A sustentabilidade é um modelo de negócio viável. E é a única maneira de garantir que um negócio é resiliente”, diz em entrevista ao Observador Rabab Fayad, diretora da Rede Global do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD). A representante da organização esteve em Portugal para falar da importância dos recursos naturais no âmbito da conferência “Portugal, Capital Natural – agricultura, mar e florestas” que decorreu esta segunda-feira em Lisboa.

À medida que a população aumenta, o mesmo acontece com a utilização dos recursos naturais. E se os recursos não forem poupados, repostos ou restaurados, não é só o ambiente que entra em falência, as empresas também. “Se as empresas querem continuar a fazer negócios no futuro têm de o fazer de forma reporem os recursos que gastam. De outra forma não terão capacidade de continuar em funcionamento”, diz Rabab Fayad, acrescentando que se não forem tomadas medidas agora, os danos ambientais poderão ser irreversíveis.

Como é que o planeta pode comportar uma população de nove mil milhões de pessoas em 2050 e continuar a providenciar-lhe comida e bem-estar? Só quando os governos e as empresas se juntarem na luta pelo desenvolvimento sustentável. E o papel das empresas é realmente importante. “Não podemos viver sem indústria. Mas também não vamos sobreviver se a indústria continuar este caminho de insustentabilidade”, nota a diretora da rede global. Por isso, a WBCSD definiu uma missão – Vision 2050 – que pretende integrar o ambiente, a sociedade e as empresas no desenvolvimento sustentável até esse ano.

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Tradução: Francisco Ferreira

Mas como é uma meta de muito longo prazo, a organização empresarial estabeleceu também um plano para 2020 – Action 2020 – com medidas concretas e mensuráveis, que terão um impacto em larga escala. São propostas 35 soluções que podem abarcar áreas tão diversas como alterações climáticas, mobilidade ou empregabilidade, e incluem medidas como recuperação de recifes de coral e reflorestação – os recifes e florestas funcionam como sumidouros de carbono -, recuperação de 12 milhões de hectares de solo arável por ano ou aumento da proteção das zonas costeiras em 10%. “As soluções são das empresas, para as empresas”, nota Rabab Fayad. “Portanto têm de ser soluções empresariais lucrativas, que sejam viáveis e cujos custos possam ser suportados pelas mesmas.”

As medidas propostas pela WBCSD podem ser assumidas e replicadas por cada uma das redes locais parceiras, com as devidas alterações e adaptações às realidades locais. Entre as 67 redes parceiras encontra-se o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável em Portugal (BCSD Portugal). A Ação 2020, criada em linha com a Vision 2050 da WBCSD, tem objetivos concretos para a etapa intermédia de 2020 assumidos pelas 100 empresas membros do conselho português. Lançada em novembro de 2013, a Ação 2020 conta com 13 medidas dentro das seis áreas prioritárias para os empresários portugueses, incluindo: desenvolvimento social, economia, capital natural, energia, cidades e infraestruturas, e indústria e materiais.

“A sustentabilidade ambiental tem de andar de mão dada com a sustentabilidade social.”
Rabab Fayad, diretora da Rede Global do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável

O papel de Rabab Fayad é “trabalhar dentro das políticas e diálogos nacionais” para criar um “fluxo de trabalho e um modelo de negócio que estejam em linha com a sustentabilidade e o desenvolvimento”, porque todos os países são diferentes. “O objetivo que tenho é trabalhar com as empresas dentro da própria cultura e hábitos, de maneira a que peguem no nosso trabalho e o adaptem tornando-o local”, explica a diretora da rede global, referindo, no entanto, que as empresas têm de perceber que mesmo agindo localmente, têm de pensar globalmente. Basta pensar que “60% dos recursos naturais foram destruídos nos últimos 50 anos”, refere.

Rabab Fayad dá o exemplo das alterações climáticas e de outros assuntos ambientais que considera estarem “no centro de muitos dos nossos problemas”. É preciso, por um lado, que as empresas incorporem o desenvolvimento sustentável no plano de negócios, por outro, que não o considerem simplesmente como uma forma de responsabilidade social. “Algumas empresas ainda não compreendem que têm de ir além da responsabilidade social e implementar a sustentabilidade como uma parte fundamental do negócio. Não é caridade, é dar segurança para o futuro do negócio.” Fazendo referência à grande quantidade de ideias inovadoras que têm surgido, a diretora da rede global considera que a sustentabilidade e a empregabilidade beneficiam dum contacto estreito. “É um desafio, mas não é um fardo. Na verdade, é uma oportunidade e uma aventura.”