O Presidente guineense, José Mário Vaz, assumiu hoje a rutura com o Governo de Domingos Simões Pereira, ao anunciar a dissolução do executivo, quase um mês exato depois de ter prometido que não o faria.

Conhecido pelo rigor que imprimiu às contas públicas, José Mário Vaz, normalmente tratado por Jomav, concluiu hoje o processo de afastamento do líder do partido que o apoiou, o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Vencedor das eleições de 18 de maio de 2014, na sua primeira declaração, José Mário Vaz prometeu estabilidade: “A única coisa que quero dizer aos guineenses é que chegou a hora de mudarmos a página”.

E, no momento da posse, anunciou uma “parceria estratégica” com o Governo para resolver os problemas do país.

No entanto, ainda em 2014, o país assistiu aos primeiros momentos de tensão entre os dois principais dirigentes políticos do país.

Em novembro, o Presidente exonerou Botche Candé do cargo de ministro da Administração Interna, devido a altercações do governante com elementos dos rebeldes de Casamansa (território no sul do Senegal que faz fronteira com a Guiné-Bissau).

As divergências quanto ao modo como gerir os destinos do país agudizaram-se no início do ano, levando a ONU a considerar que houve “um recuo no consenso político” e “uma exacerbação das tensões entre os principais líderes políticos”.

Em março, Simões Pereira e Jomav deram um sinal de união em Bruxelas durante uma conferência internacional sobre o país, que permitiu mobilizar apoios na ordem de mais de mil milhões de euros.

Mas em junho, os sinais de problemas, nunca explicados publicamente, agravaram-se, levando o governo a apresentar uma moção de confiança no parlamento, aprovada por unanimidade.

A única declaração pública do Presidente foi feita no início de julho que, num discurso à nação no parlamento, negou que pretende demitir o Governo.

“Esta mensagem visa sobretudo estancar esta hemorragia de boatos e especulações, desbloqueando assim o país e imprimindo uma maior dinâmica às nossas instituições da República”, disse, prometendo respeitar a “separação de poderes” e “jamais interferir em atos ou atividades do Parlamento, do Governo ou Justiça”, mas sem nunca abdicar do papel de árbitro.

Antigo estagiário no Gabinete de Estudos Económicos do Banco de Portugal, dirigido pelo atual Presidente da República de Portugal, Cavaco Silva, Jomav é licenciado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, depois de ter completado o ensino secundário no Liceu Sá da Bandeira, Santarém.

Pouco depois do estágio, deixou Portugal para assumir funções no antigo Banco Nacional da Guiné-Bissau mas foram os cargos políticos que lhe deram notoriedade: em 2004 foi presidente da Câmara de Bissau e em 2009 assumiu as funções de ministro da Finanças, no Governo de Carlos Gomes Júnior que viria a ser deposto pelo golpe de Estado militar de 2012.

O seu passado de economista e a fama de ter posto as contas do Estado em ordem enquanto ministro ajudaram-no a ser eleito, em maio de 2014, enquanto candidato oficial do PAIGC, que tem como líder o primeiro-ministro, Domingos Simões Pereira.

Filho de Mário Vaz e de Amélia Gomes, José Mário Vaz nasceu a 10 de dezembro de 1957, em Calequisse, região de Cacheu, no norte do país, é animista, casado e pai de três filhas.

Apesar da política, boa parte da vida profissional de José Mário Vaz pode ser descrita por números por entre contas de deve e haver.

Em 1982, entrou como quadro superior para o antigo Banco Nacional da Guiné-Bissau e nos anos seguintes complementou a licenciatura em Economia com formação no estrangeiro, passando até pelas instalações do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington.

Paralelamente, em 1987, ano em que completou 30 anos, fundou a empresa ligada a materiais de construção com o nome pelo qual também é conhecido: Jomav, tal como se escrevia nos cartazes da campanha presidencial.

Em 1989 aderiu ao PAIGC e em 1993 foi eleito como primeiro presidente da Câmara de Comércio, Indústria e Agricultura da Guiné-Bissau, passando a liderar também a Agência Guineense de Execução de Obras de Interesse Público e Promoção.

No ano seguinte, foi mandatário Nacional do Presidente Nino Vieira nas primeiras eleições gerais do país, mas apostou na vida de empresário.

Mas é a partir de 2004, à frente da câmara da capital, começa a construir o título de “homem do 25” por conseguir pagar os ordenados a tempo e horas (no dia 25 de cada mês) – facto pelo qual também ainda hoje é recordado enquanto ministro das Finanças.

Ainda no município, apostou na recolha de lixo e na organização urbanística de Bissau.

No Ministério das Finanças, trabalhou no perdão da dívida externa da Guiné-Bissau – foi perdoada cerca de metade da dívida calculada na altura em mais de 1,14 mil milhões de euros.

Liquidou outras dívidas ao setor privado, aos bancos comerciais e aos funcionários públicos, que sofriam com vários meses de salários em atraso.