Cultura

A transexualidade entra na moda

A série “Transparent” ganhou dois Globos de Ouro na madrugada de segunda-feira e o tema da mudança de sexo volta às luzes da ribalta.

Elenco da série "Transparent", vencedora de dois Globos de Ouro

Jerod Harris

Uma mulher transexual chamada Maura Pfefferman, protagonista da série “Transparent”, foi a personagem que valeu ao ator Jeffrey Tambor o Globo de Ouro de Melhor Ator de Série Cómica. A cerimónia de atribuição dos prémios decorreu na madrugada desta segunda-feira em Beverly Hills, Califórnia, e distinguiu “Transparent” com um outro galardão, o de Melhor Série Cómica de 2014.

Vale a pena sublinhar: uma série cuja personagem principal é uma transexual homem-para-mulher ganhou dois Globos de Ouro, atribuídos desde 1944 pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. No discurso de agradecimento, Jeffrey Tambor dirigiu-se às pessoas transgénero: “Obrigado pela vossa coragem, pela inspiração, pela vossa paciência e por nos deixarem fazer parte da mudança.”

A primeira temporada de “Transparent” passou em 2014 nos EUA, através da plataforma online Amazon Instant Video (acessível nos EUA, no Reino Unido, na Alemanha e no Japão). Os subscritores da Amazon Prime também podem aceder à série, que chegou a Portugal na semana passada, sendo exibida no canal TVSéries (distribuído pelos operadores Nos, Meo, Vodafone e Cabovisão).

Ao que notava um artigo recente do “Telegraph” a existência de personagens transexuais em séries americanas não é uma novidade e antes de “Transparent” houve, em 2013, uma outra produção de grande impacto: “Orange is The New Black”, na plataforma Netflix, sem distribuição em Portugal.

“Transparent” –- escrita, produzida e realizada por Jill Soloway –- dá total protagonismo a uma personagem trans. Os dois Globos de Ouro agora atribuídos são como uma coroa de louros: para a série e para uma vaga de fundo que nem os mais distraídos ignoram.

Nos últimos anos, a temática transgénero tornou-se uma moda mediática. As identidades de género não-normativas, como é hábito designar a transexualidade, entraram na agenda. O caminho parece assemelhar-se ao que a homossexualidade fez no espaço público nas últimas décadas: saiu das margens, impôs-se como assunto mediático, depois político, e por fim cantou vitórias legislativas (casamento, parentalidade, etc.).

Em quase todos os países, as pessoas transexuais têm menos direitos legais que gays e lésbicas. A questão trans para o grande público assemelha-se, pois, a um produto das indústrias mediáticas. E vende, sobretudo nos EUA, sem que, por enquanto, isso tenha efeitos concretos nos direitos civis desta minoria.

Trata-se mesmo de uma minoria dentro das minorias LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgénero). Sem rigor, porque não há estudos fidedignos, os ativistas costumam apontar a existência de um transexual em cada duas mil pessoas. Um estudo apresentado em dezembro último pela Agência Europeia dos Direitos Fundamentais, baseado em entrevistas a sete mil transexuais dos 28 países da União Europeia, classificava como “alarmante” a situação destas pessoas, que reportam situações de “assédio”, “discriminação” e “violência física”.

Na moda, na televisão ou no cinema não faltam exemplos de outras verdades trans. Mais limpas e por vezes menos atormentadas. Ainda assim, existem. É o caso da manequim Andreja Pejic, que anunciou a mudança de sexo em 2014, depois de já ter estabelecido uma carreira fulgurante, ainda em homem, como veículo de importantes designers de moda. Ou ainda a recente série documental True Trans, com a transexual Laura Jane Grace, vocalista e guitarrista da banda punk americana Against Me!

Jill Soloway foi capaz de criar “Transparent” sem suavizar a questão trans porque a Amazon, que financiou o projeto, não exerceu qualquer censura – que teria acontecido nos grandes estúdios, lê-se na edição online da revista “The Atlantic”. A atenção aos temas transgénero acontece em grande medida na internet e tem implicado a adesão de pessoas mais jovens, que são precisamente o público da Netflix e da Amazon. Ao dar espaço a “Orange is The New Black” e a “Transparent”, as marcas estão a trabalhar para agradar ao seu público, nota o artigo da “Atlantic”.

Por enquanto, a psiquiatria continua a considerar a transexualidade uma doença mental. E isso parece ser um dos entraves à criação de leis pró-trans. Para a Associação Americana de Psiquiatria, uma das autoridades mundiais nestas matérias, quem se identifica com um género diferente daquele com que nasceu sofre de “disforia de género”. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), trata-se de uma “perturbação mental”. O Parlamento Europeu quer o fim desta classificação que será revista pela OMS até 2017. O mesmo indicou o comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa, Nils Muižnieks, em entrevista recente ao Observador.

 A realidade transexual portuguesa

  • São ainda escassos os exemplos de programas de televisão ou filmes portugueses com pessoas e personagens transexuais.
  • Em 2005, a transexual Filipa Gonçalves participa no reality show da TVI “Quinta das Celebridades”.
  • Em 2012 os realizadores João Pedro Rodrigues e de João Rui Guerra da Mata assinam o documentário de ficção “A Última Vez Que Vi Macau”, com a transexual e transformista Cindy Scrash.
  • Em 2013, Eduardo Gaspar e Rita Ribeiro apresentam no Teatro Rápido, em Lisboa, uma primeira versão da peça “Gisberta”, baseada no homicídio da transexual Gisberta Salce Júnior em 2006, no Porto.
  • Em 2013, o transexual Lourenço Ódin Cunha participa no reality show da TVI “Casa dos Segredos 4”.

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