Há quem tenha a sorte de nascer nas boas graças dos genes. Umas feições bonitinhas, uma cara para derreter corações, um cabelo amigo do estilo e uns olhos com íman para as atenções. Dizem que as aparências iludem, sim, mas elas dão jeito para muita coisa na vida. Mas Rui Vitória sabe que o futebol não é uma delas. “Não cheguei aqui por alguém ter gostado dos meus olhos. Há um grande trabalho por trás que dá consistência”, disse, não agora, mas há uns aninhos, quando já brilhava por o fazer muito com tão pouco. Isto em março de 2011, quando estava em Paços de Ferreira, a três pontos do terceiro lugar e a oito jornadas de fechar o campeonato.

Muito com pouco. A expressão ficou e sempre se agarrou com super cola à vida de Rui Vitória. Em 2003, pouco ou nada se esperava de um médio trintão, habituado a dar uns pontapés na bola pelas divisões do fundo do futebol português, que em sete dias passasse de jogador a treinador. “Terminei a carreira de jogador no Alcochetense, numa segunda-feira, e na terça da semana seguinte estava a treinar o Vilafranquense, na 2.a divisão”, contou, ao Jornal i, já mais graúdo, quando estava no Paços de Ferreira. Não se esperava que Rui Vitória fizesse grande coisa, mas, lá está, fez boa figura. Tão boa que chegou para arregalar o olho ao Benfica.

E lá foi ele para tomar conta de miúdos. Em 2004 aterra na equipa júnior dos encarnados, com a qual nada vence em duas épocas. Na primeira a culpa até é de Paulo Bento. Ou melhor, dos juniores do Sporting que o antigo selecionador nacional treinava, na altura. De Lisboa segue para Fátima, onde passa quatro anos a treinar graúdos. O sucesso bate-lhe à porta e Rui abre com um sorriso — em 2008/2009 vai de vitória em vitória até conquistar o campeonato da II Divisão (o que hoje se chama Campeonato Nacional de Seniores) e promover a equipa à Segunda Liga. É obra. Mas talvez não tanto como o que consegue uma época antes, quando aproveita os penáltis de um jogo da terceira eliminatória da Taça da Liga para tirar o FC Porto da competição.

Vitoria's coach Rui Vitoria gives the thumbs up moments before the Portuguese league football match Estoril vs Vitoria SC at Antonio Coimbra da Mota stadium in Estoril, outskirts of Lisbon on December 20, 2014. AFP PHOTO/ PATRICIA DE MELO MOREIRA        (Photo credit should read PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

Rui Vitória já sabe o que é ganhar ao Sporting, ao FC Porto e ao Benfica. E conseguiu-o sempre por clubes diferentes. Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP/Getty Images

Nesta altura, enquanto mora em Fátima, o treinador está perto o suficiente de Alverca, a sua terra, para não deixar de fazer outra coisa de que tanto gosta — dar aulas. É professor de Educação Física na Escola Gago Coutinho e não consegue conciliar o futebol não lhe rouba tempo que chegue para o fazer largar esta aventura. “Na altura havia poucos professores nessa área e convidaram-me para dar aulas, algo que faço desde os 19 anos”, explicou, na altura, também ao i. Só não o conseguiu continuar a fazer quando surgiu outro convite, um que o ia puxar mais umas centenas de quilómetros. Vinha de Paços de Ferreira e Rui quis ver no que isto podia dar.

Disse que sim, foi e teve de tomar uma decisão. “Quando começámos esta caminhada estávamos um bocadinho com a ideia de ver o que isto dava. Eu era professor, tinha pedido uma licença sem vencimento e portanto não foi uma opção declarada dizer ‘agora quero ser treinador’. Passou mais por fazer um intervalo que iria depender dos resultados que íamos ter”, admite, quando em 2013 olha para trás e desbobina a memória numa entrevista ao zerozero.pt. O treinador queria testar-se, a ele e aos técnicos que o seguiram.

Olá, primeira liga

Estreia-se no campeonato com um 1-0 que lhe sorri frente ao Sporting, fecha a época no sétimo lugar e chega à final da Taça de Liga, onde perde com o Benfica. Isto em 2010/2011. Na temporada seguinte ainda faz as primeiras três jornadas  no Paços, antes do telemóvel tocar e, do outro lado, se ouvir uma voz de Guimarães. O Vitória queria ter o Vitória e Rui não diz que não. “Pensei que era hora de estar num clube em que as exigências competitivas fossem máximas, em que não tivesse um ambiente tão confortável, em que tivesse que conquistar um novo espaço”, explica, feliz e contente por a vida o levar para um clube em que os adeptos usam o coração na manga e vivem o futebol como poucos. O treinador percebe-o logo ao início, quando vários deles invadem um treino para mostrarem que estão fulos com os resultados da equipa.

É coisa para ter medo, mas Rui Vitória gostou. “Ao contrário do que a maioria das pessoas pensava, a ilação que tirei quando saí desse treino foi: ‘Bem, estou mesmo num grande clube’. Senti uma satisfação, não obviamente pelo que aconteceu, mas porque ninguém estava satisfeito com a situação na altura”, confessa. Essa seria a primeira de quatro épocas que passaria no clube, onde passa a ser uma espécie de cozinheiro que se especializa em apenas uma receita — fazer omeletes sem ovos. Porque os cofres e carteiras do Vitória de Guimarães têm mais pó do que dinheiro e ao treinador pedem que faça o que conseguir com muito pouco. E ele acaba por fazer muito.

