Cada jovem representa uma oportunidade de mudar o mundo. O discurso positivo está implícito no relatório mundial de 2014 do Fundo para a População das Nações Unidas. O título do documento orienta desde logo os objetivos — “O poder de 1,8 mil milhões de jovens” foi apresentado esta terça-feira na Assembleia da República.

“Não se pode perder a oportunidade de aproveitar esta quantidade de jovens”, refere Luísa Salgueiro, deputada e vice coordenadora do grupo parlamentar português para a População e Desenvolvimento. Os 1,8 milhões de jovens que existem atualmente no mundo são o maior número desde sempre nesta faixa etária. Nunca existiu tanta população jovem como agora, sendo que a maioria se encontra nos países em desenvolvimento. E é nesses países que surgem também os dados mais preocupantes, sobretudo na área da saúde sexual/reprodutiva e educação:

– Por dia casam 39 000 raparigas com menos de 18 anos.

– Cerca de 60% da população jovem dos países em desenvolvimento não trabalha nem frequenta a escola, tendo no máximo só um emprego casual.

– Mais de 500 milhões de jovens lutam por sobreviver com menos de 2 dólares por dia.

A alta mortalidade infantil e as grandes taxas de fecundidade andam de braços dados, conta Catarina Furtado. “Quando as crianças sobrevivem, os pais também decidem ter menos filhos porque assim dão-lhes mais oportunidades”, lembra pela experiência que já teve em países como Guiné-Bissau ou Moçambique enquanto embaixadora da Boa Vontade da UNFPA desde 2000. Na Assembleia da República, Catarina Furtado apresentou as linhas do documento e resumiu o relatório como uma “aula detalhada” que ajuda a olhar para o mundo em duas perspetivas: “o mundo que tem vindo crescer” e o mundo “que queremos ver crescer”.

A realidade demográfica portuguesa contrasta com a maioria dos países em desenvolvimento, lembra Luísa Salgueiro. No entanto, no que respeita às vontades dos jovens, a diferença não é tão grande. Catarina Furtado recorda que, no relatório, foi perguntado a jovens de países em desenvolvimento e a jovens de países desenvolvidos quais eram as suas duas primeiras necessidades. Ao contrário do esperado, as respostas dos grupos foram iguais: boa educação e um governo “honesto” e “responsável”.

No caso português, as questões apresentadas como prioritárias estão noutro domínio: a desigualdade de género e a falta de oportunidades para os jovens, impulsionadas sobretudo pelas dificuldades económicas. “A crise faz com que as mulheres tenham menos possibilidades de ter filhos.”, aponta Catarina Furtado. E resolver a desigualdade pode até dar dinheiro. O relatório avança que quando se investe nas questões de desigualdade de género, o desenvolvimento económico também regista melhorias. Foram feitas várias simulações e a conclusão está clara no documento em anexo.

A eleição de Portugal para o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas é uma “oportunidade”. A juntar a isto, Luísa Salgueiro lembra que o próximo ano será o Ano Europeu da Cooperação — outra oportunidade para movimentar a ação política. Catarina Furtado sugere, desde já, que “os políticos se agarrem a este relatório, que não é só sobre os países em desenvolvimento”.

A vice-coordenadora do grupo parlamentar português para a População e Desenvolvimento insiste na necessidade de “políticas públicas de acesso à educação e investimento público que permita resolver a disparidade que existe em várias áreas do planeta”. Todos os anos, o relatório sobre a situação da população mundial do UNFPA tem um tema diferente. No ano passado o foco esteve na gravidez precoce das adolescentes e nos casamentos forçados. Este ano, com a juventude na mira da reflexão, também estiveram presentes na AR Graça Campinos Poças, da P&D Factor, Ana Paula Laborinho (Instituto Camões), Carla Martingo (P&D Factor), António Carlos Silva (AJPAS – Associação de Intervenção Comunitária, Desenvolvimento Social e de Saúde), Joana Branco Lopes (Conselho Nacional da Juventude), Ana Farias (P&D Factor) e Júlio Oliveira (Federação Nacional das Associações Juvenis). São “diplomatas sem carteira”, como sintetiza Catarina Furtado.

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