* “E mais ninguém”.

É a primeira entrevista a um jornal (em Portugal, deu uma à TVI) desde que foi libertado e José Sócrates escolheu concedê-la a uma publicação holandesa, o NRC, para acusar a justiça portuguesa de tentar travar uma candidatura sua à Presidência da República. Mas o ex-primeiro-ministro não fica por aqui. Assume uma “atitude combativa”, reserva para si os “momentos difíceis” na prisão de Évora, não encerra a sua carreira política e ainda dispara suspeitas: “Os conservadores [refere-se ao governo PSD/CDS, que se seguiu ao seu] primeiro responsabilizaram-me pela crise, e agora sou pessoalmente criminalizado”.

Isto só se explica por ódio político. Estou convencido de que queriam evitar que eu apresentasse a minha candidatura à Presidência. Ainda que essa nunca tenha sido a minha ambição.”

Preso em novembro de 2014 por suspeita dos crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, José Sócrates queixa-se ao jornal holandês do momento da sua detenção: “Um espectáculo televisivo. Muito humilhante”. Seguiram-se dez meses no Estabelecimento Prisional de Évora, a prisão domiciliária em setembro passado e a libertação no mês seguinte. A inexistência de acusação faz José Sócrates manter a afirmação de que não existem provas contra si e o ex-primeiro-ministro repete-a nesta entrevista disponibilizada no site do jornal. “É inacreditável que isto seja possível numa democracia”, diz, para logo a seguir acrescentar: “Isto é Kafka”.

Sobre a prisão, prefere não falar e apenas diz que, nos “momentos difíceis”, lembrou-se que “o Partido Socialista nasceu numa cela”. “Muitos líderes estiveram presos”, afirmou, numa referência às prisões políticas anteriores ao 25 de Abril. Um dos líderes que tinha na memória era um dos visitantes regulares na prisão de Évora, Mário Soares. Mas o ex-secretário-geral do PS também recorda outras visitas, como a de António Guterres, que, segundo Sócrates revela, lhe terá levado uma mensagem de apoio de Jean Claude Juncker. “O presidente da Comissão Europeia disse que tinha a intenção de me telefonar, mas não foi possível”.

Foi tudo menos uma prisão VIP. Trancavam a porta da minha cela todas as noites. Tive momentos difíceis. Mas lembrava-me que o Partido Socialista tinha nascido numa cela. Muitos líderes estiveram presos”

O ex-primeiro-ministro recorda ainda a famosa expressão em que se descreve como um “animal feroz” — foi numa entrevista ao Expresso em 2004, no verão em que se candidatou à liderança do PS. Isto para dizer que mantém o espírito “combativo”, sobretudo depois de nos tempos em Paris se ter “deixado inspirar pela vida do poeta francês [da resistência] René Char, que sempre lutou pelas suas causas”. “Trago isso comigo. Quando me candidatei à liderança do Partido Socialista fui descrito como uma fera que nunca deixava a sua razão. Foi essa imagem que eles tentaram mudar, ao porem-me numa cela como um passarinho morto.”

“O que restou dos nossos ideais?”

José Sócrates também faz críticas à comunicação social portuguesa, que diz agir em “conluio” com as autoridades judiciais. Como? Sócrates explica, acusando: “Os jornalistas obtêm informação com a condição de tecerem grandes elogios aos juízes”.

Na longa entrevista dada ao jornal holandês, José Sócrates nunca admite que a sua vida política possa ter terminado.

É triste. Não sei se alguma vez voltarei a entrar na política. Uma coisa é certa: serei eu a escolher o fim definitivo da minha carreira política. E mais ninguém.”

A prová-lo, ataca o seu sucessor no Governo, Pedro Passos Coelho, que diz ter sido submisso relativamente às instituições europeias. Para comentar as medidas de austeridade implementadas pelo governo PSD/CDS, cita a frase que aparece na porta do Inferno na Divina Comédia, de Dante: “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais”.

Sócrates também faz pontaria à resposta alemã à crise, que, acredita, acentuou o “contraste entre o Norte e o Sul” da Europa. “O que restou dos nossos ideais?”, questiona o socialista.

José Sócrates concordou em dar esta entrevista apenas depois de uma conversa de uma hora com o jornalista. O jornal NRC explica que a entrevista formal aconteceu dois dias depois.

*Tradução de Xénon Cruz