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Deixámos o Algarve enamo(u)rado depois de três espetáculos memoráveis no Teatro das Figuras, em Faro. Rumo a Lisboa, ao início da tarde, o céu carregado deixava antever um serão frio e invernal no Parque das Nações. Mas dentro do MEO Arena o calor e a emoção tomaram conta das cerca de 7500 pessoas que vieram assistir ao espetáculo de apresentação do álbum Moura na capital.
Quase duas horas e meia de atuação, num palco que parece ter sido feito à medida do dispositivo cénico que já conhecemos desde Guimarães e também vimos em Évora.

A produção do espetáculo, em termos de vídeo e iluminação, pôde ser aqui inteiramente apreciada graças as dimensões do espaço. O efeito do casulo e a borboleta luminosa simbolizam a metamorfose, ideia central na narrativa deste espetáculo que combina de forma muito peculiar os momentos de fado tradicional com uma abordagem mais contemporânea. Chega até, por vezes, a dar sentido à ideia de “fado pop” tal é a sequência melódica de algumas canções. Certo é que na voz de Ana Moura tudo nos soa a Fado e isso é o que basta para resolver conflitos de rotulagem musical. A forma como ela é capaz de fazer fluir, através do corpo e da voz, a energia poética das canções e as forças musicais do seu excelente naipe de músicos parece-nos ciência por desvendar.

A seguir aos primeiros acordes de guitarra elétrica na abertura de “Moura Encantada”, a luz abre-se e inunda o palco deixando ver o elenco a quem se junta a fadista de vestido negro e silhueta cintilante, caminhando como se deslizasse. Veja aqui como foi a primeira canção da noite que marcou a estreia de Ana Moura no MEO Arena. Depois de cantar “Ai Eu” a artista confessou o nervosismo natural de quem atua pela primeira vez no grande palco da capital, perante tantos colegas, amigos e familiares. Nas primeiras filas da plateia, um encontro de vedetas: Mariza, Ricardo Ribeiro, Cristina Branco e Maria da Fé, proprietária do “Sr. Vinho”, a ilustre casa onde Ana se iniciou, e também Jorge Fernando, entre muitos outros fadistas. Márcia, David Fonseca, Luísa Sobral e Carlão também lá estiveram para aplaudir o regresso de Ana Moura a Lisboa.

A intensidade da ovação à entrada de “Ninharia” comprova que há muito público fiel às raízes do fado tradicional e aos diálogos de voz e guitarra. Nesta parte da narrativa ausentam-se discretamente do palco Mário Barreiros (guitarra eléctrica), Joao Gomes (teclado) e Mário Costa (bateria), fixando-se os holofotes em Ângelo Freire (guitarra portuguesa), Pedro Soares (viola) e André Moreira (viola-baixo). Entrou aqui uma das novidades no alinhamento, o fado “De quando em vez” com música de João Maria dos Anjos, cantado com brio e sentimento antes do inebriante “Porque teimas nesta dor” que haveria de encerrar o segmento de fado tradicional.
“Ah fadista linda!” gritaram ao longe no fim deste trecho, altura em que também já se ouvia pedir “Dia de Folga”.

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Mas ainda era cedo e vinha aí outra surpresa da noite: Pode um corpo mover-se ao ritmo do dedilhar de Ângelo Freire na guitarra portuguesa? A resposta é afirmativa caso o corpo seja o de Romeu Runa, o bailarino que se transfigurou ao som da guitarra portuguesa ao longo de “Maldição”. A dinâmica corporal de Romeu, contornando a figura estática de Ana Moura, deu para criar a imagem de uma nova espécie de dueto, um diálogo de paixão entre a voz e o corpo, movidos a guitarra portuguesa.

Estávamos ainda sob efeito da coreografia quando entrou a guitarrada, o período em que a fadista faz uma pausa e os músicos fazem “o gosto ao dedo”, que é como quem diz, mostram do que são capazes numa composição musical que já conhecemos da digressão de Desfado mas que ganha sempre novas tonalidades. Talvez por ser a primeira vez no MEO Arena a guitarrada desta noite durou mais de 15 minutos e nem o caxixi (instrumento de percussão) de Mário Costa resistiu ao ímpeto e velocidade do baterista de Viana do Castelo.

No regresso à luz, depois de mais uma demonstração de virtuosismo do ensemble, a fadista apresentou-se num vestido branco, de corte semelhante ao negro da primeira parte, ambos criações de Filipe Faísca. Os figurinos, compostos por milhares de pequenos vidrilhos, com reflexos cintilantes, realçavam a graciosidade do movimento da artista. Esta sequência partiu de “Eu entrego”, que no original incluído em Moura tem a participação de Omara Portuondo, passando por um participado “Leva-me aos Fados” e pela sorte de “Os Búzios” entre outras canções do disco novo antes de chegar ao apoteótico “Dia de Folga”. Vieram as despedidas e logo depois o encore, que além do incontornável “Loucura” e de “Desfado” incluiu o “Fadinho Serrano” com uma explosão de confettis pelo meio. Houve ainda tempo para o “puxa” e o “anda”, como se faz no fado, com o público motivado a puxar pelos dedilhados de Ângelo Freire na guitarra portuguesa, em crescendo.

Estava ganho o desafio de montar um espetáculo desta natureza numa sala que é conhecida por não facilitar a tarefa aos engenheiros de som. Ainda a tarde ia a meio quando, durante os testes, a fadista nos contou que não gosta de usar auriculares (in ears) e que, dadas as características acústicas do MEO Arena, tinham decidido aumentar o volume do bombo (tempo marcado pelo baterista) no som de palco para que ela conseguisse manter-se no ritmo certo.

Ana Moura despediu-se do MEO Arena com um sorriso na alma, num agradecimento sincero ao público que tão bem a recebeu. Apreciadores de fado e admiradores anónimos, gente de todas as idades e muitas figuras do mundo da música marcaram presença num espetáculo a que também assistiram o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o Primeiro-Ministro, António Costa. Com público deste gabarito a estreia de Moura em Lisboa não podia ter sido melhor.