A madrugada está no início quando a notícia aparece: aos 40 anos, Jonah Lomu morreu. O telemóvel está ao lado e, quase sem pensar, arriscamos a pegar-lhe para escrevinhar um sms, à pressa. Além de pedirmos desculpa pela hora, também pedimos a Tomaz Morais se pode escrever sobre o que o neozelandês significa para o râguebi, e para ele. Significava tanto, que o antigo selecionador e diretor técnico nacional não demora mais de cinco minutos a responder: “Claro que sim”. Fica combinada uma conversa para a manhã desta quarta-feira e aí Tomaz Morais troca a palavra escrita pela falada para dizer o que achava da “figura heroica que foi fundamental para a divulgação, a promoção e a imagem do râguebi” — e para contar algumas histórias.

Em 1994, quando vamos pelo segundo ano consecutivo ao Hong Kong Sevens, temos um treino a meio da semana com os All Blacks. Fizemos um jogo-treino o que, na altura, para nós, era uma coisa impensável. Era a segunda aparição que Portugal tinha num grande evento mundial e no ano anterior até tínhamos deixado uma grande imagem, fomos à final da Taça Bowl. E foi engraçado porque não conhecíamos o Lomu. Apesar de ser da minha geração, ele ainda era um miúdo, tinha menos uns seis ou sete anos que eu. Vimos aquele monstro a equipar-se ao nosso lado e os comentários começaram logo: ‘Quem é aquele?’. Nem barba na cara tinha, era mesmo um miúdo, com uns headphones gigantes na cabeça. E lá fomos nós para o jogo.

Começámos muito bem. Tivemos logo uma touch a nosso favor, nos nossos 22 metros, e decidimos atacar à mão. A bola chega ao nosso ponta, que se isola para o ensaio, a correr desalmadamente. Eu ia atrás dele e o Lomu, que era o primeiro pilar da Nova Zelândia, estava do outro lado do campo. Começou a correr, a fazer uma diagonal, e quando o nosso jogador mergulha para o ensaio, o Lomu agarra-o. Não sei o que lhe fez, mas pô-lo fora do campo e atirou-o para uma espécie de moitas que estavam à volta do campo. Foi literalmente parar à moita! Foi ele, foi bola, foi tudo, quando nós já estávamos a festejar o ensaio. Até perdemos esse jogador para o torneio, ficámos só com nove.”

Farta-se de rir, deixa a gargalhada interromper-lhe o discurso por uns segundos.

“O Lomu fez um torneio extraordinário. Devia ter uns 18 ou 19 anos, foi antes da grande aparição dele no Mundial da África do Sul, em 1995. Ninguém o conhecia minimamente. Pelo menos nós, porque não havia informação, não havia net, não tínhamos acesso aos jogos dos adversários, só às vezes víamos uma cassete VHS de um jogo, de vez em quando. Ele na altura jogava a número 8 na seleção de juniores neozelandesa. Nós éramos uns perfeitos desconhecidos e tínhamos uma certa dificuldade em falar com as outras equipas, por isso é que tudo aquilo foi uma novidade. Tenho a imagem de chegar ao quarto do hotel e o tal nosso jogador me perguntar: ‘Epá, oh Tomaz, o que foi aquilo? Perdi o torneio!’ Não temos isto filmado, mas se acontecesse hoje tornava-se viral, não tenho dúvidas.

Depois, durante o torneio, vimo-lo jogar e tinha um estilo a jogar a ponta completamente diferente dos outros. Havia o [Marika] Vunibaka, que também era um ponta gigante, das Fiji, um [David] Campese, que tinha o meu tamanho, mas com uma massa muscular maior e era muito físico. Mas quando o vimos jogar, o Lomu ia a direito. Mesmo que o adversário não estivesse à sua frente, ele ia à procura dele, atropelava-o. A velocidade com ele ia ao contacto… Aquilo marcou o râguebi. Nesse ano a Nova Zelândia ganha o torneio em Hong Kong e ele recebe o prémio de melhor jogador. E no ano seguinte vemos o Lomu a explodir no Mundial.”

A vida continuou. Anos depois, o português treinaria a seleção nacional e ajudaria uns amadores a fazerem história no meio de profissionais, em 2007. Aí já não era o tempo de Jonah Lomu.

“Acaba por ser o jogador mais marcante de todos os tempos. Deu uma imagem diferente ao râguebi, além de ser a imagem do desporto no mundo. Quando se falava de râguebi falava-se de Lomu. Havia pessoas que me diziam: ‘Ah, tu jogas o jogo do Lomu’. Num jogo coletivo como o râguebi, ele foi uma figura mal interpretada. Se calhar as pessoas mais novas não vão perceber isto, mas, naquela altura, como o râguebi ainda era muito desconhecido globalmente, o Lomu estava acima do desporto. Era um herói, um fenómeno. E a verdade é que nunca mais apareceu um Lomu no râguebi, um jogador com esta dimensão e qualidade. Esta figura heroica foi fundamental para a divulgação, a promoção e a imagem do râguebi.

Os próprios neozelandeses sentiam que o Lomu estava acima de qualquer coisa. Isto tinha um lado bom e um mau. Ele era invejado, mal criticado e incompreendido, faz parte do desporto e de quem atinge um patamar de heroísmo desportivo. Já este ano, quando estávamos em Hong Kong, eu e o Pedro Netto fomos ao jantar comemorativo dos 40 anos da competição. Ficámos na mesa ao lado de onde estava o Jonah Lomu. Estava lá ele, o Waisale Serevi, o Christian Cullen e outros. No final do jantar fomos falar com ele. ‘Jogámos contra ti aqui, em 1994, e tal…’”. 

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“Ele riu-se, disse que se lembrava muito bem, que acompanhava o râguebi português e falou connosco: ‘Vocês foram fantásticos no Mundial de 2007 e nos sevens são uma coisa que não tem igual. O vosso esforço, aquilo que sofrem para estar no circuito mundial, são fantásticos. Há de chegar o dia em que vão ganhar aos All Blacks’.”

“E não é que na semana a seguir empatamos com eles, no próprio torneio de Hong Kong. Quando isso aconteceu, ele tirou uma fotografia com a equipa portuguesa, logo a seguir ao jogo. O Lomu tinha estes gestos, era muito mais do que um jogador. Saía do seu caminho para ajudar os outros e essa humildade era contagiante. Como grande figura que era, conseguia ter tempo para os miúdos, os autógrafos, para ensinar, para estar com os fãs. Não há maior exemplo de tudo aquilo de que o desporto precisa. Para mim, é a figura mais marcante que conheci no râguebi. Sem dúvida”.