Há dois anos, Frederico Colaço começou a trabalhar num restaurante e precisou de ir ao médico do trabalho. Foi aí que soube que nem tudo estava bem. As análises que fez ao sangue acusaram valores de glicose alterados. Seguiram-se umas análises mais específicas e com os resultados chegou também o diagnóstico: diabetes tipo 2. Tinha então 19 anos e pesava 118 quilos.

“Fiquei um bocadinho apreensivo. Sobretudo porque a minha médica me disse que tinha de me privar de muitas coisas, como álcool, batatas fritas, chocolates. Dizia que só podia comer legumes e peixe. Era uma alimentação muito complicada. Talvez tenha sido um bocado radical”, conta Frederico Colaço, agora com 21 anos.

A verdade é que de pouco lhe serviram os conselhos da médica de família. Só passados nove meses, quando foi a uma primeira consulta na Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), começou a seguir “à risca” um plano alimentar. “Foi-me atribuída uma nutricionista que me fez logo um plano alimentar e aconselhou-me as doses certas e o tipo de alimentos que os diabéticos devem comer. Não me foi proibido comer nada”, afirmou, confidenciando alguns deslizes.

Não vou estar a mentir e a dizer que não como algo que não devo. Mas não como diariamente. Uma vez por mês cometo um abuso que é ir beber uns copos com amigos e comer uns petiscos. Já sei que os valores vão subir, mas no dia a seguir volto à dieta. Eu não levo isto na brincadeira, mas levo na desportiva.”

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Pior mesmo é a parte do exercício físico. Chegou a frequentar um ginásio, mas desistiu cinco meses depois. “Vim trabalhar para o campo e isto é um ginásio muito grande, chego ao fim do dia muito cansado”, justifica o jovem, que mora numa vila do distrito de Santarém. Ainda assim, perdeu mais de 18 quilos desde que iniciou um estilo de vida mais saudável. Devia perder mais.

“A grande responsável pela pandemia da diabetes tipo 2 é a obesidade”, afirma o coordenador do Plano Nacional para a Diabetes, José Manuel Boavida, sem qualquer hesitação, destacando a importância de uma dieta equilibrada e do exercício físico. Mas também há uma forte componente da hereditariedade.

Também Bruno Almeida, médico de medicina interna da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal e assistente da Faculdade de Medicina, da Universidade de Coimbra, sublinha a importância de estes doentes perderem peso, pois a terapêutica com o passar dos anos vai perdendo eficácia e “daqui a uns anos muitos doentes vão ter necessidade de insulinoterapia”.

É fundamental restringir os hidratos de carbono e a gordura e começar a fazer exercício físico para perder peso. Um plano de exercício físico regrado, permanente e rotineiro, porque é o que tem melhor efeito em termos de futuro”, explica o médico de medicina interna Bruno Almeida.

Mas só isso também não chega. O médico Bruno Almeida sublinha que se “deve começar logo com a medicação” para evitar complicações. Frederico Colaço só começou a terapêutica quando chegou à APDP: dois comprimidos diários para a diabetes, um para o colesterol e outro para a hipertensão. Mais tarde foi-lhe prescrita uma injeção diária (Victoza), análoga à hormona GLP-1, que lhe diminui o apetite e ajuda a reduzir os níveis de açúcar.

Diabetes aparece cada vez mais cedo e mais agressiva

Sim, leu bem. Aos 21 anos, Frederico Colaço toma medicamentos para a diabetes tipo 2, para o colesterol e para a hipertensão.

Um estudo feito nos Estados Unidos mostra, e a prática também nos prova, que um jovem que tenha diabetes tem muito maior probabilidade de vir a desenvolver outras comorbilidades. É que eles têm anos e anos de diabetes pela frente, mesmo que controlada”, explica o médico da APDP.

Também José Manuel Boavida, da DGS, refere que a diabetes tipo 2 nos jovens é “particularmente preocupante porque estas pessoas vão viver muitos mais anos com a diabetes e a diabetes em idades mais jovens é mais agressiva”.

Diabetes tipo 2 é a mais comum

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A diabetes tipo 2 é a mais comum e está associada a estilos de vida pouco saudáveis, embora a predisposição genética também tenha peso. Consiste num défice de insulina e resistência à insulina e é mais comum em idades mais avançadas. Já a diabetes tipo 1 é mais rara e atinge na maioria das vezes crianças ou jovens, podendo também aparecer em adultos e até em idosos. Neste caso é o próprio sistema de defesa do organismo (sistema imunitário) que ataca e destrói as suas células b do pâncreas e as pessoas tornam-se insulino-dependentes.

