A frase, garantiu, nunca lhe saiu da cabeça depois de a ler. “Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.” Traduzindo, é qualquer coisa como: “Tentei sempre. Falhei sempre. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.” As palavras foram uma vez escritas por Samuel Beckett, escritor irlandês, e em 2013 tatuadas no antebraço de Stanislas Wawrinka, tenista suíço que, na madrugada desta sexta-feira, tentou, tentou e tentou, mas acabou por falhar o regresso à final do Open da Austrália.

Não conseguiu por culpa de Novak Djokovic, o sérvio que, a custo, o superou em cinco sets, pelos parciais de 7-6(1), 3-6, 6-4, 4-6 e 6-0. Só no último dos sets se viu o número um do ranking ATP a ser melhor em tudo que o homem que, o ano passado, vencera o primeiro Grand Slam da temporada — e até agora, quando já vai com 29 anos, o único da carreira.

Wawrinka, fiel ao fundo do court e às bestiais e agressivas pancadas que de lá costuma disparar, foi dificultando a vida ao sérvio, que mesmo velocista e elástico como sempre, não conseguia vencer dois sets consecutivos.

A coisa durou até ao suíço sucumbir a uma série de erros não forçados (69 ao todo, contra 49 de Djokovic), que o derrotaram no quinto jogo do encontro. “Há sempre desilusão. Perdes em quase todos os torneios. Tens de o aceitar e ser positivo, porque vais sempre falhar. Nem todos somos como o Nadal ou o Djokovic, que ganham em quase todos os torneios”, explicou Wawrinka, há meses, quando o The Guardian o questionou sobre a origem da tal tatuagem.

Não se repetiu o que sucedera em janeiro de 2014, quando Stan ultrapassou Novak nos quartos-de-final do Open da Austrália. Mas prolongou-se algo que acontece desde a edição de 2004 do torneio de Wimbledon — este já é o 43.º Grand Slam seguido no qual pelo menos um entre Rafael Nadal, Roger Federer ou Novak Djokovic chegou às meias-finais. Uma hegemonia dividida por três raquetes. E que desta vez terá Andy Murray como convidado.

O escocês, campeão olímpico em Londres e vencedor de dois Grand Slams (Open dos EUA, em 2012, e Wimbledon, em 2013), vai para a quarta final do torneio australiano. Djokovic chega à sua quinta e com ele levará um facto: o sérvio nunca perdeu uma decisão no court central de Melbourne. E a memória garantirá que Murray sabe disto melhor do que ninguém, já que era o britânico quem estava do outro lado do campo nas finais de 2011 e 2013.

Andy Murray, aliás, pode até escrever história com a raquete e tornar-se no primeiro homem a conquistar o Open da Austrália depois de perder três finais do torneio (a outra foi em 2010, frente a Roger Federer). Terá a hipótese de o fazer graças à vitória nas meias-finais contra Tomas Berdych, chego que chegou a reclamar o primeiro set e a, pelos vistos, enfurecer a noiva do tenista escocês.

Tanto que, após Murray o suplantar nos três parciais seguintes, não se conteve. Assim que o escocês confirmou o ponto da vitória, as câmaras focaram-se em Kim Sears e, mesmo se ouvirem, viram e gravaram a mulher a disparar palavrões — especialmente o que começa por um “f” — na direção de Berdych. É nisso que a imprensa inglesa se tem focado. “No calor do momento dizes coisas das quais te arrependes”, justificou, sem problemas, o escocês.

E o calor, nesta altura do ano, não foge muito dos 30.º C em Melbourne. Também não fugirá muito às 19h30 locais a que a final se começará a jogar no domingo (8h30 portuguesas, com transmissão na EuroSport). A noiva de Andy Murray desejará que à quarta será mesmo de vez para, por fim, ver o tenista a ser o melhor num Grand Slam australiano.

Ao invés de, como diz Wawrinka e a tatuagem que lhe cobre o antebraço, chegar à final, tentar, e falhar outra vez. Já dizia o suíço que nem todos podem ser como Novak Djokovic. Mas Andy Murray tentará que o sérvio passe a estar no lugar do escocês e perca uma decisão do Grand Slam australiano. Com ou sem a ajuda dos palavrões da noiva.