François tinha uma vida descansada. Um dia, a população da aldeia percebeu que, na América, o correio era entregue de avião. François, na sua modesta bicicleta, não podia fazer frente a tanta rapidité americana. Ou será que podia? Em 1947, Jacques Tati, com o seu Jour de Fête (Há Festa na Aldeia), abria a porta à geração cinematográfica da Nouvelle Vague e ditava o tom que marcaria toda essa corrente: a oposição ao cinema de massas e, de um modo geral, àquilo que os franceses consideravam ser o imperialismo cultural americano. Do ecrã para a vida do dia-a-dia, foi de França que surgiram algumas das expressões mais vívidas contra um certo domínio global americano, quer a nível económico quer cultural. Em 1999, por exemplo, um grupo de sindicalistas destruiu um restaurante McDonald’s.

A McDonald’s pode continuar presente em força no mundo inteiro (e, curiosamente, ter em França os seus melhores resultados, segundo o Wall Street Journal), mas a importância que as empresas tecnológicas americanas ganharam nos últimos anos levou a uma mudança de alvo — e à criação de uma nova sigla: GAFA. Ou seja, Google, Apple, Facebook e Amazon. Os exemplos na imprensa francesa da utilização desta expressão estão facilmente acessíveis na internet (aqui, aqui e aqui, por exemplo), mas também em jornais anglófonos, como é o caso do Wall Street Journal, se encontra referência a GAFA como sendo a expressão usada pelos franceses para se referirem àqueles gigantes tecnológicos americanos.

O termo “não é usado muito frequentemente, mas quando isso acontece, é quase sempre em tópicos críticos, como impostos ou dados pessoais”, explica ao Quartz o editor de economia do Le Monde, Alexis Delcambre, que refere que naquele jornal a expressão foi usada pela primeira vez em dezembro de 2012.

Nos últimos meses, todas as empresas do GAFA estiveram envolvidas em polémicas relativas a quebras de privacidade, a esquemas de fuga ao Fisco e a envolvimento nos casos de espionagem massiva de cidadãos (ou a todas elas), casos que tiveram grande repercussão na imprensa europeia, o que pode ajudar a explicar a conotação negativa que os GAFA habitualmente têm em França.

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Mais do que fuga ao Fisco, Liam Booger, fundador do site francês Rude Baguette, acredita que a expressão GAFA tem que ver acima de tudo com “a distribuição de poder no mundo online“. Ou seja, uma certa irritação dos franceses para com o poderio americano naquela que é hoje uma das áreas económicas mais importantes do mundo. Com os seus serviços (email, conversação em tempo real, compras, redes sociais, etc.), os GAFA têm uma presença preponderante nas vidas de milhões de pessoas. E é esse poder omnipresente que irrita os franceses (e não só).

Conotações negativas à parte, a sigla GAFA é também um sinal dos tempos. Empresas como a Microsoft, a Yahoo, a IBM ou a Intel, também importantes companhias do setor tecnológico mas com menor impacto mediático, ficam de fora.