Não podia faltar nestes destaques do Indie 2016 um filme de Paul Verhoeven, o Herói Independente do festival este ano. E a minha escolha é “Amor e Sangue” (Cinemateca, 19.00), de 1985, um dos melhores filmes do realizador holandês, e que serve de charneira entre o abandono do seu país, onde Verhoeven tinha cada vez mais dificuldade em conseguir dinheiro para rodar, e a ida para Hollywood. Filmado em Espanha, “Amor e Sangue” foi feito com um orçamento quase todo vindo dos EUA, complementado com participações holandesas e espanholas, e aproveitando material de uma série de televisão passada na Idade Média, “Floris” (1969), realizada por Paul Verhoeven e com Rutger Hauer no papel principal, amobos em início de carreira. (Realizador e actor zangaram-se durante as filmagens de “Amor e Sangue”, e nunca mais voltaram a trabalhar juntos).

Mesmo tendo em conta que a Orion Pictures, principal entidade produtora de “Amor e Sangue”, forçou Verhoeven e o seu co-argumentista Gerard Soeteman, a fazer alterações no guião, para que houvesse um interesse romântico na história, com a subsequente introdução da personagem de Jennifer Jason Leigh, o filme funciona esplendidamente, em especial pelo realismo brutal, feio e sujo com que Verhoeven recria uma Idade Média já tardia. A acção passa-se em Itália, no início do século XVI. Tom Burlinson interpreta um jovem nobre que persegue o mercenário (Rutger Hauer) que raptou a sua noiva (Leigh), após ter sido traído pelo pai daquele.

Ao som da banda sonora marcial de Basil Poledouris, Verhoeven filma uma Itália por onde vagueiam bandos de mercenários que os senhores das várias cidades contratam para combater e dão licença para pilhar e matar, e caracteristicamente, o realizador não recua perante nada em nome do verismo de época e das mentalidades. Numa sequência que deu que falar na altura, o líder dos mercenários, após impedir que os seus homens espanquem e violentem a personagem de Leigh, pega nela e viola-a; e noutra, bocados de um cão que morreu com peste são catapultados para dentro de um castelo que está sitiado. E a noção que Verhoeven tem de uma cena romântica consiste em mostrar os apaixonados Burlinson e Leigh a partihar uma raiz de mandrágora, sob uma árvore de onde pende um enforcado em decomposição. Ultra-violência, sangue, ganância, maus instintos e escassíssima consideração pelo semelhante. É um filme de Paul Verhoeven, sim senhor.