Abrir os braços à mudança, defender a independência e a diversidade, não só no cinema, mas em toda a arte. A 31.ª edição do Sundance abriu na quinta-feira com estas premissas a marcarem o discurso de abertura de Robert Redford, fundador daquele que é atualmente um dos maiores festivais de cinema dos Estados Unidos. Até 1 de fevereiro há exibições, estreias mundiais e prémios. Os cinéfilos de todo o mundo estão de olhos postos no Utah e nos cerca de 200 filmes em cartaz.

Desde 1995 que os cinemas americanos não tinham uma receita de bilheteira tão má. Do lado oposto está a televisão, onde as séries fervilham e as caras de Hollywood ganham (e em alguns casos recuperam) prestígio. O pequeno ecrã tem garantido a realizadores, produtores, argumentistas e atores maior liberdade criativa e os resultados estão à vista. É por isso que é importante olhar para Sundance e ouvir Robert Redford.

“A televisão está a avançar mais do que os grandes estúdios de cinema”, reconheceu Redford, que aos 78 anos está mais focado no futuro do que em fazer retrospetivas. Depois do elogio implícito ao cinema independente, que não impõe aos artistas uma receita de sucesso de bilheteira imediato como fazem os grandes estúdios, e de lembrar o ataque ao jornal francês Charlie Hebdo como sinal das ameaças à liberdade de expressão, as atenções centram-se nos filmes.

18 filmes de ficção vão ter estreia mundial em Sundance. E se faltam motivos para olhar com atenção para esta lista, basta lembrar que, dos oito nomeados ao Óscar de melhor filme deste ano, dois escolheram a 30.ª edição do Sundance para se mostrarem ao mundo. Uma das estreias é do próprio Robert Redford, “A walk in the woods”, co-protagonista com Nick Nolte nesta adaptação do livro homónimo de viagens e memórias de Bill Bryson, escrito em 1998.

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“A walk in the woods” vai ter estreia mundial em Sundance

Mais filmes a manter debaixo de vista: “Last days in the desert”, com Ewan McGregor a fazer de Jesus Cristo e de diabo ao mesmo tempo. No filme “I Am Michael”, James Franco dá vida a Michael Glatze, homossexual assumido e defensor dos direitos LGBT, mas que subitamente se vira para a religião e diz ter sido salvo por Deus da homossexualidade. Há ainda a lembrança do escritor David Foster Wallace, interpretado pelo ator Jason Segel, em “The end of the tour”, também com Jesse Eisenberg. E Saoirse Ronan, atriz sensação irlandesa que, aos 20 anos, se destaca em dois filmes: “Brooklyn”, em estreia mundial, e “Stockholm, Pennsylvania”, na secção de competição americana.

Dos 13 documentários americanos em estreia absoluta – e entre temas que vão da cientologia ao Partido dos Panteras Negras – uma foto inédita de Kurt Cobain salta à vista, na promoção de “Montage of Heck”. Pela primeira vez a família do ex-vocalista dos Nirvana abriu a porta a arquivos, gravações de canções, clipes de vídeo e imagens que só os mais próximos de Cobain tinham visto, e que agora se mostram ao mundo em 132 minutos de filme.

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Foto inédita de Kurt Cobain que a HBO divulgou para promover o documentário “Montage of Heck”

Na competição para melhor filme dramático americano concorrem 16 filmes, entre os quais “The diary of a teenage girl”, onde é possível ver Alexander Skarsgård (da série “True Blood”) envolvido com uma artista adolescente que vive em São Francisco nos anos 70, apesar de namorar com a mãe da rapariga. Na categoria de melhor filme estrangeiro há 12 em competição, entre os quais o brasileiro “Que horas ela volta?”, realizado por Anna Muylaert e que ainda não estreou no Brasil.

Para aqueles que não podem viajar até ao Utah, resta esperar que os filmes apresentados em Sundance façam a viagem até Portugal. Mas há mais de uma dezena de debates e conversas que vão ser transmitidas em streaming, para quem quiser ver e ouvir.