Levantou-se cedo, comeu, vestiu-se, pegou no carro e largou-o à porta do trabalho. O dia seria igual aos outros e ele sabia que o ia passar com a farinha e a massa. Com “pão quente”, como lhe chama, e não com as chuteiras, a bola ou a relva que, durante muitos anos, foram o pão nosso de cada dia para Álvaro Gregório. Mas a vida “deu uma volta” e rodopiou-lhe os hábitos, admite, embora não o suficiente para despistar uma amizade de 30 anos. A mesma que, do nada, fez alguém aparecer na tal padaria de Vila Nova de Gaia, sem aviso, para lhe dizer algo: “Tinha que vir aqui para te dar um abraço. Vi a reportagem e deu a sensação que estás bem, que gostas do que fazes, e não podia deixar de estar um pouco contigo.”

Foi isto que saiu da boca de Rui Jorge quando reviu um velho amigo. Aconteceu “há cerca de um mês”, mesmo antes de Rui fazer as malas e, com a seleção sub-21, partir para a República Checa, onde esta terça-feira joga a final do Europeu (19h45, RTP1) para tentar voltar a casa com um caneco. Álvaro nem queria acreditar. Tinha aparecido, dias antes, na televisão, numa reportagem que lhe farejou o rasto desviado do futebol, e foi isso que caiu no radar do selecionador. “Eles estavam em estágio e ele fez questão de vir ao meu trabalho para me dar um abraço. Ele é de Gaia e aproveitou para vir cá. Teve uma atitude muito bonita, foi um momento excecional”, diz-nos, tão confortável nas palavras como quem se refastela num sofá.

É Álvaro quem nos liga, devolvendo a chamada com que, umas horas antes, não o encontramos na Magipão, a tal padaria de Vila Nova de Gaia. A conversa toca em Rui Jorge por acaso, já que o tema, ao início, é outro — Álvaro Gregório era um dos miúdos da seleção que, em 1994, perdeu a final do Europeu sub-21, contra a Itália. A primeira em que Portugal esteve. “Incrível, não é? Estive lá presente com uma geração de ouro. O que me lembro é que, antes do jogo, estávamos com uma fé inabalável. Mas, infelizmente, as coisas nesse dia não correram bem, perdemos o jogo na morte súbita”, começa por recordar.

Não jogou em nenhuma das quatro partidas que a seleção fez nesse Europeu, mas, “como é óbvio”, sente-se um privilegiado. “Poder dizer hoje às pessoas que joguei com o Figo e o Rui Costa é sempre gratificante”, assegura, lembrando a prova para a qual Rui Jorge não foi convocado por culpa de um cartão vermelho, que lhe dera três jogos de suspensão. Álvaro Gregório já o conhecia há muito, desde os juniores do FC Porto. “Conheço o Rui desde os 12 anos e felizmente que ele está bem. Além de ter sido um ótimo profissional, é um homem muito inteligente. Já não o via há uns seis ou sete anos, é muito tempo”, explica.

Tem a voz de quem sabe bem o que diz e prova-o quando nos certifica o que Rui Jorge deve andar a dizer aos jogadores, antes da final: “Aquela geração [1994], quando entrava em campo, tinha uma confiança ímpar. A palavra derrota nem se aplicava. E acho que o Rui Jorge tem a mesma filosofia, consegue passar uma mensagem de vitória e confiança tão grande que os miúdos nem pensam na possibilidade de perder.” Aqui, entra nas comparações. Vê, em talento, que esta geração “tem muito a ver com a de 1994”, e antevê que “três ou quatro” — destaca William Carvalho — vão ter um futuro incrível”. Como uns quantos da tal geração de ouro tiveram e Álvaro Gregório não teve, por azar.

Depois do tal Europeu, há 21 anos, a vida continuou. Álvaro, um lateral canhoto, estava no Paços de Ferreira e de lá foi parar ao Belenenses. Seguiu-se a União de Leiria, onde encontrou as lesões que, em vez de o deixaram “entrar no auge da carreira”, fizeram “exatamente o contrário”. Começou a cair. “Fui fustigado por lesões. Fiz os sub-21 [antes, em 1989, também foi campeão da Europa de sub-16] e depois não consegui passar à seleção A. Quando estava em ascensão, a partir dos 23 ou 24 anos, começaram as lesões, numa altura em que já tinha cinco ou seis anos de primeira divisão“, lamenta. Não parou de jogar, só que, anos depois, caiu para a segunda divisão e, em 2005, no Luxemburgo, fechou a vida dos pontapés na bola. Ainda abriu uma escola de futebol, onde ensinava o que aprendeu a cerca de 100 miúdos. “Mas na altura a família estava cá [em Portugal] e eu lá. Tinha que optar. Decidi ir embora e, quando cá cheguei, abri um restaurante”, resume.

Voltou e não mais saiu do setor da restauração. Foi parar ao negócio do pão quente e mesmo que do “ponto de vista financeiro” pudesse estar melhor, sente-se “muito realizado”. O próprio Rui Jorge, recorda, o disse, quando lhe deu um abraço e umas palavras: “Vê-se que está bem e que estás feliz”. Álvaro Gregório está mesmo e sabe que não precisa de pegar no telemóvel e enviar um sms a desejar boa sorte ao amigo que dá ordens nos miúdos que hoje jogam para ganhar um troféu: “O Rui sabe que gosto muito dele, não preciso de lhe mandar nada. Acontece muito com os jogadores da bola. Quando acabamos, cada um segue a sua vida, mas quando há um reencontro é que vemos que as amizades perduram. O que vou fazer é estar à frente da televisão, a torcer muito.”