À hora de início deste texto, o mais recente post no Facebook das Hinds mostrava-as maravilhadas com as coisa da vida. Uma foto numa loja de discos com o primeiro destas espanholas em grande destaque. E a banda encantada, a avisar que depois do disco chegarão elas, em breve, promessa é promessa. O disco tem por título “Leave Me Alone” e foi editado no início de Janeiro, para começar 2016 com uma atitude danada. Vem depois de uma série de meses em que as Hinds foram descritas como “uma das bandas que vai mesmo querer ouvir em 2015”, ou com frases ao estilo “discos obrigatórios no novo ano”.

Ainda agora começou o circo e está o mundo inteiro na mira desta gente. É certo que a banda já existe desde 2011, altura em que se apresentavam como Deers (nome que outra banda já tinha registado), mas o trabalho era outro, agora é tudo mais e maior. Por isso, falar com alguma das quatro pode ser meio complicado. Disseram que sim a umas quantas perguntas por email mas não esclareceram qual delas respondeu. O que está esclarecido é que antes do Japão passam por Portugal – estiveram sexta no Musicbox, em Lisboa, estão este sábado no Hard Club, no Porto.

Engraçadas, as Hinds. A música já bastava para o perceber mas ao saber mais das taras e manias da banda fica a certeza completa: Carlotta Cosials (voz e guitarra), Ana Perrote (voz e guitarra), Ade Martin (baixo) e Amber Grimbergen (bateria) vivem num eterno Verão Azul e fazem música para o perpetuar, mesmo onde só chove e onde o sol é de tal maneira uma miragem que parece piada.

E não falamos necessariamente do verão típico, do toalha-na-areia & peixe-na-brasa. É o summer in the city que os Lovin’ Spoonful cantavam, os dias que podem ser como as noites – ou às tantas ninguém sabe que horas são. “Queríamos que este álbum fosse editado no fim do verão porque foi escrito com muito sol, sempre imaginámos os nossos fãs a ouvir tudo isto da mesma maneira.” Curioso que não foi nada disso que aconteceu. Coisas do mundo dos negócios. “Por causa dos timings isso foi impossível. A editora disse-nos que janeiro era o melhor. Acreditámos neles. E agora acho que conseguimos trazer algum sol a este Inverno.”

Antes de “Leave Me Alone”, quando as Hinds eram as Deers, também não havia quarteto, antes um duo formado por Carlota e Ana Perrote. Depois os concursos, os festivais, mais canções, mais dois elementos para o grupo e umas quantas demos gravadas. E 2015 já foi ano de concertos pelo mundo, gente que não quer perder tempo é assim que trabalha. Um trabalho que atirou-se sempre mais ao lado de fora do que à Espanha que as juntou e que lhes deu os apelidos (menos a Amber Grimbergen, natural da Holanda): “Temos de certeza mais fãs fora de Espanha. Começámos a crescer enquanto banda ao mesmo tempo em toda a parte mas em Espanha estas coisas crescem sempre mais devagar. Claro que nos sentimos como uma banda internacional. Ninguém no nosso país faz o que nós estamos a fazer.”

E interrompemos aqui o discurso para lembrar que neste pedaço de análise ao panorama musical espanhol as Hinds não falam de rock’n’roll, não senhor, que isso é contagioso e há sempre em toda a parte. A diferença marca-se de outra maneira. Ora vejamos: “Fomos a primeira banda espanhola a actuar num dos palcos principais do festival de Glastonbury. Estamos mesmo a fazer história.”

E é que estão mesmo. Dizem que “não há pressão extra por causa disso” mas há, isso sim, um valente orgulho. Ao mesmo tempo, esse não é um feito difícil de superar? Oh, ingénuos, nós que perguntamos algo desta natureza a quem acredita que o mundo é um disco de vinil e, por estes dias, até calha bem que vem dentro de uma capa com o nome Hinds. “Nada disso. Isto é só o princípio. Vamos fazer mais e vamos fazer maior. Imagina, se o início é assim, como será o meio?” Isso, o meio, nada de falar ou sequer pensar no fim. Esta é uma banda que descende de toda a música rock, como dizia o outro. E o rock manda pensar apenas no curto prazo, no mais imediato possível, tudo o resto é acessório.

As Hinds não andam pelo mundo a tentar fazer nenhuma revolução. Não querem inventar nada de novo nem motivar a criação de novas etiquetas de género ou grau. Guitarra ao quadrado + baixo + bateria. Não se fala mais no assunto, o resto vem da garagem, do punk e de uns bons anos a ouvir canções pop sem preconceitos. Depois enrolam tudo em temas que só por uma vez ultrapassam (muito pouco) os quatro minutos.

Dos Strokes aos Strange Boys, é pelo meio desse desleixo estiloso que se movem e a fórmula fica-lhes bem, mesmo que no meio deste descompromisso aparente esteja sempre o amor e suas maleitas, mais doridas ou menos sentidas. “Todos pegamos numa guitarra quando somos adolescentes, é quase obrigatório, mesmo que ninguém o sinta dessa maneira. Depois, há uns quantos que não conseguem deixar de o fazer. Nós fazemos parte desse grupo de gente teimosa.”

Trazem “Leave Me Alone” a Portugal e sabem que vão encontrar “mais ou menos aquilo que existe em Madrid”. Não perguntámos que coisas comuns são essas porque não houve uma segunda hipótese nesta quase-conversa por email. Mas não foi preciso e também por isso agradecemos. As Hinds chegaram-se à frente com a justificação que se esperava: “Madrid é rock’n’roll, é suja, é barata e é livre. Madrid é a melhor cidade, como são Lisboa e o Porto.” Charme de visitante ou sinceridade boémia. É uma mistura das duas e é também isso que este quarteto pouco castelhano apregoa, entre a música e a imagem que transmitem: a pop faz-se de conteúdo e de pose, de aparências e de realidades. Dizem-nos que têm “poucos anos disto”. São ainda curtos, é certo, mas não tiveram espaços em branco no calendário.

Concerto: este sábado 6, no Hard Club, Porto, 22h, 8€ (primeira parte com Os Modernos)