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O torneio de Paris herdou o nome de alguém especial. Roland Garros era um aviador francês que combateu na Primeira Guerra Mundial e com um gostinho pelo ténis. Na final de domingo, Rafael Nadal e Novak Djokovic homenagearam da melhor maneira o piloto, com mais uma batalha épica.

O espanhol sorriu no fim e continua a levantar voo, descolando-se dos demais. O duelo não se limita ao court. O tête-à-tête passou a ser com a história. É a primeira vez que um tenista ganha este torneio cinco vezes seguidas. O maiorquino deixa assim para trás Björn Borg, um sueco que havia vencido a prova entre 1978 e 1981. No total, Nadal venceu nove das últimas dez edições. A única que escapou foi a de 2009: o espanhol perdeu na quarta ronda com Robin Söderling — a sua única derrota em Paris –, que cairia na final contra Roger Federer.

“É neste tipo de grandes partidas que aparecem os melhores do mundo”, desabafou Djokovic depois da final. “Quando me encontrava melhor, ele elevou o seu ténis e ganhou os pontos chave”, afirmou o sérvio que tinha acabado de perder a oportunidade de recuperar o número um do ranking (3-6, 7-5, 6-2, 6-4). Mais: perdeu a oportunidade de vencer o único troféu do Grand Slam que lhe falta. “Basta ver os números dele aqui para dar conta do quão difícil que é ganhar-lhe: só perdeu uma vez (Robin Söderling em 2009). A cinco sets é muito complicado”, explicou o sérvio.

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Nadal é uma força da natureza. As suas correrias de um lado e para o outro cansam só de ver. Mas é ao nível mental que se destaca de todos os outros. Quando muitos vaticinavam um decair da carreira depois da lesão, ele trabalhou muito para recuperar. O espanhol é mais do que um atleta. É um gentleman que acabou por se tornar num super jogador de ténis. Basta ver como se emociona com as vitórias ou como olha para o rival que perdeu, como se sentisse mal por ele. A Djokovic voltou a desejar o melhor. “Um dia vencerá aqui.”

Marquemos novo encontro com a história neste parágrafo. Nadal alcançou Pete Sampras em títulos do Grand Slam (14) mas já conseguira algo que o norte-americano nunca conseguiu: vencer os quatro torneios principais. Sampras “apenas” venceu na Austrália (1994, 1997), Wimbleon (1993, 1994, 1995, 1997, 1998, 1999, 2000) e no US Open (1990, 1993, 1995, 1996, 2000). Tenistas como Roy Emerson (12), Björn Borg (11), Rod Laver (11) e Bill Tilden (10) já haviam sido ultrapassados e veem há algum tempo a poeira do espanhol levantar. O topo da lista ainda está entregue a Roger Federer, uma espécie de Zidane do ténis,  que conta com 17 grandes torneios do Grand Slam no bolso. A eternidade está ao virar da esquina. Vale a pena ver aqui a infografia do El País

“Federer tem 17 Grand Slams e eu 14. [Bater o recorde] não é uma fonte de motivação para mim. Continuarei o meu caminho. Contaremos [os troféus] quando a minha carreira acabar. Não me importo muito com recordes. Ainda jogarei com muita intensidade e motivado”, assegurou o espanhol. Os seus números são incríveis. São já 35 as vitórias consecutivas no torneio de Paris, onde conta com 66 vitórias contra apenas uma derrota. Nadal, com 45 conquistas em torneios de terra batida, está apenas a um de Guillermo Vilas, um argentino também ele canhoto, que nunca chegou a número um do mundo. Em 1975 e 1977 alcançou a segunda posição do ranking ATP.

Este título em Roland Garros permite ao espanhol segurar o número um do ranking ATP, embora Djokovic tenha encurtado as distâncias. O triunfo permite-lhe ser o único tenista a vencer pelo menos um Grand Slam por ano durante dez anos. Em junho do ano passado, Espanha elegeu Nadal como o melhor desportista espanhol da sua história, à frente de Miguel Indurain e Pau Gasol. O homem é um campeão dentro e fora do court. A sua história fala por si.

O percurso de Nadal em 2014

Começou o ano a vencer o Open de Doha contra o francês Gäel Monfils (6-1, 6-7, 6-2). Seguiu-se uma derrota na final do Open da Austrália aos pés de Stanislas Wawrinka (3-6, 2-6, 6-3, 3-6). Ao ritmo do samba, o espanhol venceu depois o Open do Rio de Janeiro contra Alexandr Dolgopolov (6-3, 7-6) — ultrapassou João Sousa nos quartos-de-final (6-1, 6-0). A seguir, o ucraniano vingou-se da final no Brasil e eliminou o canhoto na terceira ronda do Open BNP Paribas 3-6, 6-3, 6-7). Em Miami, Nadal voltaria a sentir o sabor da derrota, agora contra Djokovic (3-6, 3-6) na final de Miami.

Em Monte Carlo e Barcelona não passou dos quartos-de-final, cortesia de dois compatriotas. No primeiro foi eliminado por David Ferrer (6-7, 4-6), enquanto na Catalunha caiu com Almagro (6-2, 6-7, 4-6). Os triunfos regressaram em Madrid, a cidade do clube de futebol que apoia (Real). Na final beneficiou do abandono do japonês Kei Nishikori quando vencia por 3-0 no terceiro set (2-6 e 6-4 nos primeiros dois sets).

O torneio de Roma voltou a culminar com uma final Nadal-Djokovic. Dessa vez o sérvio levou a melhor: 6-4, 3-6, 3-6. A resposta estaria marcada para Roland Garros. Uma final que Nadal jamais esqueceria.