Com quatro horas e 40 minutos de duração, o filme chinês “The Family”, de Shumin Liu (Competição Internacional, Museu do Oriente, 15.00) é a grande prova de resistência cinéfila do IndieLisboa 2016. É é também um forte candidato a vencedor do festival. O realizador, radicado na Austrália, demorou cinco anos a rodar a fita e optou por usar um elenco composto quase todo por não-profissionais nesta sua estreia nas longas-metragens, que já foi comparada, por causa do tema, ao clássico “Viagem a Tóquio”, do japonês Yasujiro Ozu. Embora “The Family” tenha pernas para andar sozinho e não precise de comparações destas para se afirmar ao espetador.

O filme conta a história de um casal idoso de reformados, Liu e Deng, que viva numa cidade do interior da China. A filha mais velha, uma professora divorciada e com um filho adolescente, mora com eles, mas a filha do meio e o filho mais novo vivem longe com as respetivas famílias e não vêm ver os pais e a irmã há bastante tempo. Por isso, o casal decide ir visitá-los, rumando primeiro à cidade costeira onde a segunda filha habita, e a seguir a Xangai, para descobrirem que as relações do filho com a mulher estão a passar por uma má fase.

Num irrepreensível e sereno registo realista, atento aos menores detalhes e a todas as conversas, e dando tempo ao tempo às personagens, Shumin Liu conta uma história clássica, e com valor universal, de pais e filhos, tirando em simultâneo o pulso às relações intergeracionais na China de hoje. E documenta a existência quotidiana dos cidadãos comuns num país que tem passado por profundas alterações e rápidas mudanças económicas, políticas, sociais e culturais nos últimos anos, das quais a família, unidade central e estruturante da sociedade chinesa, se tem ressentido. “The Family” pede-nos paciência e atenção, mas a retribuição é plenamente compensadora.