O Banco Espírito Santo emprestou dinheiro secretamente à holding, Espírito Santo International (ESI), avançou o Financial Times quinta-feira. Segundo documentos que aquele diário britânico consultou, a operação de financiamento da ESI, que detinha então 25% do banco, durou dois anos e aconteceu através de um pequeno banco no Panamá. O dono desse banco é o Espírito Santo Financial Group.

Numa reportagem mais desenvolvida sobre o colapso do grupo, o FT publica um esquema que ilustra a forma como o dinheiro circulava:

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Estas movimentações não foram declaradas e colocam novamente a supervisão do Banco de Portugal no centro das atenções. Em agosto, aquando da falência anunciada do Grupo Espírito Santo (GES) e da criação do Novo Banco, o Banco de Portugal declarou que havia detetado “financiamento fraudulento” envolvendo empresas não financeiras do GES.

“O Grupo Espírito Santo, através de entidades não financeiras não sujeitas à supervisão do Banco de Portugal, situadas em muitos casos em jurisdições de difícil acesso, desenvolveu esquemas de financiamento fraudulento entre as empresas do grupo”, disse o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, no dia 3 de agosto, a noite em que foi anunciada a divisão do banco em dois (banco bom vs. banco mau).

Contactados pelo FT, Banco de Portugal e representantes da ESI recusaram comentar esta notícia. “O Banco de Portugal não aprendeu a lição com as falências de outros bancos”, disse um banqueiro lisboeta ao FT, na quinta-feira. “A supervisão tem sido muito muito suave. As regras que existem no papel não são colocadas em prática.”

O jornal britânico recorda ainda a polémica ocorrida na semana passada entre a KPMG, o auditor externo do BES, e o Banco de Portugal, sobre o timing dos primeiros alertas da empresa de auditoria sobre a verdadeira extensão das perdas do banco português, que o conduziria ao colapso.

A KPMG prestou serviços de auditoria a 60 empresas do Grupo Espírito Santo (GES), entre as quais o Banco Espírito Santo (BES) e a Espírito Santo Financial Group (ESFG). Por essa razão, foram levantadas muitas questões e críticas sobre o que realmente sabia a KPMG, contou o Observador nos finais de agosto.

O último relatório anual do BES informou que tinha crédito exposto ao ES Bank Panama, o tal banco usado para financiar a holding, embora não tenha especificado a natureza das operações, muito menos mencionado qualquer empréstimo à ESI ou a outra empresa ligada à família Espírito Santo.

Segundo o FT, esse banco no Panamá é usado quase exclusivamente para comprar dívida emitida pela ESI e os seus subsidiários Rio Forte e Espírito Santo Irmãos, de acordo com um relatório elaborado por administradores do ES Bank.