É uma das coisas engraçadas no râguebi. Durante um ano, as melhores seleções defrontam-se duas, três ou quatro vezes. Conhecem-se, sabem as manhas umas das outras e assim fica difícil surpreenderem-se. No futebol, por exemplo, cada Brasil-Alemanha é uma relíquia porque ninguém sabe quando um duelo desses se vai repetir. Mas no mundo da bola oval, neozelandeses e australianos estão fartos de partilharem relvados. Já aconteceu 155 vezes, em parte por jogarem o Rugby Championship, um campeonato anual entre as quatro melhores seleções do hemisfério sul, e por serem dois países vizinhos que a geografia mantém encostados a um canto do planeta, com o mar da Tasmânia no meio. E só agora é que se encontram na final de um Mundial.

Os All Blacks, a seleção que até as chuteiras dos jogadores pintou de negro para fazer jus ao nome, os monstros do râguebi que lideram o ranking mundial desde dezembro de 2009 (!), vão defrontar os Wallabies, os australianos alcunhados de pequenos cangurus que conseguiram ser a única equipa a ganhar à Nova Zelândia este ano – aconteceu a 8 de agosto, em Sydney, e as contas ficaram em 27-19. Foi uma de quatro de derrotas que os neozelandeses sofreram desde 2011, quando conquistaram o último Mundial a jogar em casa. Dado o contexto, melhor final não podia ser, certo? Parece que sim e as meias-finais serviram para mostrar que foram as duas melhores equipas do planeta a ganharem a oportunidade de se agarrarem ao troféu Webb Ellis.

LONDON, ENGLAND - OCTOBER 24: Jesse Kriel of South Africa holds his head in his hands in dejection as the rain falls during the 2015 Rugby World Cup Semi Final match between South Africa and New Zealand at Twickenham Stadium on October 24, 2015 in London, United Kingdom. (Photo by Stu Forster/Getty Images)

O sul-africano Damien De Allende terá de esperar mais quatro anos para tentar chegar à final de um Mundial. Foto: Stu Forster/Getty Images

Não foi nada fácil. Os All Blacks tiveram que se livrar da África do Sul, dos Springboks que foram dos mais duros a defender deste Mundial. Os que vestiam de verde foram um pesadelo para os neozelandeses nos rucks, onde se fartaram de ganhar posição e de armar jogadores com mãos para recuperarem bolas (turnovers). A Nova Zelândia chegou ao intervalo a perder, com menos um jogador (Jerome Kaino viu o cartão amarelo) e farta de fazer faltas. Mas aguentou. A equipa uniu-se com 14 em campo e ganhou ânimo pelo facto de não ter sofrido pontos e de ter visto Daniel Carter a acertar um pontapé de ressalto nos postes, apenas o oitavo em 112 jogos. A equipa resgatou confiança, marcou um ensaio e confiou no pé de Carter para voltar a dar uma derrota por dois pontos (20-18) à África do Sul — lembram-se do Japão?

A Nova Zelândia não teve inspiração por aí além, como tivera contra a França, nos quartos-de-final. Cometeu uma avalanche de erros e não é nada normal ver a equipa que faz 14 penalidades (os Springboks fizeram seis) a ganhar o jogo, a maioria na primeira parte. Mas os All Blacks mantiveram-se calmos e não panicaram, enquanto os sul-africanos não souberam atacar como equipa e insistiram em tentar furar a defesa neozelandesa com arrancadas solitárias ao invés de um jogo de passes à mão. Perderam e foram castigados por só terem marcado um ensaio (Fourie Du Preez, contra Gales) após saírem vivos da fase de grupos. E bem vivaça continua a Austrália, ainda mais agora, espicaçada por ter sobrevivido à fúria que os argentinos deram ao seu jogo à mão quando tiveram de correr atrás do prejuízo.