Os médicos estão mesmo preocupados com esta realidade recente. É que Frederico Colaço é apenas um dos cada vez mais jovens com diabetes tipo 2 que vão aparecendo. Não se sabe quantos há porque não existe um registo nacional. Mas abaixo dos 18 anos, em Portugal, a APDP só tem conhecimento de uma pessoa e é um caso importado da Guiné Bissau. A questão é que pode haver crianças e jovens com a doença por diagnosticar, avisa o médico Bruno Almeida, pois um dos grandes problemas da diabetes tipo 2 é que é “silenciosa” e por isso mesmo “as pessoas podem andar anos sem saber que têm diabetes” caso não façam análises.

Mas uma vez que a obesidade é o fator de risco por excelência para o aparecimento da diabetes tipo 2 e que em Portugal, em 2013, uma em cada três crianças tinha excesso de peso e 13,9% eram obesas, haverá, pelo menos, muitas crianças e jovens em risco. Aliás, conta Bruno Almeida, nos vários centros de pediatria do país “estão a ser vigiadas várias crianças que têm uma resistência à insulina muito elevada”.

O Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes, relativo ao ano de 2014, da Direção Geral de Saúde (DGS), também dava conta de que “são cada vez mais as crianças que desenvolvem diabetes tipo 2”, uma doença mais comum a partir dos 40 anos de idade. Lê-se no mesmo relatório que o aumento da prevalência deste tipo de diabetes está associado às rápidas mudanças culturais e sociais, ao envelhecimento da população, mas também às alterações alimentares e sedentarismo. E o relatório mais recente da OMS também dá conta que a diabetes tipo 2 já aparece em crianças.

Cursos para pessoas com diabetes tipo 2 avançam este ano

A acrescer ao facto de a diabetes ser mais agressiva quando aparece em idades jovens e de as pessoas diagnosticadas em idade jovem viverem mais anos com a doença, há ainda um outro problema que se prende com a fraca adesão à terapêutica por parte dos mais novos.

“Eles têm a perspetiva que ainda são novos e têm tempo, mas o problema é que quando querem mudar comportamentos já apareceram complicações a nível renal e ocular, por exemplo”, relata Bruno Almeida.

“Convencer um jovem com diabetes é um problema complexo em termos de adesão à terapêutica”, confirma José Manuel Boavida, coordenador do Plano Nacional da Diabetes, da Direção-Geral de Saúde (DGS). E por isso “uma das maiores preocupações do Plano Nacional é a educação das pessoas com diabetes”, acrescenta o responsável.

Precisamente para procurar resolver estes problemas de adesão à terapêutica, será criado ainda este ano o curso “ABC da Diabetes”, nos centros de saúde. Esse curso incidirá sobre motivação alimentar, atividade física e controlo da doença, explicou ao Observador José Manuel Boavida, acrescentando que a formação será dada por enfermeiros e tem a duração de duas semanas (uma sessão de duas horas por semana).

O curso deverá arrancar, “na melhor das hipóteses, em junho, ou, no pior dos cenários, em outubro”, já em todos os centros de saúde do país. Mas é destinado aos doentes que receberem o diagnóstico já depois do arranque do projeto. Aos que já têm o diagnóstico traçado antes disso “vai-se dando formação como já é feita agora”, de forma menos estruturada.

A DGS quer apostar nas medidas de prevenção, o que passa necessariamente pela identificação das pessoas em risco. “As pessoas que não têm diabetes também estão em risco e também precisam de formação”, rematou o responsável, revelando que está a ser feito um estudo a nível europeu, no qual Portugal participa, para criar um questionário de risco para as crianças em idade escolar.

Já o médico Bruno Almeida defende que deveria haver “mais sessões de esclarecimento nas escolas, não só em relação à diabetes, mas também em relação à obesidade. Devia haver um capítulo sobre obesidade e as suas consequências no currículo dos alunos”.

O Dia Mundial da Saúde é dedicado, este ano, à diabetes, que é uma das principais causas de morte no mundo. De acordo com os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde, em 2014 havia 422 milhões de adultos com mais de 18 anos com diabetes diagnosticada (uma em cada três pessoas) e, desde 2012, esta doença (nos seus vários tipos) foi responsável pela morte de 1,5 milhões de pessoas em todo o mundo.

Em Portugal, morrem mais de 12 pessoas por dia com diabetes e estima-se que 9,2% dos portugueses com 30 ou mais anos tenham a doença (incluindo tipo 1 e tipo 2).