira vez na história da Vespa, é decorada com elementos em liga de alumínio. Para Sara, vai ser um marco nos próximos anos.

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Vespa 946 D.R.

Ao todo, e ao longo dos anos, são mais de 30 modelos diferentes, explica Sara Chen. A scooter que está há mais tempo em linha de produção, desde 1977, é a Vespa PX, com um design minimalista e estilo clássico. O modelo foi apenas interrompido durante quatro anos, mas ainda hoje é fabricado, agora com as devidas atualizações tecnológicas e de segurança. Outros modelos icónicos da marca são a Sprint e a Primavera, associada à primavera de 1968, agora ambos em versões renovadas.

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Vespa Primavera D.R.

A evolução das Vespas é inegável. Sara relembra o desenvolvimento dos motores, hoje mais ecológicos e eficientes, que consomem menos. “A Vespa lança constantemente novos modelos”, explica. O equilíbrio entre a essência tradicional da marca e a busca incessante pelo futuro parecer ser o principal motivo porque a Vespa ainda é a Vespa. O certo é que tão cedo a scooter que encantou o mundo não vai passar de moda.
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