LONDON, ENGLAND - OCTOBER 25: Nicolas Sanchez of Argentina walks around the pitch dejected after losing the 2015 Rugby World Cup Semi Final match between Argentina and Australia at Twickenham Stadium on October 25, 2015 in London, United Kingdom. (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)

Nicolás Sanchez ainda é o melhor marcador (89 pontos) deste Mundial, mas à Argentina só resta o jogo do terceiro e quarto lugar. Foto: Mike Hewitt/Getty Images

A primeira parte deu cabo dos Pumas. O dinamismo a atacar, de passes arriscados, jogadores a cruzarem linhas de corrida, combinações à mão em alturas de jogar ao pé, um estilo de quem parece atacar à maluca, não resultou contra os Wallabies. Os argentinos sofreram o primeiro de quatro ensaios logo no arranque do jogo e apenas se mantiveram no resultado até ao fim graças ao pé direito de Nicolás Sanchez, que tratou bem os cinco pontapés de penalidade que bateu. O problema foi que os sul-americanos perderam Agustín Creevy, capitão e talvez o talonador com melhores mãos do Mundial, e Juan Imhoff, o ponta endiabrado que ia com três ensaios marcados na prova. Pelo meio, Juan Martín Hernández, o faz-tudo na linha de três quartos a quem chamam El Mago, levou uma placagem que o deixou ko.

Os dois primeiros saíram na primeira parte, o último aguentaria até ao intervalo. E ainda ficaram sem Matías Alemanno durante 10 minutos por o árbitro achar perigosa uma placagem com o ombro e sem braços que o asa fez aos tornozelos de Israel Folau.

A Austrália marcou quatro ensaios — três de Adam Ashley-Cooper — e a Argentina nenhum, mas foram os Pumas quem mais tentou fazê-lo. Os homens treinados por Daniel Hourcade, adjunto da seleção portuguesa no Mundial de 2007 que acabou o jogo em lágrimas, a “chorar pelos jogadores”, nunca pararam de atacar na segunda parte. Arriscaram tudo e ultrapassaram 13 vezes a linha da vantagem, que é como quem diz, quebrar a linha da defesa australiana. Às tantas impuseram ao jogo um ritmo que cansava os olhos de quem via e apenas lhes faltou a pitada de paciência nos últimos 10/15 metros das jogadas em que se aproximavam da área de ensaio. E só não jogaram tão rápido como de costume porque o asa Michael Hooper e o número oito David Pocock são os jogadores mais chatos para os adversários quando se forma um ruck. Roubam bolas atrás de bolas (Pocock vai com 14 turnovers no Mundial), atrasam a dinâmica alheia e obrigam os contrários a trabalharem muito. Serão sobretudo estes dois a fazerem a vida negra aos neozelandeses e a emperrarem o jogo all black na final

“Não significa nada. É como beijar a minha irmã”

As sobras das meias-finais obrigam a Argentina e a África do Sul a já só poderem jogar para o terceiro lugar neste Mundial. Os Pumas têm a oportunidade de igualarem o que conseguiram em 2007 e de, uma vez mais, mostrarem que têm de parar de ser tratados como uma surpresa. A seleção não tem parado de melhorar desde que, em 2012, começou a competir com os monstros do hemisfério Sul no Rugby Championship e não deverá parar de dar pulos na evolução — na próxima edição do Super Rugby, uma espécie de Liga dos Campeões que reúne os melhores clubes da metade de baixo do planeta, já haverá uma equipa argentina, montada pela federação de râguebi do país. A seleção argentina é jovem e muitos jogadores deverão chegar ao próximo Mundial, no Japão, em 2019.

Para já a prioridade é acabarem no pódio deste Campeonato do Mundo, palavra de capitão. “Prefiro ficar em terceiro do que em quarto. Este jogo significa muito. Não seremos campeões, estamos muito tristes, mas o nosso melhor jogo ainda está para vir”, disse Agustín Creevy, após a derrota com a Austrália. Os argentinos parecem estar já em vantagem num aspeto — querem mais o terceiro lugar do que os sul-africanos.

É a conclusão a que se chega depois de ouvir o que Heineke Meyer, selecionador dos Springboks, teve para dizer quando lhe perguntaram sobre o jogo do play-off que se realizará na sexta-feira (20h). “Este jogo não significa nada para mim. É como beijar a minha irmã”, confessou, mais a sério do que a brincar. Não chegando à final, os sul-africanos podem-se estar nas tintas para um terceiro ou um quarto lugar, mas ainda não se terão esquecido do que sucedeu na última edição do tal torneio das quatro nações do hemisfério Sul: acabaram no último lugar e, pela primeira vez, perderam um jogo contra a Argentina (25-37), em Joanesburgo. Por isso, cuidado.