Um rato de área. Dos que consegue espreitar em qualquer espaço, pequeno ou grande. Que aparece do nada, foragido a todos, com o pé, a perna ou cabeça para rematar a bola para golo. Até parece que lhe serve de íman quando dentro está do retângulo que rodeia a baliza inimiga. Um rato de área nem precisa de ter nos pés duas almofadas recheadas de técnica: basta estar no sítio certo, à hora certa e trazer com ele uma mira certeira. Poderia ser assim, mas Jonas não o é.

Até o podia parecer logo aos 13 segundos, quando lá estava na área, no local combinado com Nico Gaitán, no fim de um passe pelo ar do argentino. O pontapé do brasileiro, contudo, falhou na bola. Aos 6’, depois de Ola John soltar um passe com força de remate para Gaitán, de o argentino rematar contra o guardião do Vitória de Guimarães, e de André Almeida transformar em chapéu o ressalto, lá estava Jonas, encostado ao poste, a cabecear a bola contra a rede lateral.

Benfica: Júlio César; André Almeida, César, Jardel e Eliseu; Samaris, Anderson Talisca, Nico Gaitán e Ola John; Jonas e Lima.

V. Guimarães: Assis; Bruno Gaspar, João Afonso, Josué e Chemmam; Cafú, André André e Bernard Mensah; Hernâni, Tomané e Ricardo Gomes.

Só à terceira foi rato, quando, aos 14’, se escondeu atrás de um defesa vimaranense, esperou que Gaitán batesse um livre na direita para, perto do primeiro poste, cabecear a bola para o 1-0. E o 11.º golo na temporada. Foi aqui, antes do quarto de hora chegar, que o Benfica embrulhou um arranque que aprisionou o Vitória à sua área onde Jonas insistia em ser rato. Os encarnados trocavam a bola rápido. Os passes saíam acelerados, as jogadas também, e quando a perdiam a bola era maior a rapidez com que cercavam os adversários e os obrigavam a errar.

Aconteceu muito. Algo invulgar num Vitória que Jorge Jesus via como “outsider” e “com todo o mérito”. Mas a equipa teimava em não conseguir sair do meio campo a passear a bola na relva: Cafú, o trinco, estava sempre ocupado em ajudar a defesa; as linhas de passe para Hernâni, o extremo velocista, eram sempre tapadas; e André André, o “pequenino” e “careca” que Rui Vitória, o treinador, vê como “o médio que pensa o jogo mais rápido” em Portugal, não tinha tempo para decidir o que fazer às bolas que recuperava.

Os vimaraneses estavam apertados. E assim continuaram até o jogo contar meia hora. Pelo meio, aos 20’, viram uma bola batida por Gaitán, noutro livre, quase no mesmo sítio, a não ser tocada e, com o ressalto na relva, a bater na barra. Oito minutos volvidos e foi Talisca, à entrada da área, a passar a bola para Ola John, que estava bem perto, ao seu lado, e a deixar o copo a jeito para que o holandês a devolvesse para a rematar de primeira: assim o fez, mas ela foi contra o poste esquerdo da baliza de Assis.

Depois, aos 34’, foi a vez do tal rato pedir a Gaitán que esperasse pela sua corrida. O argentino obedeceu, abrandou e, assim que Jonas o ultrapassou num contra-ataque, passou-lhe a bola. O brasileiro, já na área, parecia estar de olho num remate cruzado, mas optou por rematar e acertar no poste direito, o que estava mais perto. Pontaria afinada com o poste, desafinada com o golo. Na jogada anterior fora o Vitória a começar a afinar, quando Cafú, à entrada da área, aproveitou um chutão para a frente de Jardel, sem tino, para disparar um remate que Julio César não agarrou.

Aos 39’ foi Tomané, num canto e com a cabeça, a rematar a bola quando estava a cerca de um metro do guarda-redes encarnado, que a parou por instinto — e, depois, sentado na relva, a pontapeou quando a gravidade a fez cair sobre si. O intervalo chegava com o Vitória a crescer, a soltar os jogadores e a mandá-los pressionarem uns metros à frente, onde o Benfica começava a desenhar jogadas. E começavam, por fim, a acerta os primeiros passes que faziam após recuperarem bolas.

Os vimaranenses queriam abanar a árvore encarnada. O primeiro fruto caiu aos 51’, quando um passe de André Almeida acabou no pé esquerdo de Hernani. O luso-cabo-verdiano rematou a bola em arco e viu-a passar pouco ao lado do poste esquerdo. O Vitória prometia, sim, mas o Benfica repetiu o truque da primeira parte e voltou a sair acelerado do balneário e com a mente em fazer rápido e com poucos toques tudo o que era jogada atacante.

Foi assim que, aos 54’, Gaitán soltou a bola para Lima, na direita, que a levou quase até à linha de fundo e a cruzou, rasteiro, para Ola John, mais trapalhão do que rato, falhar o primeiro remate com o pé direito e, só à segunda, acertar com o canhoto na bola. Saiu bomba. E golo, o 2-0. Apenas aqui se viu a equipa de Jorge Jesus a acalmar, a preferir o controlo à aceleração.

Os de Guimarães continuavam a crescer. Hernâni tocava mais vezes na bola, chateava muito André Almeida e obrigava Jardel, o central, a ajuda-lo várias vezes. Bernard Mensah, o miúdo ganês, corria muito com a bola e dava seguimento às jogadas que, agora sim, André André tinha tempo para pensar e ordenar. Os vimaranenes tinham maior companhia da bola e, aos 60’, Cafú voltou a rematá-la para Júlio César a parar. E, desta vez, agarrar. Aos 78’ foi a vez de Tomané, encostado à linha de fundo, disparar uma bomba de pé esquerdo, depois de um ressalto de bola em Jardel lhe piscar o olho.

O Vitória tentava, insistia, multiplicava jogadas e pressionava os encarnados. Que não abanavam mais. Mesmo com maior calma, o Benfica iam trocando passes e esquivando-se ao cinto que os adversários queriam apertar. Nico Gaitán, o argentino, ia correndo e espreitando por todo o lado, dando toques ou passes na bola que desbloqueavam jogadas. Foi ele, o argentino que, sem Luisão e Maxi, servia de capitão, a dar o 3-0 à partida — aos 89′, o argentino foi atrás de um contra-ataque, viu a bola que Lima cruzou para a área ser bloqueada por um defesa e Salvio, este sim rato, a reagir rápido para a passar ao capitão. Que, escondido entre três defesas, a desviou para golo.

Por “cinco ou por seis”. Foi assim, no final, que Jorge Jesus disse que podia ter ficado a vitória do Benfica, que, aos seus olhos, “não deu hipótese”. No encontro viu-se talvez a melhor versão encarnada da época, no dia que serviu para homenagear Eusébio — os adeptos uniram-se em cânticos ao minuto 72, número de anos que o Pantera Negra contava quando faleceu, a 5 de janeiro do anos passado. “Até o Eusébio, e o Pelé, falhavam”, chegou a dizer Jesus, ao comentar que está a ver a equipa crescer. E a continuar na liderança do campeonato.