Aos 76 anos e depois da abdicação, Juan Carlos não pensa em reformar-se. O antigo rei de Espanha está a tentar redesenhar a sua vida e o seu trabalho depois de 39 anos à frente da Casa Real. Não irá divorciar-se de Sofia e não vai casar-se novamente. Não pretende interferir no reinado do filho, mas também não quer estar parado. Juntamente com os seus conselheiros, estuda a ideia de criar uma fundação, à qual presidirá e na qual estariam representadas “personalidades importantes”, escreve o El País. O antigo chefe da Casa do Rei, Rafael Spottorno, deverá ocupar um posto importante.

O projeto está a ser preparado há semanas e quando estiver pronto será submetido à aprovação de Mariano Rajoy e do rei Felipe VI. O jornal espanhol diz que as negociações já começaram e estão a ser conduzidas de forma discreta. No palácio real, tudo o que diz respeito ao antigo rei também está envolto num clima de discrição, sendo que a mensagem oficial transmitida é a de que Juan Carlos não tem uma agenda oficial, podendo ter algumas missões encomendadas. Como aconteceu no dia 7 de agosto, quando se deslocou à Colômbia para a tomada de posse do presidente Juan Manuel Santos. Enquanto príncipe das Astúrias, Felipe representou a Casa Real neste tipo de atos, tendo viajado muito pela América Latina.

O desaparecimento de cena de Juan Carlos foi de tal forma repentino que não faltaram as especulações: o antigo monarca passaria grande parte do tempo em Londres, escreviam uns; os pais de Felipe iriam divorciar-se, afirmou o La Reppublica; Juan Carlos casar-se-ia com a alegada amante, Corinna zu Sayn-Wittgenstein. O palácio da Zarzuela nunca respondeu. Corinna, por sua vez, disse esta semana que continua amiga do antigo rei, mas que a relação entre ambos mudou, fazendo já algum tempo que não se veem, apesar de manterem o contacto telefónico.

Aqueles que trabalham de perto com o ex-monarca dizem que Juan Carlos está entusiasmado com a ideia, que “está tranquilo e orgulhoso do passo que deu”. O El País comenta que, ao contrário de Alberto da Bélgica, que abdicou do trono em julho de 2013 e que desde então se tem queixado de que ninguém se lembra dele e de que não tem dinheiro para os seus gastos, Juan Carlos não está deprimido. E nem a saúde parece estar a dar muitos problemas. O jornal espanhol escreve que o antigo monarca está “muito melhor dos seus problemas de mobilidade”, mas terá de continuar a usar a bengala. Os médicos recomendaram-lhe que perca peso.

No passado fim de semana, Juan Carlos almoçou em Burgos e foi descoberto pelos restantes clientes, que quiseram tirar fotografias com o ex-rei. Ao contrário do que acontece com o seu homólogo belga, nestas situações, Juan Carlos pode experimentar o carinho que os espanhóis ainda sentem por ele, escreve o El País.

Numa entrevista ao Observador, José Apezarena, jornalista especializado na Casa Real, disse que Juan Carlos não se iria divorciar, mas o seu relato sobre a situação do antigo monarca foi mais pessimista. Apezarena afirmou que Juan Carlos está “muito debilitado fisicamente” e que “está a passar muito mal”, porque “não pode fazer nada”:

Não pode fazer desportos, não pode navegar, não pode caçar, não pode ir passear. Mais, não tem ninguém em casa. Agora dizemos que o rei Juan Carlos está sozinho. Os filhos já não moram com ele, a rainha Sofia está sempre em viagem – e faz bem. Agora Juan Carlos já não vai falar com o primeiro-ministro ou com os ministros sobre os assuntos de Estado. Está a viver um momento difícil. Sei que tem um amigo com quem vai almoçar a Madrid, mas não faz mais nada.

O El País escreve que Sofia e Juan Carlos se veem pouco, apesar de viverem no recinto principal do palácio da Zarzuela – em alas separadas. Dos três filhos do casal, é com a infanta Elena que o antigo monarca mantém um maior contacto. O jornal espanhol garante que a comunicação entre Juan Carlos e o atual rei é “fluida” e que os escritórios de ambos ficam por cima um do outro. A preparação da transição da coroa tê-los-á aproximado, continua.