Kanye West

The Life of Pablo

A super estrela norte-americana anunciou o sétimo álbum como “o melhor de sempre”. Não o melhor dele, mas o melhor álbum de todos os tempos. A espetacularidade da apresentação da passada semana no Madison Square Garden em Nova Iorque, em que utilizou a canções (ainda inacabadas) do disco para sonorizar a nova coleção de roupa, levou milhares a esperar mesmo o melhor. Mas a música, quando se ouve sozinha, despida, nem sempre mantém a graça.

A estratégia de marketing em torno de The Life of Pablo (Escobar? Picasso? São Paulo? [Pablo, em espanhol]) tem sido muito hábil e criou um enredo que gerou grande expetativa — o disco mudou de nome quatro vezes, foram vários os alinhamentos anunciados nas redes sociais e ainda é dado como inacabado, mesmo depois de publicado.

The Life of Pablo está disponível apenas numa plataforma. Até que Kanye West mude de ideias, que troca à velocidade de uma muda de roupa. O primeiro plano era vender o disco na página oficial e distribuir em streaming no TIDAL, em exclusivo durante uma semana, e só depois abrir às outras plataformas. Mas apenas esteve à venda umas horas e diz agora que ficará para sempre (!?), apenas e só, no serviço de streaming de que é coproprietário (e que à conta disso viu o número de subscrições disparar, nos últimos dias).

https://twitter.com/kanyewest/status/699376240709402624

Que Kanye West é um artista de corpo inteiro ninguém tem dúvidas, mas The Life of Pablo está muito longe de ser o melhor álbum de sempre (seja lá o que isso for) e nem sequer é o melhor dos que já gravou. Não está sequer perto do arrojo do anterior Yeezus (2013), mas ainda assim tem alguns momentos luminosos. É detalhado, polémico e provocador, conta com mais uma mão cheia de amigos-estrela (Kendrick Lamar, Frank Ocean) e até pela incursão no género gospel, é um disco que vale a pena ouvir esta semana. Mas sem espetáculo.

https://soundcloud.com/kanyewest/30-hours

Danças Ocultas

Amplitude

20 anos depois do primeiro disco, Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel imprimiram em disco os espetáculos realizados em maio de 2015 na Casa da Música e no CCB. O quarteto de concertinas encheu as duas salas e a Orquestra Filarmónica das Beiras fez o mesmo ao som. Três convidados de luxo foram a cereja em cima do bolo: o compositor Rodrigo Leão, a fadista Carminho e a dupla Dead Combo. Esta mistura de experiências ao vivo, agora trazida a disco, é uma demonstração da riqueza dos instrumentos e inspiração populares, e que estes continuam entre os melhores trunfos da música portuguesa contemporânea.

Porches

Pool

Este é mais um exemplar do abundante universo da eletrónica triste, uma dúzia de canções arrumadas no segundo álbum do projeto do nova-iorquino Aaron Maine. Pool é um tanque de temas curtos feitos com caixas de ritmos e sintetizadores, eletro pop puro e duro que chega a ser desconcertante. Nas primeiras audições ficamos na dúvida se Aaron Maine sabe cantar, mas o conjunto final acaba por ser surpreendente. Isto porque a namorada, Frankie Cosmos (baixista e segunda voz), canta melhor que ele e essa inversão de papéis (ou seja, o protagonismo das vozes) soa a um engano bem feito. Esta é uma piscina cheia de pop eletrónica que convida a um banho demorado. Se há discos que valem a pena manter de molho, este é um deles.

Junior Boys

Big Black Coat

Os Junior Boys são a dupla canadiana Jeremy Greenspan e Johnny Dark, estão juntos na música desde 1999 mas apenas publicaram cinco álbuns de estúdio. Levam tempo a trabalhar os discos que fazem, música eletrónica com toques de disco sound, house e techno, uma mistura que equilibram em canções nem sempre fáceis. Não são de fazer temas orelhudos, pelo contrário, encontram na complexidade sonora um desafio que lançam a quem os ouve, em disco e ao vivo, onde são poderosos. 17 anos depois, este quinto LP segue a sequência estética dos anteriores e deixa o sentimento de que a idade é coisa que lhes está a fazer bem. Se gostar de vestir este casaco, experimente os outros quatro.

Golden Slumbers

The New Messiah

Este é o primeiro LP das irmãs Cat e Margarida Falcão, um disco de canções folk gravadas no Alentejo, no estúdio do produtor e músico Benjamim. São uma dezena de temas que se demoram por pouco mais de meia-hora, feito de sons simples e vozes que se cruzam com harmonia, que voltam a justificar a nomeação para a categoria de melhor artista revelação no Portugal Festival Awards em 2015. É um disco para dias lentos, que a partir do final deste mês se faz à estrada para uma série de concertos. O primeiro é no dia 26 na Casa Independente em Lisboa e inclui na festa um DJ set de Benjamim. The New Messiah está disponível para ouvir aqui.