A atriz já vencedora de um Óscar apanhou boleia de algumas colegas de profissão e aventurou-se no universo lifestyle. O site Draper James é a nova aposta de Reese Witherspoon, um projeto que encontra raízes fundas nas tradições e heranças do sul dos Estados Unidos, de onde a atriz é natural. Na página é possível encontrar sugestões de roupa, joalharia, acessórios e até peças de decoração para a casa. E todos os items são aprovados pela própria.

“Há muito amor neste projeto”, contou Witherspoon à ABC. “E não me envolvo a menos que mexa em tudo, que veja tudo. Porque é também o meu nome de família. Draper James é a junção do nome da minha avó e do meu avô.” Por trás da nova plataforma de estilo de vida estão três anos de trabalho que, apesar de tudo, a loira descreve como um período divertido e criativo.

https://instagram.com/p/2WnbEjAIir/

Mas a iniciativa que quer promover a classe feminina ao estilo sulista não é vista com bons olhos por todos. É o caso de Claire Cohen, do The Telegraph, que critica a intenção de Reese ao transformar-se em mais um árbitro do gosto, à semelhança do que fez Jessica Alba, Gwyneth Paltrow e Blake Lively.

O dedo recriminador da autora aponta, desde logo, na direção do curto vídeo protagonizado por Reese, e disponível no endereço online, onde ela tenta explicar o conceito do site: “Esta não é uma performance digna de um Óscar. Ela mal consegue tirar o sorriso do rosto. Isto não é charme do sul. Resume-se a isto: Reese está bonita. Você também precisa de estar bonita. (…) Gaste, gaste, gaste.” A autora do texto defende que, para impactar alguém — visto que o site também tem uma componente social –, Reese deveria ter como inspiração as atrizes Emma Watson e Angelina Jolie.

https://instagram.com/p/2ZKVFbgIk0/?taken-by=draperjamesgirl

De estrelas de Hollywood a gurus da moda

A ideia em causa está longe de ser inovadora, até porque coube a Gwyneth Paltrow ser pioneira no que a domínios do lifestyle diz respeito — foi uma das primeiras celebridades a criar um negócio na internet relacionado com moda. O Goop, lançado em outubro de 2008, já tem toda uma máquina de operações nos bastidores. Mas o blogue pessoal daquela que já foi considerada uma das namoradinhas da América é também uma fonte de polémicas: a mais recente data de janeiro de 2015, quando Paltrow publicou um texto onde recomendava que todas as mulheres vaporizassem as vaginas. Ainda assim, é difícil de ignorar os mais de 200 mil seguidores só no Instagram.

https://instagram.com/p/2Bq8jzuxv8/?taken-by=goop

Também Blake Lively, que foi mãe há pouco tempo, arrancou com um projeto idêntico, uma página de estilo de vida e e-commerce batizada Preserve. Na plataforma que viu a luz do dia há quase um ano encontram-se à venda items escolhidos pela atriz. Lively chegou a explicar o conceito à Vogue: “Trata-se de contar histórias e de viver uma vida one-of-a-kid (…) Eu tenho tantas paixões além da representação.” À data, a atriz disse ao  The Cut que o site também teria comida à mistura — “Não se pode estar perto de mim sem se falar de comida.”

https://instagram.com/p/2O84NUFbD3/?taken-by=preserve_us

O cunho de Hollywood não é o exclusivo detentor desta tendência que se tem vindo a prolongar no tempo. Também a socialite Olivia Palermo e a modelo canadiana Coco Rocha renderam-se aos encantos da blogesfera, cada uma à sua maneira. A primeira com a página homónima, onde dá dicas de moda e beleza, além de falar de viagens, e a segunda com um tumblr onde vai revelando aspetos tanto da vida profissional como pessoal.

E em Portugal, como é?

Não é só lá fora que se repete a receita aparentemente bem-sucedida. Por terras lusas há celebridades que adotam a mesma estratégia, tal como a apresentadora Cristina Ferreira no blogue Daily Cristina, o exemplo máximo em Portugal. Apesar de não se apresentar como um site de lifestyle, é nesta plataforma que expõe diversas roupas e acessórios com recurso a produções de moda que requerem, no mínimo, uma equipa de sete membros.

O blogue foi lançado a 21 de maio de 2013 e em apenas 20 minutos a sua página de Facebook atingiu os sete mil fãs, sendo que o site ficou paralisado com tantos acessos. Findos quase dois anos de vida, o sucesso mede-se através das três milhões de visualizações mensais. Atualmente, só no Facebook do blogue contam-se quase 350 mil seguidores e até já há uma revista nas bancas portuguesas — Cristina Ferreira é uma marca.

https://instagram.com/p/2DmuLxHDEi/?taken-by=dailycristina

“Na altura, em 2013, olhámos para o potencial da Cristina que já tinha uma comunidade de 600 mil fãs”, explica Inês Mendes da Silva, sócia fundadora da LUVIN, empresa que trabalha os conteúdos digitais associados à apresentadora e diretora de conteúdos da TVI. “Portugal tinha ótimos blogues, mas ainda não havia celebridades com este tipo de plataforma”, continua. O Daily Cristina foi uma forma de dar resposta ao capital digital que Cristina Ferreira já tinha, foi montado num instante e os resultados foram praticamente imediatos.

Inês Mendes da Silva também esteve na equipa que lançou os blogues Bons Rapazes, de Pedro Teixeira e Tiago Froufe, e  Ana 272, de Ana Rita Clara. “É o rosto da SIC Mulher há anos. É uma mulher que cuida de si e que se envolve em temas femininos. As pessoas tinham curiosidade em saber o que ela usava”, comenta Mendes da Silva que, em última análise, defende que os blogues aproximam as personalidades do seu público, embora as páginas tenham a obrigatoriedade de refletir a linguagem e os gostos dos seus protagonistas. “Os projetos são feitos à medida deles, não podem ser projetos feitos por encomenda.”

https://instagram.com/p/2YAlwFh7WE/?taken-by=bonsrapazes

A linha que separa um negócio próprio de uma celebridade, como o projeto Goop, e uma página individual é ténue, até porque, no fundo, a intenção é a mesma: ser um nome forte no mercado e com receitas associadas. Nesse âmbito, as redes sociais também têm um papel fundamental — considerando uma empresa e uma celebridade, o princípio da comunicação é o mesmo.

No entanto, esta não é uma questão de likes. A teoria é de Roberto Gomes, fundador da WeCanFly, empresa apostada em marketing de influência. “Uma pessoa pode ter muitos gostos e não ter a capacidade de influenciar. O que está a acontecer é que por trás de cada figura pública há uma estratégia de marketing. O seu nome já é uma marca”, diz ao Observador.

A democratização da comunicação está aí ao virar da esquina: o que acontece num qualquer lugar remoto do mundo chega até nós na forma de tweets, fotografias, posts e vídeos do Youtube. O importante, alega Roberto Gomes, é saber utilizar essas ferramentas, isto é, trabalhar a comunicação de forma profissional. Mas há quem opte apenas por partilhar o dia-a-dia, revelar gostos e hábitos e ainda relatar experiências. “O que normalmente acontece é que a pessoa faz é a junção das duas.”

“Quem está na berra é chamado para fazer mais coisas”, conclui Roberto Gomes. “Na publicidade diz-se que não há má publicidade. Hoje em dia, as pessoas querem ser faladas, querem ter blogues com muitos seguidores — com o passar do tempo, o mercado vai segmentar isso.”