“Uma água fresca, por favor”.

O empregado do bar olha para mim de lado e pergunta, “você é português, certo?”.

Certo.

“Aqui você deve pedir água gelada. Frescura é coisa de viado. Você é viado?”.

Não, não sou.

Viado, no Brasil, é gay.

José Luiz Vidigal é filho de mãe portuguesa e pai indígena. Veio de Ilhéus, sul da Bahia, para Salvador em 1973, com 18 anos. Começou a trabalhar em hotéis aos 20, até hoje. Tem 60 anos.

“Ô Ricardo, eu vou dar uma ajuda prá você. Vamo lá ver como fala aqui”.

Vamos. Começou então uma espécie de jogo que durou, não 90 minutos, mas uns 20.

“Sumo é suco”.

Cerveja de pressão é chope. “Cerveja é cerveja de garrafa”.

Sandes é sanduíche. “E é um, nunca uma sanduíche”.

Chávena é xícara. “Chávena não existe em português do Brasil”.

Frigorífico é geladeira.

Bala é rebuçado.

Pastilha elástica é chiclete.

Seis é meia (de meia dúzia).

Talho é açougue (diga á-cougue, com a boca bem aberta, caso contrário vai ouvir muito “oi?!”).

Telemóvel é celular.

Cartão do celular é chip.

Sítio não é sítio, é local ou lugar. Sítio é uma roça, uma quinta ou pequena fazenda. Rabo é bunda. “Rabo no Brasil é cauda de animal, de pavão, por exemplo”.

Preservativo é, uso comum, camisinha.

Gozar não significa brincar, “aqui tem uma conotação pornográfica”.

Rapariga é prostituta. “Menina de rua, de programa”.

Miúdo não existe, é piquitinho.

Estrangeiro é gringo. E português é portuga.

Aeromoça é hospedeira de bordo.

Ponto de ônibus é paragem de autocarro.

Camisola é camisa ou casaco. “Camisola aqui no Brasil é camisa de dormir de mulher.

Casaco é tudo o que tapa os braços”.

T-shirt é camiseta.

Blazer é palitó.

Boxers são shorts.

Entretanto eu tive de parar o jogo, tive vontade de ir à casa de banho.

Vidigal sorriu e disse: “O banheiro é ali em baixo, à esquerda”.