Tento ser o mais frio possível, respeitador e sempre com a noção de que por trás de um jogador está um ser humano. Por vezes esquecemo-nos disso e pensamos que os jogadores são máquinas, que não têm vida particular, que não têm problemas, mas eu tenho sempre essa preocupação. Muitas vezes os jogadores nem sentem isto, podem pensar que sou mais frio ou mais desligado.

Manda os seus farejarem por jogadores onde os outros não costumam cheirar, caça jovens em todo o lado e, sobretudo, coloca-os a jogar. Aparecem Paulo Oliveira, Tiago Rodrigues, André André, Marco Matias, Josué, Hernâni ou João Afonso. Todos dão nas vistas e, como tal, Rui cumpre com que lhe pedem. “São jogadores que estamos a trabalhar e dos quais podemos colher alguma coisa no futuro. Não há drama sobre isto. É uma filosofia do clube que passa por tentar potenciar e valorizar os jogadores que temos e que sejam nossos”, explica, sem problemas, em 2013. O treinador fá-los crescer, fomenta-os, mas a parcimónia entre cumplicidade e distanciamento impera sempre. “No fundo, estou um bocadinho mais fora do que dentro. Não sou treinador de dar palmadinhas nas costas dos jogadores, sou muito mais de correções, de aspetos mais práticos”, revela.

A filosofia resulta. Em 2013 chega para o Vitória do Vitória chegar à final da Taça de Portugal e piorar o pesadelo que acorda o Benfica de uma época quase de sonho — os vimaranenses ganham e até fazem com que Óscar Cardozo empurre Jorge Jesus no Jamor. É a terceira competição perdida, essa época, pelos encarnados. Rui salta de alegria e prova ser mestre em fazer muito com pouco. Na época seguinte estreia-se na Liga Europa, mas não passa da fase de grupos, apesar de a temporada lhe servir para aprimorar a receita das omeletes. Entra em 2014/2015 a ter de fazer o que sempre faz — reconstruir uma equipa cheia de buracos causados por vendas forçadas. E fá-lo, de novo, bem. O Guimarães anda o campeonato inteiro lá no alto do campeonato e termina-o no quinto lugar, com bilhete para volta a jogar na Europa.

Guimaraes' coach Rui Vitoria celebrates after winning the Portuguese Cup final match SL Benfica vs VSC Guimaraes at the Jamor stadium in Oeiras, outskirts of Lisbon, on May 26, 2013. Guimaraes won the match 2-1.  AFP PHOTO / HENRIQUES DA CUNHA        (Photo credit should read HENRIQUES DA CUNHA/AFP/Getty Images)

Rui Vitória conquistou a Taça de Portugal em 2013, quando foi ao Jamor com o Vitória de Guimarães para derrotar o Benfica. Foto: Henrique da Cunha/AFP/Getty Images

O futebol em Guimarães, acima de tudo, é eficaz. Ali não morava os artistas que os milhões levam para os grandes e na vontade, raça e organização sempre esteve a força que não se via tanto nos pés, na técnica e no talento. O trabalho de Rui Vitória é bom e Luís Filipe Vieira gosta de o ver. Em 2014 já se diz que o presidente do Benfica lhe pisca o olho e o mantém na gaveta para o dia em que Jorge Jesus disser adeus.

Falam-se em pré-acordos e negócios apalavrados, mas do que se ouve falar sempre é da apreciação que o homem das decisões do Benfica tem pelo técnico do Vitória de Guimarães. Nunca Rui esteve tão perto de ver a carreira que começou numa licença sem vencimento acabar num grande. “Sempre disse que se treinar um clube perto de mim ou se treinar um clube grande a minha paixão será a mesma. As minhas responsabilidades é que podem ser outras. Costumo dizer que para treinar treino de borla, o que me pagam é para ter que controlar uma série de responsabilidades, é para ter que ouvir uns nomes quando tenho que ouvir…”, chega a dizer, na tal entrevista ao zerozero.pt.

Esse dia chega porque os quatro milhões de euros brutos que Jorge Jesus leva, por ano, de salário ao Benfica, passam a ser incomportáveis para o clube. Vieira sabe-o bem, mas o treinador não quer passar a ganhar menos. Nem se pretende comprometer à vontade do presidente, que queria mais jovens da formação encarnada a darem o pulo para a equipa principal. Jesus sai, vai para o Sporting e surge a vaga que Luís Filipe Vieira há muito imaginava para Rui Vitória.

É lá que o treinador chega, agora, a troco de uma indemnização de uma milhão de euros paga pelo Benfica ao Guimarães. Só pode ter chegado rápido, pois ainda a 22 de maio o treinador ainda não recebera “qualquer contacto” para ir trabalhar com Gaitán, Salvio, Jonas, Lima, Pizzi e Samaris.

Rui sempre fez muito e muito com pouco. Deu razão à expressão que inventa omeletes sem ovos, já que nunca esteve em clubes que lhe dessem dinheiro para se esticar nas compras. Agora também não haverá tanto como em outros anos, mas não faltará para Vitória ficar de mãos abanar, como sempre ficou. De Guimarães o treinador já disse que leva “uma bagagem que dá para trabalhar em qualquer lado”. Mas terá que provar que não se esqueceu de que as omeletes também se cozinham quando há muitos ovos por onde escolher.