O edifício com a cruz no topo faz-nos crer que estamos num local de culto mas, nesta capela, situada na Baixa do Porto, não é preciso benzer-se à entrada. No teto há vitrais mas, nas paredes, em vez de quadros de santos há fotografias a preto e branco de vindimas. Numa das salas está um altar em madeira com relevos de cenas religiosas. Quem lá entra pode sentar-se a admirá-lo, enquanto comete o pecado da gula. O novo wine bar Capela Incomum abriu a 12 de fevereiro e tem uma missão: converter quem lá entra ao culto do vinho.

Há anos que Francisca Lobão bebe um copo de vinho a seguir ao jantar. Quando vai sair, vê os amigos pedirem cerveja. “Estamos num país com tanta produção de vinho, tanto vinho diferente, todos os dias se criam marcas novas, há pessoas de todo o mundo que vêm estudar as uvas portuguesas, e nós aqui não bebemos vinho?”, diz ao Observador. São estas pessoas que a proprietária quer atrair com esta casa despretensiosa e, quem sabe, fazê-las trocar o copo de cerveja ou de gin pelo de branco, verde ou tinto. Para desafiar os clientes mais conhecedores, vai ter alguns vinhos fora da carta para sugerir aos clientes. Os que forem mais bem acolhidos podem fazer parte da oferta permanente.

Antes de explicamos que lugar é este e se a comunidade religiosa tem motivos para gritar blasfémia, vamos à Bíblia. Perdão, ao menu desta Capela, pensada por Nuno Aguiar, que trabalha com o enólogo Anselmo Mendes. O Douro, como é habitual a norte, é o privilegiado da lista. Também há Dão, Bairrada e Alentejo. Da região de Lisboa só há uma referência. Entre vinho verde, branco, tinto, verde tinto, rosé, espumantes e vinho do Porto há cerca de 70 referências, todas portuguesas. No vinho do Porto, por enquanto só está representada a Niepoort, nas suas várias formas.

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Os mais desatentos pensarão que a velha capela voltou a ser um local de culto. Mas quem espreitar vai ver que no lugar de cruzes e santos há garrafas e copos de vinho. © Diogo Oliveira / Observador

“Quando me pedem um copo de vinho do Porto eu tenho de perguntar: mas é branco, tawny, ruby? Muitas vezes as pessoas não sabem o que querem”, conta Francisca, que tem todo o gosto em aconselhar a melhor bebida para a altura. “Nós aconselhamos sempre a beber o dry white antes e os tawnys depois da refeição, consoante a hora do dia. E as pessoas quando entram aqui também já vêm à espera de algum aconselhamento.” Há vinhos de várias gamas, entre 3€ e 4,5€ o copo, entre 10€ e 50€ a garrafa. A mais cara é a Carvalhas Tinta Francisca. Por 13€ pode vir para a mesa uma garrafa de Diálogo, por exemplo, cujo rótulo é uma divertida ilustração de Luís Afonso. “Acho que os portugueses gostam de vinho mas, apesar de estarmos num país produtor, e por experiência de trabalhar em restaurantes, acabava por servir vinhos que eu nem achava nada de especial e as pessoas não se importavam, achavam bom na mesma.”

Recuemos três anos, até ao tempo em que aquela capela era apenas mais um edifício em ruínas no centro da cidade e Francisca Lobão trabalhava em design de interiores. Foi com essa função que chegou à Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, com a missão de fazer uns projetos de enoturismo, remodelando adegas e salas de prova de diversas quintas. “Claro que a meio já estava mais interessada no vinho”, diz, a rir-se. Com o tempo que passou nas adegas foi aprendendo tudo sobre a arte, até porque, para repensar os espaços, Francisca investigava a fundo os locais e a sua história.

Um dia, uma amiga de família contou-lhe que tinha um espaço na Baixa, com uma capela. “Quando fui lá fiquei a pensar: wow, o que é isto? A capela era vermelha, nunca tinha visto. Eu começo logo a viajar, acho que nem dormi nessa noite a pensar como é que podia pegar numa capela”, recorda. No início pensou fazer um showroom, algo ligado ao design de interiores. Como sempre, antes de tomar qualquer decisão sobre um espaço, foi investigá-lo. No arquivo municipal descobriu que a capela foi edificada pelo Visconde Vilarinho de São Romão, que viveu entre 1785 e 1863, e que escreveu vários livros, entre os quais Memória Histórica e Analítica sobre a Companhia dos Vinhos Denominada da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. O Visconde esteve ligado aos vinhos. Francisca também. Foi só fazer um brinde entre estas duas curiosidades e idealizar aquela capela como um lugar de vinho que não fosse o sangue de Cristo.

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À direita entra-se na sala principal. É ali que está o altar, embora não se veja nesta fotografia. © Diogo Oliveira / Observador

Recuperou o espaço, mantendo as vigas e algumas paredes em pedra, mas tornando-o mais confortável. Depois certificou-se que não iria ter problemas com a Igreja Católica. Consultou um padre para saber se o local, onde não havia atividades religiosas há mais de 50 anos, ainda teria algum tipo de culto associado. Depois procurou saber como se desafeta o culto de uma capela. Chegou mesmo a enviar uma carta ao Bispo do Porto, na altura ainda D. Manuel Clemente, onde explicava os seus planos e se comprometia a tirar os objetos religiosos, mas a manter a traça do edifício e o altar. Na resposta, desejaram-lhe sorte. Estava abençoada a ideia.

Depois de passar a entrada, onde estão expostas as garrafas, e seguindo pela direita, encontra-se um teto com três vitrais. As paredes são cor de tinto, como o vinho que Francisca prefere ter à mesa. É à noite que o altar ganha mais esplendor, com as velas ligadas. No andar de cima, numa sala que se quer mais calma, há jogos de tabuleiro disponíveis para os clientes, com destaque para um monopólio de vinho do Porto. Quando vier o bom tempo, a capela vai ganhar uma esplanada.

E porque há sempre quem prefira beber outra coisa, a proprietária incluiu no menu quatro opções de whiskey (JB, Red Label, Black Label e Cardhu) e gin (Beefeater, Tanqueray e Hendricks), embora procure sempre desviar os adeptos do gin para o Porto tónico, desconhecido por muita gente. Tudo entre os 4€ e os 10€. Também há cerveja, sangria e chá.

E petiscos, muitos petiscos. A proprietária tem raízes minhotas, pelo que não faltam tábuas de queijos e enchidos (7,50€). A morcela e o chouriço assam na mesa, à vista do cliente. Há ainda uma variante de morcela, queijo chèvre e framboesa, e um queijo de cabra no forno com mel e alecrim. Bruschettas (todas entre os 4,50€ e os 5€) e doces como pudim de requeijão com abóbora e laranja (5€), queijo da serra com noz (6€) e mousse de chocolate (5€) completam a oferta, pensada para acompanhar o vinho, e não o inverso. “É zero aquele espaço chique que as pessoas associam ao vinho. Quero que as pessoas estejam o mais à vontade possível”, garante a proprietária, que gosta de conviver com os clientes, sejam eles devotos do néctar de deus Baco ou de outra coisa qualquer.

Nome: Capela Incomum
Morada: Travessa do Carregal, números 77, 79 e 81 (Cedofeita), Porto
Telefone: 22 201 1849
Horário: Terça e quarta-feira das 16h00 às 00h00, quinta a sábado das 16h00 às 02h00. Abrir aos domingos está nos planos para o futuro
Site: Página de Facebook Capela Incomum