Basta pensar em qualquer invenção. Seja o telégrafo, o cinematógrafo ou o telefone. Não fosse o risco, a ousadia e o génio de Guglielmo Marconi, Thomas Edison ou Alexander Bell, talvez nunca tivessem aparecido. Genialidades à parte, claro, por vezes acontece o mesmo com a bola a rolar – surgem inventores. Agora é fazer a mesma pergunta a Fábio Coentrão e esperar pela resposta.

Sem Paulo Bento, será que teria aparecido a jogar a médio centro? Neste caso sim, porque antes houve quem também se armasse em inventor. Foi José Mourinho. Em 2011/12, um Coentrão acaba de chegar ao Real Madrid e começa por aparecer a médio, nos primeiros amigáveis de pré-época de uns merengues que viriam a ser campeões. Curiosamente, essas tais experiências aconteceram nos EUA.

Na altura foi na Califórnia. Esta madrugada foi em Boston. O seleccionador não largou o tubo de ensaio que levou para o empate com a Grécia, há uma semana, e continuou com as experiências no segundo encontro de preparação para o Mundial 2014. O teste, agora, era com o México. E com André Almeida a titular e a defesa esquerdo, com Fábio Coentrão à frente, no meio, a fazer companhia a Miguel Veloso e João Moutinho. Resultou? Nim, e esta resposta divide-se pelas partes do jogo.

O não da primeira

Os primeiros dez minutos foram mexicanos: mexiam-se mais, faziam a bola trocar rápido de paragens e, com três centrais atrás, conseguia metê-la no relvado e fugir à pressão dos jogadores portugueses (dois encostavam-se às linhas e o que sobrava aparecia entre eles, com espaço). Os portugueses demoraram a habituar-se. Porquê? Em parte, porque Fábio Coentrão acatava ordens e permanecia ao lado de Veloso, perdido no meio campo. As marcações estavam trocadas, como as camisolas que Ronaldo, Pepe e Meireles vestiram em New Jersey, onde assistiam ao jogo e publicaram uma imagem a desejar força.

Lá avançou, começou a tentar roubar bolas mais à frente e Portugal equilibrou as coisas. Aos 13 minutos já vários passes tinham entrado na área mexicana, à procura de Éder ou Nani, que não os apanharam por pouco. Aos 14, Vieirinha, o que carregava o 10 nas costas, recebe uma bola à direita, mete para dentro e saca um remate rasteiro. Jesus Corona defende para canto. Coentrão pouco se notava e aparecia mais quando era preciso ajudar André Almeida a defender.

Os mexicanos sentem o gesto e a partir daqui são rancorosos – respondem logo a cada ameaça que a seleção lhes faz. Se aos 20 e 22 minutos Éder remata por duas vezes (com a cabeça, por cima, com o pé esquerdo, às mãos do guarda-redes), Layun, aos 30, tira um cruzamento largo para a área que, a meio da viagem, se transforma num remate que obrigou Eduardo a defesa de última hora. Aos 38 e 39 minutos, nova dupla tentativa de Éder. Novo duplo insucesso. Aos 43, lá vem a vingança mexicana: um remate de Andrés Guardado à entrada da área passe a centímetros do poste direito da baliza portuguesa.

O sim da segunda (só para Coentrão)

O intervalo amolece os portugueses e acelera (ainda mais) o México. Logo aos 48 minutos, os americanos apertam e Eduardo tem de sacar uma grande defesa de modo a parar o último de três remates seguidos. Aos 55, Guardado volta a rematar e mais perto fica de marcar. Pelo meio, Fábio Coentrão lá aparece. Pela positiva.

O defesa convertido a médio apanha uma bola dentro da área, remata, e só um elástico Guillermo Ochoa (entrado ao intervalo) o impede de marcar. Coentrão acorda. Começa a avançar mais no terreno, a tentar coisas e jogadas com Nani ou Vieirinha (e às tantas, Varela). Passa a ser Moutinho quem troca mais bolas com Miguel Veloso. Aos 58, Guardado volta a rematar, agora sem perigo.

À hora de jogo, arrancam os dez minutos de Eduardo. As duas titularidades seguidas do guarda-redes (já o fora contra a Grécia) fazem-no lembrar-se das paradas que já fizera há quatro anos, no Mundial da África do Sul, e só ele impede que os mexicanos marquem um golo a Portugal. Por uma (62 minutos) e duas (68) vezes é Eduardo a salvar. Um minuto depois, Fábio Coentrão emperra – tem uma caibrã. Aos 76 minutos sai. Entra Rafa.

Depois, nada de perigoso se passa. As equipas fazem tréguas e lembra-se de fechar bem os espaços a defender. Portugal tenta, o México também, mas só uma correria de Rafa, aos 83, obriga Herrera (do Porto) a travá-lo em falta e dar um livre que Miguel Veloso aproveita para rematar contra a barreira.

De repente, o golo

Do comentário televisivo, já nos últimos minutos, ouve-se que é preciso “treinar a garganta” para quando houver golos para festejar. Até aí, nada. Só gritos de susto. Aos 89 minutos, foi o último, quando Eduardo se atira aos pés de Pulido e não deixa mesmo que o golo apareça. Pouco depois, sabe-se que estavam para vir três minutos de compensação. Era altura de fazer um balanço.

Rui Patrício voltava a não sair do banco e Eduardo aproveitava para brilhar (muito). Na esquerda da defesa, em dois encontros de preparação, ainda só esteve André Almeida. No meio campo, seja Veloso ou William Carvalho, a coisa só funciona com um trinco. Falta a rotação de Meireles ao meio e o desvio de atenções dos inimigos que Ronaldo provoca quando está em campo. Falta Nani criar perigo com a mesma proporção com que dá nas vistas, ou Éder marcar um golo. E, sobretudo, falta que Paulo Bento consiga testar os 11 homens que imagina juntos a 16 de junho, contra a Alemanha.

Depois, a segundos do último apito, aparece um livre para a seleção. João Moutinho bate e surge Bruno Alves, que dá um pulo, ainda a uns bons 15 metros da baliza, e cabeceia a bola com força, rumo ao poste direito. Ochoa não tem hipótese. O México também não – já nem há tempo para reagir. 1-0, vitória para Portugal. O que muda? Nada. É preciso mais testes, mas só haverá mais um, a 10 de junho, contra a Irlanda. Até lá.