Desporto

João Carvalho. De rafeiro só tinha a alcunha

"Foi um guerreiro e bateu-se como tal." João 'Rafeiro' Carvalho morreu depois de um combate em Dublin e, apesar do fim trágico, até os amigos dizem que "foi uma luta normalíssima".

João Carvalho praticava MMA há cerca de dez anos

Nóbrega Team/Facebook

Autor
  • João Pedro Pincha

É atrás de uma discreta porta numa rua pacata de Benfica, em Lisboa, que fica um dos ginásios onde treinam os atletas da Nóbrega Team. É um sítio luminoso, de paredes brancas, tapete de treino e pouco mais. Por estes dias, no local, tudo está calmo. Depois da morte de João ‘Rafeiro’ Carvalho na segunda-feira, em Dublin, na Irlanda, os amigos e companheiros do lutador de MMA têm preferido não falar com a comunicação social, com medo de serem mal interpretados. Ao contrário do que um leigo possa pensar, eles sublinham que João não morreu “espancado”, que era um atleta treinado e que o árbitro agiu corretamente ao não parar o combate mais cedo.

“Foi uma luta normalíssima, das melhores da noite”, diz ao Observador um amigo e também praticante de Artes Marciais Mistas (MMA, na sigla inglesa). As MMA são um desporto de combate que mistura diferentes técnicas de outras disciplinas, como o muay thai, o karaté, o boxe, o judo e o jiu jitsu brasileiro. Trata-se de “um desporto seguro”, no qual “há regras” e em que os atletas “são treinados” para a agressividade que envolve, continua o mesmo amigo, que optou por permanecer anónimo.

O que ele e outras pessoas deste meio sentem é um misto de precaução e frustração. Nas horas que se seguiram às notícias da morte de João, a internet encheu-se de comentários e palpites, muitos deles desagradáveis para os praticantes de MMA. “Desde bandidos a gladiadores, já li de tudo”, desabafa. Por isso mesmo, alguns lutadores recusaram entrevistas e declarações sobre a modalidade e sobre João, preferindo deixar testemunhos no Facebook.

O sentimento é compreendido por Luís Barneto, diretor executivo da Comissão Atlética Portuguesa de MMA (CAPMMA), mas ele diz que sente “alguma obrigação” em falar da modalidade para combater “a ignorância” que geralmente rodeia este tipo de desportos. “Do pouco que vi [este vídeo do minuto final do combate de João], não vejo nada de extraordinário que não tenha visto noutros combates”, diz Luís, acrescentando que esta “foi uma luta equilibrada”.

Minutos finais do combate em Dublin

Minuto final do combate em Dublin

Era a primeira vez que João Carvalho, 28 anos, praticante de MMA há cerca de dez, tinha um combate internacional. Nos meses que antecederam a luta, treinou todos os dias durante “a maior parte do dia”. Tanto que “passava mais tempo aqui do que em casa”, brinca o amigo. O adversário, Charlie Ward, foi estudado ao pormenor. No sábado passado, João e Charlie entraram na gaiola octogonal de combate e as coisas começaram por correr melhor ao irlandês. O primeiro round, de cinco minutos, foi para Ward, mas o português conseguiu ganhar o segundo. No terceiro, João ‘Rafeiro’ Carvalho acabou por perder por KO. De gatas no chão, levou pelo menos oito socos de Charlie Ward até o árbitro parar o combate. E parou no momento certo, acreditam os praticantes de MMA. “As regras podem ser difíceis de compreender, mas é mesmo assim”, afirma Luís Barneto.

Ele era português, foi lá para fora, estava a lutar com poucos apoios. É a única coisa que a gente quer que se lembre do João”, diz o amigo.

“Foi um guerreiro e bateu-se como tal”

As MMA começaram a ter uma expressão profissional em 1993, quando foi criada a Ultimate Fighting Championship (UFC) nos Estados Unidos. Mas só a partir de 2001, quando os irmãos Fertitta compraram a UFC, é que a modalidade começou a ganhar uma dimensão verdadeiramente mundial. Os eventos da UFC são hoje transmitidos pela televisão em mais de 145 países. Em Portugal também foram divulgados, durante um certo tempo, pela SIC Radical, que atualmente transmite os combates da Bellator, a segunda maior organização de MMA do mundo e aquela onde luta o português André Fialho, também formado na Nóbrega Team.

Entre quem o acompanhava de perto, parece consensual que, de rafeiro, João só tinha a alcunha de luta. Mesmo não o conhecendo “profundamente”, Luís Barneto recorda “um rapaz impecável, com uma alegria contagiante” e “um atleta corretíssimo”. O amigo que falou ao Observador diz que João “era brincalhão”, mas “muito dedicado nos treinos”, porque “era o sonho dele, queria fazer vida disto.”

