A ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque diz que a oferta pelo fundo de Hong Kong Ample Harvest, que terá sido feita em maio de 2015 e visava a compra da posição do Estado no Banif, foi “uma manifestação de interesse como outras que recebemos”. Maria Luís nota, aliás, que “o investidor em causa, hoje referido nas notícias, nem sequer veio ao concurso” que foi aberto no final do ano.

Em declarações aos jornalistas na Assembleia da República, esta quarta-feira, afirmou que “quando o Estado tem uma participação para vender, tem de o fazer em determinadas condições. Não pode vender em ofertas particulares, teria de abrir um processo competitivo e selecionar os compradores que poderiam eventualmente vir a comprar a posição do Estado”.

Na audição de Jorge Tomé, o gestor já tinha dito que o administrador do Estado tinha travado uma tentativa para vender Banif há cerca de um ano. O ex-presidente do banco confirmou na sua audição que deu conhecimento às Finanças de uma proposta de um investidor estrangeiro da ordem dos 500 a 600 milhões de euros, mas que pedia uma due dilligence.

O Banif propôs então “avançar com processo estruturado para permitir essa avaliação, mas o administrador do Estado não achou “oportuno avançar fazer esse processo estruturado”, acrescentou Jorge Tomé sem identificar o tal representante. Terá defendido que o banco devia avançar primeiro com o plano de reestruturação exigido por Bruxelas, porque seria mais atrativo realizar a alienação depois de a instituição ficar limpa dos ativos de má qualidade. E essa proposta ficou sem efeito.

Segundo informação recolhida pelo Observador, esse administrador seria Miguel Barbosa que é presidente da Oitante, empresa que ficou com os ativos que não foram vendidos ao Santander. Este responsável é um dos nomes chamados à comissão parlamentar de inquérito. O Observador pediu esclarecimentos a Miguel Barbosa, que é hoje presidente da Oitante, mas o pedido de comentários foi recusado.

Na altura, diz a ex-ministra das Finanças, as autoridades estavam “empenhadas na conclusão do plano de reestruturação com a Direção Geral da Concorrência europeia”. “Tínhamos a noção de que seria impossível vender o banco com esse processo em curso“, disse Maria Luís Albuquerque. De qualquer forma, reforçou, se o fundo de Hong Kong estivesse interessado poderia ter participado no concurso público.

Segundo noticiou o Público esta manhã, um fundo de Hong Kong, o Ample Harvest Investment Capital, terá feito em maio de 2015 uma oferta pelo Banif que poderia ascender a 700 milhões de euros. O jornal dizia que esta oferta, não sendo vinculativa, era mais estruturada do que uma mera manifestação de interesse. Mas os representantes do Estado na administração terão considerado que a oferta não era oportuna e não permitiram que o Ample fizesse uma análise aprofundada das contas do banco (due dilligence).

Apesar de uma breve abordagem na primeira audição, a existência desta proposta tem merecido pouca atenção nos trabalhos da comissão de inquérito e não constaria da documentação enviada até ao início desta semana. Durante a sua audição. Maria Luís Albuquerque explica porque não abriu um processo de venda do banco: havia “várias manifestações de interesse” mas nenhuma era sólida o suficiente para dar a confiança de que se poderia concretizar em oferta. “A pior coisa que poderia acontecer ao Banif era abrir um processo de venda e ele ficar deserto, desvalorizava o banco e mostrava que ninguém estava interessado em comparar”.

O Público não especifica onde obteve a informação nem cita nenhum documento, notando que a oferta de Hong Kong não consta da documentação enviada pelo Banif à Comissão de Inquérito Parlamentar. Mas o jornal garante que os representantes do Estado no banco levantaram obstáculos a essa due dilligence pedida pelo Ample. Segundo a informação recolhida pelo jornal, a oferta pelos 60% do Estado no banco permitia manter toda a rede de balcões e a manutenção dos postos de trabalho.