Conhecido por “Super-Juiz”, mas também por “Juiz sem medo” ou “Mourinho da Justiça”, Carlos Alexandre, 53 anos, é o magistrado judicial responsável pelo Tribunal Central de Investigação Criminal, conhecido por “Ticão”. Nos últimos anos, Carlos Alexandre foi o nome associado aos processos judiciais com maior impacto mediático como o caso Monte Branco e as operações Furacão, Portucale, Face Oculta e BPN. Em julho, ordenou a detenção de Ricardo Salgado. Este fim de semana está a ouvir o antigo primeiro-ministro José Sócrates, detido na sexta-feira.

Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Carlos Manuel Lopes Alexandre, que raramente dá entrevistas à comunicação social. Filho de um carteiro e de uma operária fabril, o juiz, natural de Mação, estudou na Telescola e licenciou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Católico, sportinguista e aficionado de touradas, Carlos Alexandre é presença frequente na praça de Touros do Campo Pequeno e no Estádio de Alvalade, escrevia no sábado o Diário de Notícias. Segundo a Renascença, os amigos e as pessoas mais próximas do magistrado asseguram que este não recua perante ameaças, como quando a sua mulher foi atropelada, ou quando a sua casa em Linda-a-Velha foi assaltada e Carlos Alexandre encontrou, junto de uma fotografia dos filhos, uma pistola.

Numa rara entrevista dada ao amigo António Colaço, antigo assessor do PS e dinamizador do blogue “Ânimo para tornar os dias mais leves”, Carlos Alexandre disse: “Em matéria criminal, além do conhecimento óbvio que tem de haver é preciso coragem, dedicação, disponibilidade (…) Se alguma qualidade me pode ser efetivamente assacada é a de ter alguma coragem”. O juiz acrescentou ainda: “Eu até este momento ainda não tenho preocupação sempre que abro a minha porta de casa e do gabinete”.

À data da entrevista, Carlos Alexandre encontrava-se a dirigir a instrução do processo Face Oculta. Ao amigo e entrevistador, disse ser necessário dar mais poderes aos operadores judiciários para que estes possam conduzir grandes investigações. Poderes que passam, por exemplo, pela “não repetição de todos os atos feitos na fase de inquérito”, pela “gravação de depoimentos que fossem válidos em fases processuais subsequentes” e pela remoção da impossibilidade de “aplicar uma medida de coação superior à que foi pedida pelo Ministério Público”. Carlos Alexandre expressou, então, preocupação por ver cada vez mais “sinais contrários” ao que defendia. “Vejo fazerem-se normas para proibir o acesso a diligências em casos em que o processo já não é secreto”, disse.

Sobre as escutas, Carlos Alexandre disse nessa entrevista que a transcrição das conversas tem custos muito elevados, devendo dar-se, por isso, prioridade à “oralidade e ao suporte sonoro”. “Está na altura de os nossos legisladores confiarem na justiça, no sentido de passarmos a uma fase de mais oralidade, ou seja, as transcrições serem feitas só em casos muito excecionais”, disse o juiz, acrescentando que as escutas permitem compreender “com mais propriedade” o sentido das conversas “pelo giro, pelo tom linguístico, pela entoação” com que os intervenientes se expressam.

Como católico, participa sempre nas comemorações da Páscoa em Mação, onde nasceu. Há dois anos, o amigo António Colaço voltou a entrevistá-lo para o blogue Ânimo. Nessa ocasião, Carlos Alexandre participava numa oração na noite de sexta-feira Santa e respondeu a algumas perguntas para a câmara, revelando uma situação de pressão. “No contexto de uma diligência em que se procurava tomar contacto com documentação, foi-nos dito, por uma pessoa com importância na praça, que sabia o que estava ali a fazer porque estava ali a mando de alguém que lhe pagava e que essa pessoa contava com ele para fiscalizar aquele ato, porque quando o dinheiro falava, a verdade calava”. A resposta do juiz: “Comigo a verdade falará sempre mais alto”.