O mundo ficou em choque. A 11 de setembro de 2001, milhões de olhos colaram-se aos ecrãs de televisão que, de Nova Iorque, traziam imagens de tragédia. Dois aviões, um após o outro, embateram nas torres gémeas dos dois arranha-céus do World Trade Center. Ambos ruíram e mais de duas mil pessoas morreram.

Frank Lampard ainda era jovem. Tinha 23 anos e, em Londres, acabara de mudar de cores. Do grená do West Ham, onde começou a dar pontapés na bola, em 1995, passara ao azul do Chelsea. A 12 de setembro, na ressaca do desastre, lá estava o médio inglês, com a restante equipa inglesa, perto de Heathrow.

Todos iriam pernoitar no Posthouse Hotel, ali mesmo ao lado do aeroporto, após a UEFA, em memória das vítimas do 11 de setembro, adiar os jogos da primeira mão da 1.ª eliminatória da Taça UEFA — que o Chelsea ia realizar, em Sófia, contra os búlgaros do Levski. A noite não correu bem. “Eles fizeram muito barulho, derrubaram coisas no bar e chatearem toda a gente. Estavam bastante bêbados”, queixou-se, na altura, Antonio Parisini, gerente do hotel, à BBC.

Eles? Sim, no plural. Além de Frank Lampard, John Terry, Jody Morris e Eidur Gudjonssen, todos jogadores do Chelsea, teriam dado um espetáculo de palavrões, vómitos e até striptease, escreveu a imprensa inglesa, na altura. “Um comportamento totalmente fora do controlo”, criticou também Chris Hutchinson, diretor-geral do Chelsea. Todos sofreram as consequências: os quatro blues foram multados e ficaram sem duas semanas de salário cada um.

Eis o maior problema — devido aos cortes e adiamentos de diversos voos internacionais, o hotel acolhia nessa noite vários turistas norte-americanos. “Eles sublinharam, categoricamente, que não queriam, de maneira alguma, insultar as pessoas, e certamente não pretendiam abusar de ninguém”, assegurava Hutchinson, após se reunir com os jogadores.

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E a coisa ficou por aí. A vida seguiu e os anos passaram. Para Frank Lampard, foram 13 as épocas que contou a vestir, todas as semanas, a camisola do Chelsea. E foi pintando a sua lenda: conquistou três Premier Leagues (em 2005, 2006 e 2010), uma Liga dos Campeões (2011) e, por exemplo, uma Liga Europa (2012). Ao todo, foram 13 os canecos que levantou com o clube azul de Londres, marcando 117 golos na liga inglesa pela meio — um recorde no Chelsea.

A última aventura que trouxe a recordação

Em 2014, o serviço terminou. Aos 36 anos, Lampard decidiu continuar com as futeboladas. Mas por outros relvados. Esperou até que acabasse a aventura com a seleção inglesa, no Mundial, e, esta semana, apareceu em Nova Iorque. Confirmava-se: nas próximas duas temporadas, jogará no New York City FC, clube que apenas começará a competir na Major League Soccer (MLS) em 2015 — e que, aliás, apenas tem quatro jogadores na lista de assalariados.

E a verdade é que Frank Lampard poderá imitar David Villa. O avançado espanhol também se transferiu para o clube nova iorquino e já foi emprestado, até março de 2015, ao Melbourne City, clube ‘irmão’ do New York City FC. E o médio inglês também poderá passar uns meses no clube australiano. Antes, contudo, teve de se apresentar. De enfrentar os holofotes e os curiosos jornalistas norte-americanos, numa conferência de imprensa realizada em Brooklyn, um bairro de Nova Iorque.

E foi uma questão de tempo até uma pergunta recordar Lampard do que se passou, há 13 anos. “Não quis insultar ninguém ou comportar-me de uma má forma diante de [cidadãos] norte-americanos, e esta é uma excelente oportunidade para o dizer”, garantiu o internacional inglês, antes de sublinhar que é “muito sensível ao tema e à tragédia”. Lampard, contudo, admitiu ter “alguns remorsos”, ao dizer que, na altura, era “jovem e ingénuo” e que “não deveria ter saído” do quarto “naquele dia”.

during the 2014 FIFA World Cup Brazil Group D match between Costa Rica and England at Estadio Mineirao on June 24, 2014 in Belo Horizonte, Brazil.

Frank Lampard esteve com a seleção inglesa no último Mundial (o seu terceiro, após 2006 e 2010). Jogou os 90 minutos do último encontro da fase de grupos, frente à Costa Rica.

Nos últimos 13 anos, aliás, o médio realçou que “tentou não apenas ser um bom futebolista no relvado”, como também “um bom homem fora dele”. Lampard, em conversa com o New York Post, classificou o episódio como “o maior arrependimento” da sua vida, lamentando também que o caso, na altura, “foi mal difundido” pela imprensa inglesa. “E adorava explicar isto aos nova-iorquinos”, sublinhou. Terá oportunidades para o fazer — até porque alguns adeptos quererão ouvi-lo.

O Daily Telegraph dedicou um texto às várias mensagens que adeptos do clube publicaram contra a contratação de Frank Lampard — do mesmo tipo de mensagens que ainda se encontra no fórum dos apoiantes do New York City.  FC. “É uma contratação mal pensada. Acontece. Mas não podia ser mais surda a decisão de pegar num jogador que cometeu esta gaffe enquanto jovem e trazê-lo para Nova Iorque”, escreveu Tom Fairfield. “O que ele fez não pode ser defendido”, criticou SebastianBlue, já depois do utilizador Midas Mulligan escrever: “Espero que vá todos os dias limpar o chão do WTC [memorial das vítimas do 11 de setembro].”

Mas, refira-se, a coisa não é assim tão negra. “Será correto culpar indefinidamente uma pessoa por um ato embriagado (que não violou qualquer lei), que cometeu com aquela idade e impedir que tenha um emprego?”, questionou um adepto. Outro, identificado como Duke Van Hammer, afirmou “não conhecer uma pessoa que nunca tenha desrespeitado alguém ou feito algo estúpido quando tinha 22 ou 23 anos. Hoje, Lampard tem 36, é altura de toda a gente seguir” em frente. “Incluindo os media”, ressalvou.

Em frente ou não, Frank Lampard, a trintona lenda do Chelsea, defenderá o New York City FC a partir de março de 2015. Criticado ou não, isso é certo. “Quero contribuir para uma equipa que orgulhe os nova-iorquinos”, garantiu. Agora é esperar uns meses e ver como corre.