Fica às portas do Bairro Alto, em Lisboa, mas poucos sabem que ela existe. Até António Zambujo ter decidido dar o nome dessa rua ao novo álbum. Rua da Emenda chega às lojas esta sexta-feira e é o fim de um ciclo. “É uma chatice estar a fazer música só por ter aquele sucesso garantido, aquela receita que já sabemos que vai funcionar”, disse ao Observador no Lisb’On Hostel, com as janelas viradas para a Rua da Emenda, e para um horizonte ainda desconhecido.

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Mas o que é que esta rua tem? “O disco chama-se Rua da Emenda, primeiro por uma enorme falta de criatividade para escolher nomes”. Mas há uma razão. É na Rua da Emenda que está a sala de ensaios de Zambujo, que na verdade é a casa de um dos seus músicos, Ricardo Cruz, que assim não precisa de carregar com o contrabaixo em deslocações. É ali o ponto de encontro antes de qualquer concerto em Portugal. A casa de António Zambujo também é ali perto, no Largo Camões. Tudo parece passar pela Rua da Emenda, ainda que à primeira vista nada se passe ali.

E não. Para António Zambujo, dar o nome de uma rua de Lisboa ao álbum não é uma traição ao seu Alentejo. “O Alentejo está cá sempre”, disse. Sempre estão também os vários “moradores” deste disco, nomes como Miguel Araújo, José Eduardo Agualusa, João Monge, Ricardo Cruz e Maria do Rosário Pedreira, a única mulher que colaborou na Rua da Emenda, e que deu ao último disco a letra da música de maior sucesso, “Flagrante”.

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O primeiro single, “Pica do 7”, por exemplo, era uma música que já existia no projeto Os da Cidade, que Zambujo mantém com Miguel Araújo. Por já a tocar nos concertos, muitas vezes a pedido do público, a escolha para single foi natural. “Normalmente nunca defino um single. Escolhemos por razões editoriais, mas para mim o disco funciona como um todo”. Pelo meio, confessa-se um bocadinho despassarado, como a oitava música do álbum, mas não desorganizado. E trocava o Benfica por um carinho, como canta em “Valsa de um pavão ciumento”. “Trocava o futebol por tudo, hoje em dia. É tão mau que me fez deixar de gostar”.

Zambujo nunca teve tanto sucesso. Mas, em vez de continuar a apostar numa fórmula vencedora, quer reinventar-se. “Sinceramente acho que este é um disco conclusivo, que põe fim a um ciclo”. Daqui para a frente vamos ver o que vai acontecer. “Não quer dizer que eu vá deixar de fazer coisas com estes músicos, mas o tipo de sonoridade já atingiu aquilo que nós pretendíamos. Ao atingir essa meta temos de começar a pensar fazer algo de novo. É um desafio também, porque senão é uma chatice estar a fazer música só por ter aquele sucesso garantido, aquela receita que já sabemos que vai funcionar”.

Assumidamente, a ideia é começar novamente do zero, explicou. Para já só existe a própria voz e guitarra, mas um futuro a solo ainda não é uma certeza. Zambujo vive no presente e o horizonte não o preocupa.