O presidente da câmara do Porto e o secretário de Estado do Turismo estão de costas voltadas. Motivo? O turismo da região norte, que vai de vento em popa. Os resultados são de tal forma animadores para a economia da região que estão a provocar a discórdia entre o Governo e a autarquia. Quem deve afinal ficar com os louros do forte crescimento registado neste setor no último ano? Adolfo Mesquita Nunes falou, Rui Moreira ripostou. No Facebook, nos jornais ou na televisão, até um colega do Governo já partiu em defesa do secretário de Estado do Turismo. Está instalada a polémica.

Tudo começou quando Adolfo Mesquita Nunes defendeu numa entrevista à RTP2 a estratégia adotada pelo atual Governo para atrair mais turistas a Portugal. A estratégia, segundo explicou, tem passado não pela realização de eventos pontuais de promoção da região (que “agradam a autarcas e às populações”) mas pela canalização de verbas para “trazer jornalistas estrangeiros a Portugal” e pela captação da base aérea da EasyJet para o Porto. “Os resultados estão à vista, o turismo no Porto está a crescer”, disse Mesquita Nunes à RTP2.

“Portugal está presente diariamente na imprensa internacional graças à nossa estratégia. É mais compensador do ponto de vista orçamental a estratégia que temos seguido de desinvestir nos eventos pontuais e de passar a apostar na captação de rotas aéreas e de imprensa estrangeira”, acrescentou o secretário de Estado, sublinhando que foi essa estratégia que fez o crescimento disparar a partir de 2013, altura em que arrancou o plano do Governo para o Turismo.

A verdade é que o turismo no Porto cresceu abruptamente de 2013 para 2014. Segundo a Associação de Turismo do Porto, a região registou em 2014 um número recorde de dormidas de estrangeiros, com mais 13,8% do que o valor registado no ano anterior. O cenário confirma-se no Porto, como se confirma na generalidade do território nacional, com o Instituto Nacional de Estatística a avançar esta segunda-feira que 2014 foi “o melhor ano de sempre do turismo em Portugal”.

Perante este cenário positivo, no entanto, o secretário de Estado ressalvava mais à frente na entrevista que não era o Governo que devia ficar com os louros dos bons resultados, mas sim o setor privado que tem investido em grande medida no turismo. “Nenhum secretário de Estado do Turismo pode com honestidade chegar aqui e dizer este é o resultado do meu trabalho. Nós procuramos trabalhar para isso, mas sem o setor privado, e o setor privado do Norte tem dado provas disso, era impossível chegar a estes resultados”, disse.

Mas a reação de Rui Moreira não se fez esperar. E começou com uma gargalhada (escrita, não sonora). Na sua página de Facebook, o autarca do Porto, eleito em setembro de 2013, reagiu logo a seguir à transmissão da entrevista para demonstrar a “estupefação” com que ouviu o governante.

“AHAHAHAH Acabámos de saber (estupefactos) por um secretário de Estado, que o crescimento do turismo no Porto não se deve nem à política de promoção que a cidade tem feito nem ao extraordinário trabalho que os portuenses (empresários e cidadãos) têm feito. A razão para o enorme sucesso do turismo deve-se ao trabalho deste secretário de Estado e à presença do Porto na imprensa internacional que, por sua exclusiva e enorme competência, tem promovido a cidade no estrangeiro”, ironizou Rui Moreira num comentário que teve mais de 1.800 “gostos” e mais de 300 partilhas naquela rede social.

A acompanhar a publicação no Facebook, o presidente da Câmara do Porto juntou imagens de recortes de imprensa estrangeira, do New York Times à Monocle, passando pelo Libération e o El País, onde o próprio Rui Moreira é a figura central dos artigos. E o autarca voltou a usar a ironia para se referir às páginas dos jornais onde aparece a sua própria fotografia, e não a de Mesquita Nunes ou de qualquer outro membro do Governo: “Basta olhar para a capa do New York Times (…) para se perceber a presença deste enorme Secretário de Estado e o competente trabalho que o seu Governo tem feito na promoção do Porto. Estão a vê-lo? Reconhecem-no? Chama-se Adolfo Mesquita Nunes… Palavras para quê, é um artista português”.

Depois do ataque, o contra-ataque. Ou melhor, a defesa. Perante a investida do autarca do Porto, Adolfo Mesquita Nunes usou a mesma rede social para salvar a sua pele e reiterar que “o mérito é do setor privado”, e não do Governo.

adolfo

E não foi o único. Também o secretário de Estado da Administração Interna, João Almeida, partiu em defesa do colega do Governo, embora tutelem pastas diferentes. Ressalvando que não quer “alimentar uma polémica que não faz sentido”, João Almeida afirmou que Adolfo Mesquita Nunes se limitou a “salientar os resultados sem reclamar os louros”. “Se há coisa que sempre rejeita é ser ele, ou qualquer outro Secretário de Estado do Turismo, o responsável por aquilo que é mérito das empresas, dos operadores, das associações e de todos os outros stakeholders do setor”, rematou.

Mas a disputa pela custódia dos resultados do turismo do Porto não ficou por aqui. Dois dias depois, Rui Moreira usou o seu espaço de comentário no jornal Correio da Manhã para voltar à carga. No texto, acusa o secretário de Estado de ter “relacionado ações que ainda não tiveram expressão prática com resultados passados” e de ter “ignorado” que o turismo no Porto cresce “há vários anos” e que, por isso, “nada tem a ver com a estratégia [do Governo] de 2013”. O autarca referia-se, segundo explicou novamente no Facebook, ao facto de a inauguração da base aérea da EasyJet, por exemplo, só estar prevista para a primavera de 2015 e, nessa lógica, não entrar ainda para as estatísticas deste ano.

A “gargalhada” que deu no Facebook em reação às declarações de Mesquita Nunes, disse, “fez as delícias” dos seus seguidores.

Esta não é, no entanto, a primeira vez que Rui Moreira se envolve em polémica. No verão passado, o autarca eleito em setembro de 2013 para suceder a Rui Rio numa das maiores câmaras do país, protagonizou um desentendimento com um vereador eleito pelo CDS, Manuel Sampaio Pimentel, que só ficou remediado depois de o próprio partido ter emitido um comunicado a dizer que o vereador mantinha os pelouros na câmara. Na altura, muitos foram os que se mostraram céticos quanto ao desfecho do episódio, achando que o problema era pessoal e só se resolvia se os dois se entendessem.

Por agora, a guerra é com o governante que tutela o Turismo e ainda permanece aberta: quem é afinal o pai do boom turístico no Porto?