O enredo gira em torno do apartamento de Sofia Fava em Alvalade e começou a ganhar vida em 2011, ano em que a ex-mulher de José Sócrates decidiu vender o imóvel. No mesmo ano, mais precisamente a 28 de dezembro, a Gigabeira – uma empresa de construção civil do grupo Constrope, de que Carlos Santos Silva, amigo e alegado testa-de-ferro do ex-primeiro-ministro, era administrador – avançou para a compra do apartamento por 400 mil euros. Até aqui, nada de estranho. Não fosse um pormenor importante: em 2011, a empresa já apresentava um prejuízo de 200 mil euros.

Um ano e meio depois, a Gigabeira colocou a antiga casa de Sofia Fava à venda por 350 mil euros. Surgiu um interessado, que conseguiu concluir o negócio por 260 mil euros, menos 90 mil euros do preço exigido pela empresa. Mas, se o ditado “sorte de uns, azar de outros” é verdadeiro, aqui teve ainda mais força: pouco tempo depois de concluir o negócio, a empresa de construção civil declarou insolvência e o novo comprador conseguiu ficar com o apartamento apenas por 50 mil euros, valor do sinal.

Estas informações foram reveladas no programa “Sexta às 9”, conduzido por Sandra Felgueiras, na RTP. Que acrescentou mais um dado, sobre esta mesma empresa de Carlos Santos Silva: de acordo com os dados da plataforma online Portal Base – onde só é possível consultar os contratos publicados a partir de agosto de 2008 – a Gigabeira venceu todos os concursos públicos a que concorreu – 20 no total. Um valor que passou para metade quando Pedro Passos Coelho se tornou primeiro-ministro.

Contactada pela estação pública, a ex-mulher de José Sócrates acedeu a responder às perguntas dos jornalistas e esclareceu os contornos que levaram à venda do imóvel de Alvalade.

“Porque o valor das obras realizadas no prédio era de montante muito superior ao previsto, como medida de gestão urgente decidi dar por conta do pagamento do valor dessas obras, o meu bem imóvel situado na rua Francisco Stromp, que, segundo fui informada, interessava à empresa de construção civil que me tinha executado as obras, para alojar os seus trabalhadores. Foi-me, na altura, solicitada, pela empresa interessada, uma procuração irrevogável, que emiti, mas que foi usada apenas um ano depois pelo beneficiário, o qual, em meu nome, vendeu o bem imóvel a quem entendeu e sem o meu controle direto ou indireto”.

No entanto, dois meses depois de vender o apartamento, como medida de “gestão urgente”, Sofia Fava decidiu adquirir uma herdade de 12 hectares no Alentejo, com piscina e uma casa de 600 m². O preço? 760 mil euros.

Para o fazer, Sofia Fava contraiu um empréstimo ao BES, garantido por uma aplicação financeira no mesmo valor e cuja prestação mensal era de 4.488 euros. E é aqui que se unem as pontas com Carlos Santos Silva: a ex-mulher de José Sócrates recebeu, “entre 2010 até finais de 2014”, como a própria confirmou à RTP, uma avença mensal do empresário no valor de 5.000 euros. Um valor que Sofia Fava explicou fazer parte de um contrato de prestação de serviços assinado com outra empresa de Carlos Santos Silva, a XML.

“Prestei serviço, em dedicação exclusiva até 2013, com contrato de avença, que vigorou desde o inicio de 2010 até finais de 2014, na área de projetos de urbanismo e ambiente, à empresa XLM, de que o engenheiro Carlos Santos Silva é, tanto quanto sei, sócio, tendo recebido o valor ajustado para o trabalho que executei e que se encontra documentado. O empréstimo que me permitiu adquirir o bem imóvel no Alentejo, está a ser pago por mim e pelo meu atual companheiro”.

Entretanto, a ex-mulher de José Sócrates transformou a herdade na sede de uma empresa unipessoal dedicada a várias áreas de atividade económica – “agricultura e correspondentes atividades transformadoras, agropecuária, turismo, importação e comercialização de bijutaria” e “colaboração em projetos de engenharia, sobretudo fora do país”.

Quanto à Gigabeira, mesmo apesar da crise que vivia há alguns anos, durante o período em que José Sócrates esteve em São Bento, foi conseguindo escapar ao destino que começava a ser desenhado desde 2011: de acordo com os dados citados pela RTP e que estão disponíveis na plataforma online Portal Base – onde só é possível consultar os contratos publicados a partir de agosto de 2008 – a Gigabeira venceu todos os concursos públicos a que concorreu – 20 no total. Um valor que passou para metade quando Pedro Passos Coelho se tornou primeiro-ministro.