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"Bela, recatada e do lar." Quando o impeachment virou debate sobre o machismo

Começou com um perfil de Marcela Temer, mulher do vice-presidente do Brasil, que a revista Veja classifica de "bela, recatada e do lar". E assim, num dia, o impeachment virou discussão sobre machismo.

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O artigo da revista Veja qualifica a vice-primeira-dama do Brasil (à direita) de "bela, recatada e do lar"

AFP/Getty Images

O artigo da revista Veja qualifica a vice-primeira-dama do Brasil (à direita) de "bela, recatada e do lar"

AFP/Getty Images

Marcela Temer é uma mulher de sorte. Michel Temer, seu marido há treze anos, continua a lhe dar provas de que a paixão não arrefeceu com o tempo nem com a convulsão política que vive o país – e em cujo epicentro ele mesmo se encontra. Há cerca de oito meses, por exemplo, o vice-presidente, de 75 anos, levou Marcela, de 32, para jantar na sala especial do sofisticado, caro e badalado restaurante Antiquarius, em São Paulo. (…) Marcela se casou com Temer quando tinha 20 anos. O vice, então com 62, estava no quinto mandato como deputado federal e foi seu primeiro namorado.”

É desta maneira que a revista Veja começa o perfil de Marcela Temer, esposa do vice-presidente do Brasil, Michel Temer, cujo título é: “Marcela Temer: bela, recatada e do lar”. Com a abertura do processo de destituição de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados do Brasil, e a iminente aprovação do afastamento temporário da presidente no Senado do país, os olhos da imprensa brasileira voltam-se para a mulher daquele que pode vir a ocupar o lugar de Dilma. Na Veja é tratada como “quase primeira-dama”.

No texto publicado na última segunda-feira, a revista descreve Marcela como “uma vice-primeira-dama do lar”, cujos dias “consistem em levar e trazer Michelzinho [filho do casal, de sete anos] da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele)”.

Segundo a Veja, Marcela é “bacharel em direito sem nunca ter exercido a profissão”, e “comporta em seu curriculum vitae um curto período de trabalho como rececionista e dois concursos de miss no interior de São Paulo”. Ficou em segundo lugar nos dois.

A publicação, que assumiu publicamente estar do lado dos defensores do impeachment, relata ainda que Marcela é “educadíssima”, citando o cabeleireiro responsável pela sua imagem que afirmou que “em todos esses anos de atuação política do marido, ela apareceu em público pouquíssimas vezes”. E compara mesmo Marcela com Grace Kelly. Diz que só lhe falta apanhar o cabelo.

“Marcela sempre chamou atenção pela beleza, mas sempre foi recatada”, disse à revista Fernanda Tedeschi, irmã da vice-primeira-dama. A publicação conclui a descrição da imagem de Marcela com uma citação da sua estilista, Martha Medeiros: “Ela gosta de vestidos até os joelhos e cores claras”.

E em que medida a vice-primeira-dama ajuda Michel Temer? “Marcela é o braço digital do vice. Está constantemente de olho nas redes sociais e mantém o marido informado sobre a temperatura ambiente. Um fica longe do outro a maior parte da semana, uma vez que Temer mora de segunda a quinta-feira no Palácio do Jaburu, em Brasília, e Marcela permanece em São Paulo, quase sempre na companhia da mãe”, diz a revista.

A mãe, que a Veja classifica de “sacudida, loiríssima e de olhos azuis”, acompanhou a filha, na altura adolescente, ao primeiro encontro com Michel Temer. Marcela tinha menos de 20 anos, Michel tinha mais de 60.

“O machismo não tem mais passe livre”

O perfil de Marcela ganhou rapidamente as redes sociais no Brasil e acendeu o debate sobre o machismo na política brasileira. Críticos do texto da revista Veja consideram que o perfil apresenta um padrão de imagem e comportamento das mulheres, no contexto da vida política, feito para agradar a sociedade, o cônjuge e os meios de comunicação social, sobretudo em oposição à figura da presidente Dilma Rousseff.