Artur William, outro amigo que também optou por não falar, mas remeteu para um vídeo de homenagem que publicou no Facebook, confirma que “subir a grandes palcos era o objetivo do João e ele estava a conquistar isso.” Nesse vídeo, de mais de cinco minutos, o colega afirma que João “fez uma luta muito boa”, até porque “estava mais que preparado” para o combate. “Foi uma luta de três assaltos, cada assalto são 5 minutos e eu quero ver alguém que não esteja preparado lutar 15 minutos. O João lutou muito bem, perdeu o primeiro, ganhou o segundo e o terceiro estava ela por ela. Infelizmente aconteceu o que aconteceu. O árbitro esteve excelente, na minha opinião”, continua Artur William, lembrando que “enquanto o lutador estiver a responder, o árbitro não vai parar a luta e toda a gente que faz competição sabe que é assim que funciona. Nem o atleta quer que o árbitro pare a luta se está a responder.”

Foi um guerreiro, bateu-se como tal. Sei que era isto que ele queria para a vida. Por isso é que ele treinava, por isso é que ele abdicava de outras coisas”, afirma Artur. “O João nunca iria entregar-se fácil, ele lutava até ao final. Todo o lutador duro é assim, leva-se ao limite.”

Outro amigo de João que publicou um testemunho no Facebook foi Fábio Teixeira, lutador e árbitro de MMA. “O árbitro interveio na altura certa”, diz logo no início do vídeo, para depois salientar a grande prestação de ‘Rafeiro’ durante o combate. “Ele tinha aqui um amigo, tinha um professor e um colega de equipa. E, no fim daquele combate, ganhou um fã.”

Isto é um desporto duro mas não tem uma mentalidade violenta”, afirma Fábio Teixeira, que no fim do vídeo ergue uma bandeira portuguesa – aquilo que João estava a defender em Dublin.

Quando lutar no ginásio é fugir a outras lutas

Desde o primeiro evento da UFC em 1993 até à terça-feira passada morreram 14 atletas. Desde 2001, altura em que foram criadas regras específicas para que as MMA se tornassem uma modalidade oficial e regulada, morreram cinco. Mas muitos mais foram os que se salvaram, sustenta Luís Barneto. Ele é treinador deste tipo de combate no Barreiro e acredita que já contribuiu para melhorar a vida de algumas pessoas. Em bairros problemáticos, diz, é mais fácil os adolescentes interessarem-se por desportos de luta. “Os miúdos naturalmente entram nesta modalidade com o objetivo de sobreviver na microssociedade” de um bairro, mas “o processo de treino retira a violência de dentro das pessoas”.

“As artes marciais podem não fazer uma pessoa melhor do que ela é, mas pior não fazem de certeza”, afirma o responsável da CAPMMA, salientando que este “é um desporto incrivelmente complexo” e que requer “uma capacidade física enorme”. Os praticantes de MMA, sobretudo os profissionais, estão sujeitos a exigentes padrões de alimentação e de forma física. “As pessoas não têm noção do esforço. Os atletas têm de perder peso, têm de recuperar…”, diz o amigo de João Carvalho. E Luís Barneto acrescenta: “Precisamente por ser exigente é que é um construtor de caráter.”

Ali estão duas pessoas, só com os calções e as suas capacidades. Acaba por ser uma coisa muito poética”, conclui Luís Barneto.

Outro ginásio onde os atletas da Nóbrega Team costumam treinar fica na Quinta do Loureiro, junto à Avenida de Ceuta, também em Lisboa. Ao entrar, saltam imediatamente à vista umas folhas com aquilo que parecem ser máximas para os atletas. “Orgulho, honestidade, princípios”; “Ser um campeão significa pensar como um campeão”; “Algum suor poupa bastante sangue” e “Missão, realização pessoal, valores, felicidade” são algumas das mensagens. Também por aqui não foi possível obter um depoimento sobre este assunto. Paulo Seco, responsável pelo espaço e boxeur, ainda ponderou falar com o Observador, mas depois de uma chamada telefónica acabou por recusar. Teve, como outros, receio de que as suas palavras pudessem ser mal interpretadas.

Em Portugal, as MMA estão em crescimento. Apesar de o número de profissionais ainda não ser muito expressivo, há muitos amadores interessados na modalidade. “Temos estado na crista da onda” deste movimento na Europa, diz Luís Barneto. As academias de treino de MMA estão espalhadas já um pouco por todo o país. Na Grande Lisboa há várias e a de Vítor Nóbrega é das mais famosas. O treinador brasileiro é uma das autoridades de MMA em Portugal e um dos responsáveis pela organização do International Pro Combat (IPC), o maior evento nacional deste desporto, que se realiza no Casino Estoril. Ainda em novembro, na mesma noite em que João Carvalho conseguiu a segunda vitória da carreira, Nóbrega protagonizou o main event do IPC.

Agora, Nóbrega está em Dublin com familiares de João à espera que as autoridades libertem o corpo do lutador. Já prometeu, no Facebook, que quando chegar a Lisboa dará mais explicações. Entretanto, na Irlanda, há duas investigações oficiais a decorrer e o ministro do desporto até afirma querer regular melhor a modalidade. Para João ‘Rafeiro’ Carvalho, de 28 anos, pai de duas crianças de sete e doze anos, já não fará diferença.

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