Esquecemo-nos do que íamos dizer quando somos surpreendidos por algo e o esquecimento deve-se ao mecanismo de travagem do cérebro, para que nos concentremos em algo mais importante. A interrupção do fluxo do pensamento é uma forma do cérebro lidar com a surpresa, diz um estudo publicado na revista Nature Communications.

Um grupo de cientistas da Universidade da Califórnia, San Diego, nos EUA, usou elétrodos para monitorar as alterações no cérebro o que lhes permitiu identificar o que é que acontece no momento em que nos assustamos e perdemos a noção do pensamento. O estudo recorreu a 20 voluntários que colocaram um “capacete” de elétrodos e realizaram uma tarefa de memória baseada num programa de computador.

Os voluntários tinham que memorizar várias sequências de consoantes, separadas por um sinal sonoro. À medida que eram interrompidos por sons diferentes entre as sequências, foram cometendo mais erros de identificação das sequências.

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Os cientistas foram capazes de determinar uma ligação entre o abandono súbito do nosso fluxo de pensamento e um sintoma típico da doença de Parkinson. O esquecimento acontece quando somos interrompidos ou quando nos assustamos com um barulho qualquer, por exemplo.

“Um acontecimento inesperado parece fazer-nos esquecer aquilo em que estávamos a pensar”, disse Adam Aron, neurocientista da Universidade da Califórnia que conduziu a pesquisa à NBC News.

As experiências realizadas parecem indicar que o cérebro desenvolve um mecanismo de “travagem” que interrompe o fluxo do pensamento, um mecanismo baseado no envio de sinais elétricos similares aos enviados pelo cérebro quando o corpo tem de parar um movimento físico, segundo explicou o neurocientista.

O estudo centra-se em particular sobre o núcleo subtalâmico (STN), um pequeno grupo de neurónios localizados no mesencéfalo, onde é acionado o sistema de travagem do cérebro. O mesencéfalo faz parte do tronco cerebral e é uma estrutura do sistema nervoso central, mais especificamente dos núcleos da base ou núcleos de Giornando, responsáveis pela realização de movimentos com precisão.

O núcleo subtalâmico do cérebro também está envolvido em alguns sintomas específicos da doença de Parkinson, tais como a incapacidade de mudar de foco com facilidade ou a incapacidade de iniciar um movimento.

“A ideia radicalmente nova por detrás do estudo é que o mecanismo de travagem acionado pelo cérebro quando temos que parar fisicamente o nosso corpo, é o mesmo que é ativado para nos fazer interromper o fluxo de pensamentos,” disse Adam Aron.

O mecanismo neural que é ativado quando estamos a sair do elevador e nos cruzamos com alguém e temos que parar para evitar o choque, por exemplo, é o mesmo que nos faz parar a nossa linha de pensamento.

“Um evento inesperado parece interromper aquilo em que estávamos a pensar”, disse o neurocientista. Os investigadores acreditam que este mecanismo poderia ser uma função adaptativa do cérebro.

Interromper o fluxo do pensamento para se concentrar em algo novo, poderá ter sido uma forma evolutiva de resposta às ameaças do meio envolvente, escreve o ABC. Ou seja, o cérebro trava os pensamentos que nos podem “distrair” para que nos concentremos nas ameaças à nossa segurança, como o som de um animal selvagem, por exemplo.