O texto provocou uma reação voluntária e bem-humorada na Internet. Mulheres passaram a postar fotos nas redes sociais a ironizar o título “Bela, recatada e do lar” com imagens a expressar comportamentos diferentes dos adjetivos utilizados pela publicação para descrever Marcela.

O movimento tornou-se viral e ganhou uma hashtag, #‎belarecatadaedolar, que rapidamente liderou os trending topics no Twitter, no Brasil, nos últimos dois dias. A popularidade da iniciativa chegou ao Tumblr, onde foi criada uma conta para reunir todos os memes. “Tudo bem ser bela, recatada e do lar. Tudo bem ser o completo oposto disso. Porque ao contrário do que a Veja gostaria de impor, as mulheres vão ser o que elas bem entenderem!”, afirma o texto de apresentação da conta.

#belarecaradaedolar

Una foto publicada por Melissa Baraúna (@melbarauna) el

Bela, recatada e do lar ???????? #belarecaradaedolar #belarecatadaedaondeeuquiser #muaythai #sabbagbootcamp

Una foto publicada por E v e (@eves.andrad) el

#belarecaradaedolar #sqn #belarecatadaedaondeeuquiser

Una foto publicada por Maria Fernanda Mattos (@mariafernanda.mattos) el

O texto da revista Veja também foi notícia noutros meios de comunicação social brasileiros que fizeram eco do que estava a fazer ferver os utilizadores das redes sociais. Num artigo de opinião publicado no jornal Folha de S. Paulo, o colunista Tony Goes diz que a “reação a ‘bela, recatada e do lar’ mostra que machismo não tem mais passe livre”. “‘Recatada’ tem uma conotação diferente de ‘discreta’: lembra ‘comportada’, como se isto fosse uma condição desejável não só para a mulher de um político, como para todas as mulheres em geral”, aponta.

Ruth Manus, advogada e colunista do jornal Estadão, concorda com o posicionamento. “‘Bela, recatada e do lar’ não é só uma reunião de características um tanto quanto antiquadas. É uma ideologia. É a mulher da qual o Temer gosta. E da qual o machismo gosta. Não se enganem amigas, o que estamos assistindo no Brasil não é apenas uma disputa pelo poder. O que nós estamos vendo é, além de tudo, uma tentativa de mudança ideológica em muitos campos.”

A investigadora em Filosofia Política, Djamila Ribeiro, vai mais além. Num artigo de opinião publicado na revista Carta Capital, Ribeiro afirma que o perfil de Marcela Temer “é tão 1792” e enaltece a mulher “discreta”, que “todas deveriam ser, à sombra, nunca à frente”. “Fica evidente a tentativa da revista [Veja] de fazer uma oposição ao que Dilma representa. Uma mulher aguerrida, forte, fora do padrão imposto do que se entende que uma mulher deve se comportar. Mais, é como se dissessem: mulher boa é a esposa, a primeira-dama, a ‘que está por trás de um grande homem'”, escreve.

No Facebook, já foram convocadas, até ao momento, manifestações no Rio de Janeiro e em Petrópolis contra o machismo, na sequência do artigo da Veja.

O tratamento ao impeachment é sexista?

http://twitter.com/Uma_Brasileira/status/551151371274448896

A questão sobre o “bela, recatada e do lar” acendeu o debate sobre o caráter sexista do tratamento dado à destituição de Dilma Rousseff pelos parlamentares. De facto, durante uma conferência de imprensa aberta a meios de comunicação social estrangeiros, na última terça-feira, Dilma foi questionada por uma jornalista canadiana sobre se o facto de ela ser a primeira mulher presidente do Brasil teve influência nas tentativas de desestabilização do seu governo. A presidente respondeu que acredita que a “questão de género é um forte componente nesse processo” e que “certas atitudes não aconteceriam caso o presidente da República fosse um homem”.

Houve, inclusive, recentemente um lamentável episódio de um texto de um órgão de imprensa que mostra uma misoginia. Falam o seguinte, mulher sob tensão tem que ficar histérica, nervosa e desequilibrada. E não se conformam que eu não fique, nem nervosa, nem histérica, nem desequilibrada. (…) Lamento profundamente o grau de preconceito contra a mulher, de que mulher tem que ser frágil. Ora as mulheres brasileiras não têm nada de frágeis, elas criam filhos e lutam”, afirmou Dilma Rousseff.

