Prudente. Bravo, Nigel de Jong. Foi o único. O médio holandês, o trinco de 29 anos, o homem que, em Mundiais, tem colada a si a imagem de uma sapatada dada no peito de Xabi Alonso, há quatros anos. Aí não tirou a perna, mas foi o único holandês que se lembrou de meter um pé atrás antes do confronto com a Austrália. “Temos de ter cuidado, porque o seu timing de entrada de cabeça à bola é dos melhores do mundo”, avisou De Jong. Ui, cuidado então.

Mas de quem falava o holandês? Do wonderboy do futebol australiano, do aussie que a cada golo que marca arma uma cena de pugilismo com a bandeirola de canto. Ou seja, de Tim Cahill. Às 34 primaveras de idade, Tim está há dois anos nos EUA, no New York Red Bulls. Antes passa oito épocas na Premier League, do lado de cá do Atlântico. Entre 2004 e 2012, marca 58 golos com o Everton no campeonato e, em 21 deles, usa a cabeça para meter a bola na baliza. Isto com 1,78m de altura. Só Peter Crouch, com 2,03m, faz melhor neste período.

De Jong até tinha razão. E Mark Bresciano também. “Se temos um jogador como o Tim na área, dar-lhe serviço é algo que vamos tentar fazer”, garantiu o careca médio australiano. Aos 21 minutos, foi isso que Ryan McGowan fez. Nem perto da área holandesa estava, mas o defesa optou por mandar a bola ir à procura de Cahill. Soltou um balão e lá foi ela na direção de Cahill. Era difícil — o avançado estava ensandwichado entre dois defesas holandesas. Dominar a bola era perdê-la. Estava a pedir um cabeceamento.

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“Oh não”, pensou De Jong. “Pois não”, reforçou Cahill. A bola começa a descer e cá vai disto: o australiano remata de primeira, com a canhota, e sai bomba. Quando Cilessen, guardião holandês, levantou os braços, já o missil estava aconchegado dentro da baliza. Era o quinto golo de Cahill em Mundiais, metade dos que a Austrália 1-1, era o empate Sim, tínhamos de começar por aqui, pelo melhor golo da Copa do Mundo do Brasil, o que destronou o voo de Van Persie contra a Espanha. Antes, aos 20’, ja Arjen Robben marcara para se juntar a Thomas Müller com três golos feitos neste Mundial.

De resto, a Holanda estava à rasca. Quem diria? Van Gaal repetia os cinco defesa, mas tanto Blind como Janmaat, nas alas, insistiam em fechar ao meio, junto dos três centrais, e deixavam os laterais australianos apanhar bolas e soltaram cruzamentos à procura de Cahill. Pior: os holandeses mostravam que, montados em 3-5-2, não mandam em nada. São exímios quando o inimigo os tenta sufocar a atacar, ok, mas a Austrália não o conseguia fazer. Até é capaz de dominar a bola (tinha 54% de posse ao intervalo), mas espaço era coisa que não se via para Robben e Van Persie contra-atacarem.

Van Gaal foi esperto e corrigiu-se. A segunda parte começou sem Martins Hindi, mas com quatro defesas e Memphis Depay, o extremo que faltava para completar o 4-3-3. Era altura de pegar no jogo, os australianos já se estavam a esticar. Esticariam-se mais ainda. Aos 54’ há uma mão marota de Janmaat na área que dá um penálti para a malta da Grande Ilha. Cahill ainda estava em campo mas foi Jerdinak a marcar. 2-1. Alerta laranja.

Qualquer evacuação é rápida. Esta também foi. Quatro minutos depois, uma jogada na esquerda inventada por Sneijder e com um passe de Depay deixa Van Persie à frente da baliza australiana. O capitão remata, marca o 2-2 e faz o vice-versa com Robben — contra a Espanha tinha sido Van Persie a marcar primeiro. Os holandeses embalavam mas, aos 67’, os aussies quase lhes faziam outra desfeita, quando Matthew Leckie não fez um golo que já parecia feito.

Na jogada seguinte, o 3-2. E o segundo frango para a capoeira deste Mundial. A bola chegou a Depay que, a 30 metros da baliza e sem um australiano a chateá-lo, decide rematar. A bola vai a meia altura, dança um pouco no ar e bate à frente de Ryan, que não lhe consegue tocar para a desviar da baliza. Pobre Austrália, não merecia.

O jogo arrastou-se e a Austrália também. A equipa ainda fez um par de remates, aos 69′ e 73′, mas não mais esteve perto de marcar. O tempo passou e o jogo terminou. A Holanda abraça-se aos oitavos de final e a Austrália deixa as malas prontas para lhes pegar após o encontro com a Espanha, a 23 de junho — é a primeira seleção a ficar sem hipótese de sair da fase de grupos. Até daqui a quatro anos.

Antes, já houvera uma despedida. Estávamos com 68 minutos no relógio e Tim Cahill saía de campo. Já vira um cartão amarelo (aos 43’), o segundo na prova que dá direito a suspensão de um jogo. Portanto, a sua Copa acabava ali. Com um golo e um golaço. Um monumento. O seu quarto e quinto em Mundiais (2006, 2010 e 2014). Neste que foi provavelmente o seu último. Ou seja, também foi prudente e resolveu despedir-se com classe. Thanks, mate.