“É uma caixinha, do tamanho de uma pequena mala de viagem, que dá eletricidade”. Mas como? “A pessoa bombeia uma alavanca” durante três minutos, “com alguma força”, e a “caixinha” fica carregada. Esses três minutos “dão energia suficiente para carregar um telemóvel ou ter cerca de quatro horas de luz LED. Também se podem ligar outros pequenos eletrodomésticos, como uma ventoinha, durante cerca de três horas”, explica ao Observador João Silva, um dos investigadores do projeto KeepIt: Eletricidade para todos.

A pequena caixa de que João Silva fala produz e armazena energia através do esforço humano e é um dos 16 projetos que concluíram a edição deste ano do Programa COHiTEC. O projeto, ainda em frase de protótipo, vai ser apresentado esta terça-feira, na Porto Bussiness School, em Matosinhos.

E quando se gasta a carga? “Dá-se à bomba durante mais três minutos e assim se repete”, explica João Silva, de 22 anos, que juntamente com o professor Jorge Maia Alves, de 56 anos, e Miguel Panão, de 37, desenvolveram esta tecnologia. A ideia é a de que esta “caixinha” possa chegar a África e à Ásia, onde milhões de pessoas não têm eletricidade e utilizam querosene (espécie de gasolina) para a iluminação.

Vendors in one of the largest markets in Ivory Coast, the covered Adjame market in Abidjan, use candles on February 10, 2010 during a power outage. Ivory Coast, one of Africa's leaders in electricity supply, is enduring  power cuts because of a shortfall in production. The national electricity company, Ivorian Electricity Company (CIE), a subsidiary of the French group Bouygues, warned on February 1 that power cuts were likely to occur during the next three months.      AFP PHOTO / ISSOUF SANOGO (Photo credit should read ISSOUF SANOGO/AFP/Getty Images)Milhões de pessoas não têm eletricidade e utilizam querosene (espécie de gasolina) para a iluminação

Em África, explica João Silva, é muito comum utilizar-se querosene que, “além dos malefícios para a saúde” e os “inúmeros casos de queimaduras e acidentes”, é uma opção cara quando estão em causa milhões de pessoas que vivem com “menos de dois dólares por dia”. Segundo João Silva, em África, gasta-se, em média, “70 dólares por ano em querosene”, pelo que o investigador diz que será possível comercializar o KeepIt a um valor mais baixo, “entre os oito ou 12 dólares”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O KeepIt é, por enquanto, um protótipo. No final de 2014, já deverá estar pronta uma “versão mais afinada” e, em 2015, a equipa quer “começar a testar o produto”. Daqui a três anos, os investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa esperam ter uma versão final “para começar a comercializar”. Querem chegar ao maior número de pessoas possível. Assim, conta ao Observador João Silva, “optámos por nove países – Angola, Moçambique, Etiópia, Quénia, Uganda, Tanzânia, Índia, Bangladesh e Paquistão – que, ao todo, perfazem 132 milhões de casas sem eletricidade (aproximadamente 660 milhões de pessoas), isto é, metade de toda a população sem eletricidade no mundo”.

Atualmente, os investigadores estão a “desenvolver parcerias para os testes do produto em locais piloto em África” e ambicionam “produzir este produto e vendê-lo a entidades que já tenham uma rede estabelecida, como organizações não governamentais e retalhistas”. Assim, diz João Silva, o “KeepIt chegará mais eficientemente e rapidamente ao maior número de pessoas”. Sobre o potencial comercial do projeto, o investigador que responde pelo grupo sublinha que, dada a “necessidade de substituir a querosene”, e baseado nalgumas perspetivas de crescimento observadas em empresas na área, esperar “em 2021 ter vendas a rondar 40 milhões de euros”.

Mudar o curso da doença de Alzheimer
TransBarrier é o nome da equipa composta por Neusa Fonseca, Hélder Vila Real, Halyna Kupriychuk, e Secrix o nome do produto que ambiciona vir a ser um fármaco modificador da doença de Alzheimer. É um projeto que saiu do pós-doutoramento que Hélder Vila Real está a desenvolver no Instituto de Biologia Experimental Tecnológica (IBET), com financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Ao Observador, o investigador de 32 anos explica que “o Secrix visa ser um fármaco modificador da doença de Alzheimer”, no sentido em que pretende “prevenir a progressão da doença, ao passo que a medicação atual é meramente sintomática”.

<> on March 8, 2011 in UNSPECIFIED, United Kingdom.A doença de Alzheimer é um tipo de demência que provoca uma deterioração global, progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas

A participação no COHiTEC visou fazer com que “a investigação que faço na bancada possa chegar à vida real”, diz Hélder Vila Real. O maior entrave, conta o jovem investigador, “tem a ver com facto de estar limitado do ponto de vista financeiro. A determinada altura do desenvolvimento de um novo fármaco deixa de ser possível custear o seu desenvolvimento com base em financiamento de fundações”.

O Secrix “encontra-se ainda numa fase pré-clínica, ou seja, está ainda a muitos anos de distância de se poder tornar um medicamento”, porque, explica o investigador, “só os ensaios clínicos poderão levar cerca de seis anos”. O pedido de patente está feito e “há cinco ou seis empresas” farmacêuticas interessadas no produto. Esta terça-feira, o projeto de negócio do TransBarrier, que “ainda é uma semente”, vai ser apresentado na Porto Bussiness School e Hélder Vila Real, bem como toda a equipa, espera conseguir “arranjar investidores que ajudem a ir o mais longe possível nos testes”.

Mais de 20 empresas já foram criados
Ao longo dos 11 anos de Programa COHiTEC, “os investigadores têm demonstrado cada vez mais vontade de ver as suas investigações postas em prática”, conta ao Observador Pedro Vilarinho, diretor do programa. Até à data, já “foram criadas 23 empresas de base tecnológica diretamente a partir dos projetos participantes no COHiTEC”, empresas que “receberam um investimento superior a 17 milhões de euros”.

É o caso, por exemplo, da ACS – Advanced Cyclone Systems-, que “já exporta os seus ciclones de separação de partículas do ar para três continentes, prevendo um volume de negócios de cerca de quatro milhões de euros este ano”, revela Pedro Vilarinho.

Ao longo de quatro meses, 48 investigadores, 24 estudantes de gestão e 32 mentores participaram e concluíram a edição de 2014 do Programa COHiTEC. Durante a ação de formação, estas equipas multidisciplinares prepararam um projeto de negócio para as ideias de produto baseadas nas tecnologias e investigações. As tecnologias que estão na base dos projetos foram desenvolvidas nas universidades de Aveiro, Coimbra, Lisboa, Minho, Nova de Lisboa e Porto e no Instituto de Biologia Experimental Tecnológica (IBET) e Centro de Energia das Ondas (WavEC).

O Programa COHiTEC é uma iniciativa da COTEC Portugal– Associação Empresarial para a Inovação, e conta com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, da Caixa Capital e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). É realizado em parceria com o centro HiTEC da North Carolina State University, a Porto Bussiness School e do ISCTE Executive Education.