Coincidência ou não, um grupo de 500 mulheres realizou esta quarta-feira, no Palácio do Planalto, o “Abraçaço da Democracia – Mulheres com Dilma”, evento organizado através das redes sociais em que as manifestantes mostraram o seu apoio ao mandato da presidente.

Nós trouxemos um manifesto de apoio a ela, combatendo todo esse machismo, a misoginia que tem acontecido. A gente veio trazer para ela essa certeza de que ela não está sozinha, de que nós votamos e nós continuaremos apoiando e ela vai ter sempre nós, mulheres, guerreiras, ao lado dela, porque ela representa muito para a gente e ela lutou muito por todos nós. Então chegou o nosso momento de também lutar por ela”, disse Leila Moraes, uma das representantes do movimento, em entrevista ao blog do Palácio do Planalto.

Durante a manifestação, Dilma desceu a rampa do Palácio do Planalto para cumprimentar as manifestantes, acompanhada de Eleonora Menicucci, secretária executiva de políticas para as mulheres, e Miriam Belchior, presidente da Caixa Econômica Federal. A presidente agradeceu a iniciativa e considerou o “abraçaço” uma “transmissão de força e energia das mulheres deste país”, afirmou à assessoria de imprensa do governo.

O debate do machismo e da representação de género também chega ao Congresso brasileiro. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, nas eleições gerais de 2014, as mulheres representavam 52,13% do total de 142.822.046 eleitores. O número, no entanto, não se traduziu na Casa Legislativa, que contou com apenas 43 mulheres eleitas em 513 deputados. Na votação do impeachment, o número subiu para 51 deputadas, resultado da posse de suplentes ao mandato de deputados. O resultado foi de 29 votos a favor da abertura do processo de impugnação do mandato da presidente, 20 contra, uma abstenção e uma ausência. Embora o resultado confirme a vitória do “sim” ao processo, a proporção não se equipara com os 367-137 do resultado geral.

Entre as diversas justificações e “pérolas” dadas pelos deputados antes de anunciarem o voto, coube ao deputado Jean Wyllys, filiado no partido de esquerda PSOL, fazer a única referência ao assunto, quando afirmou que a votação era uma “farsa sexista”. No Senado brasileiro, próxima etapa que vai julgar o pedido de destituição de Dilma Rousseff, há, atualmente, 13 senadoras em 81. É de destacar que existe no país a “Lei das Eleições”, que estabelece que, a cada votação, deve ser observado o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidatos do mesmo género sexual do total dos registados por um partido ou coligação.

O tratamento sexista ao impeachment também chega os meios de comunicação social. A revista IstoÉ publicou, a 1 de abril, uma reportagem que afirmava que “a iminência do afastamento fez com que Dilma perdesse o equilíbrio e as condições emocionais para conduzir o país”. A publicação diz ainda que “para tentar aplacar as crises, cada vez mais recorrentes, a presidente tem sido medicada com dois remédios ministrados a ela desde a eclosão do seu processo de afastamento: rivotril e olanzapina, este último usado para esquizofrenia, mas com efeito calmante. A medicação nem sempre apresenta eficácia, como é possível notar”.

No caso do título do perfil de Marcela Temer, publicado pela revista Veja, é possível observar que apenas o adjetivo “recatada” provém de uma citação. Foi a jornalista Juliana Linhares quem definiu a vice-primeira-dama de “bela” e “do lar”. Nenhuma das citações utilizadas na peça é da própria Marcela – motivo pelo qual as críticas se centram na publicação e não em Marcela.

A revista Veja não se pronunciou sobre o assunto, mas publicou no seu site um artigo a reproduzir os memes “bela, recatada e do lar”. “Há quem considere que a reportagem endossa o modo de vida de Marcela Temer, e é machista. Outros a leram com ironia. E outros ainda aproveitaram o título para fazer humor. A interpretação é livre”, diz a publicação.

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