O novo rei da Arábia Saudita, Salman Ibn Abdulaziz al Saud, disse hoje que não haverá alterações na linha política do país, mantendo a estratégia petrolífera, após a morte esta quinta-feira do seu predecessor Abdullah, seu meio-irmão.

Salman, embora curto em palavras, quis passar a mensagem que, por exemplo, a Arábia Saudita não irá alterar também a sua estratégia no que toca à produção de petróleo.

Em declarações transmitidas pela televisão, Salman disse que a Arábia Saudita vai estar, “com a força de Deus, no caminho certo, como assim tem sido desde a sua fundação pelo rei Abdul Aziz bin Saud e os seus filhos depois dele”.

O óbito do rei Abdullah foi atribuído a uma pneumonia, e o até agora príncipe herdeiro saudita, Salman Ibn Abdulaziz al Saud, de 79 anos, tornou-se esta madrugada no novo monarca da Arábia saudita.

A morte do rei Abdullah não poderia ter vindo em pior altura para a Arábia Saudita, principalmente no setor-chave petróleo, já que o reino está a tentar reafirmar a sua liderança na mudança global do negócio do crude.

A morte do rei, que liderou durante 20 anos os destinos do maior exportador de ouro negro, surge numa altura em que o preço de petróleo está a cair acentuadamente nos últimos meses devido à fraca procura e a uma oferta abundante.

O economista-chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, disse à AFP que a morte do rei Abdullah não deve causar uma mudança “significativa” na política de petróleo saudita.

Desde 2000, o reino tem investido dezenas de milhões de dólares para se tornar o único país a ter uma capacidade de reserva de produção viável de três milhões de barris por dia (mbd). Além disso, aumentou sua capacidade de refinação para cinco milhões de barris por dia (bpd) e desenvolveu a sua produção de gás natural.

Aproveitando-se da instabilidade em outros países da OPEP (Irão, Iraque, Líbia, Nigéria, etc), o reino da Arábia Saudita aumentou a sua produção diária de oito milhões bpd em 2011 para um nível atual de 9,6 milhões de barris diários e não parece disposto a desistir tão cedo.

Preços a rondar os 100 dólares por barril durante anos, combinado com um aumento da produção, permitiu à Arábia Saudita ter uma reserva financeira sólida de 750 mil milhões de dólares (668 mil milhões de euros). O subsolo Arábia contém também a segunda maior reserva de petróleo do mundo (266 biliões de barris), e a quinta reserva mundial de gás natural (nove mil milhões de m3).

Após uma última década de prosperidade, o reino está agora a lutar para defender a sua quota de mercado e liderança face aos produtores não convencionais, e não membros da OPEP. Sob pressão de Riade, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) decidiu no final de novembro manter sua produção inalterada, acelerando a queda dos preços para níveis não vistos desde a crise de 2008, a caírem 50% entre junho e dezembro.

Pela primeira vez em 40 anos, a Arábia Saudita, que produz um décimo das reservas de petróleo do mundo, tem-se recusado a agir para estabilizar o mercado, alegando razões económicas.

“Não é do interesse dos produtores da OPEP cortar a produção”, que “desça para 20, 40, 50 ou 60 dólares” por barril, disse no final de dezembro, o ministro saudita do Petróleo, Ali al -Nouaïmi.

“Se cortar a produção, o que vai acontecer com a minha quota de mercado? Os preços sobem, mas os russos, brasileiros e os produtores de petróleo de xisto dos Estados Unidos vão pressionar os preços e ganhar mercado”, acrescentou.

“Haverá uma linha de continuidade. A política petrolífera é definida por um grupo de tecnocratas e não vejo que a próxima monarquia mude esta ordem das coisas de forma significativa”, disse à AFP Frederic Wehrey, especialista em Golfo Pérsico do Instituto Carnegie Endowment for International Peace.

Jean-François Seznec, especialista em petróleo e professor da Universidade de Georgetown, afirma que Riade vai defender-se “com unhas e dentes” para “manter a sua liderança”.

Entre 2005 e 2014, os Estados Unidos conseguiram reduzir suas importações líquidas de petróleo bruto de 12,5 milhões de barris diários para cinco milhões bpd, principalmente devido ao aumento da produção interna de gás e de petróleo de xisto.

“O petróleo saudita sente-se de alguma forma ameaçado pelo facto de os Estados Unidos já produzirem uma média de mais de oito milhões de barris por dia, restringindo as importações”, acrescenta Seznec.

Para Bassam Fattouh, diretor do Instituto Oxford para Estudos Energéticos, a produção americana “levou a uma mudança no comércio mundial de petróleo”. Devido à cessação ou redução das importações norte-americanos, africanos e exportadores latino-americanos têm-se voltado para o mercado asiático, disse Fattouh. Mas, com uma queda da procura na China, agora o maior importador líquido de petróleo, a competição tem claramente endurecido. Riade exporta dois terços do seu petróleo para os mercados asiáticos.

O preço do barril de petróleo Brent, para entrega em março, abriu hoje em alta no Intercontinental Exchange Futures de Londres, a valer 49,28 dólares, mais 0,59% do que no fecho na última sessão, segundo a agência Efe.

Na quinta-feira, o barril de crude Brent encerrou no mercado de futuros de Londres em baixa de 1,04% para os 48,52 dólares.