Mais de 42 milhões de pessoas enfrentam risco de fome nas regiões leste e sul de África devido à grave seca em consequência do fenómeno meteorológico El Niño e a crise alimentar deverá durar até 2017.

A falta de chuva é sentida desde 2014 e têm-se perdido várias colheitas, as reservas alimentares vão-se esgotando e o preço dos alimentos aumenta agravando a situação.

Segundo a Rede de Sistemas de Alerta Precoce contra a Fome, criada pela agência de desenvolvimento internacional norte-americana USAID, as chuvas abaixo da média deverão continuar na região e a crise alimentar poderá prolongar-se até ao próximo ano.

No leste de África, o país mais afetado é a Etiópia, que enfrenta “a pior seca em 50 anos”, disse à agência Lusa Challiss McDonough, porta-voz do Programa Alimentar Mundial (PAM) para a África Oriental.

“Já existia uma seca antes do El Niño e ele agravou a situação. Morreu muito gado, perderam-se várias colheitas, por isso existem atualmente na Etiópia mais de 10 milhões de pessoas a precisarem de ajuda de emergência ao nível da alimentação para sobreviverem. As taxas de desnutrição aumentaram nitidamente no último trimestre (…) A situação é extremamente séria”, referiu Challiss McDonough num contacto telefónico a partir de Lisboa.

Segundo a porta-voz do PAM, o governo da Somália “tem sido muito pró-ativo e tem liderado e organizado a resposta” à crise, mas “precisa de ajuda da comunidade internacional para dar resposta às necessidades básicas das pessoas e infelizmente a ajuda da comunidade internacional tem sido insuficiente”.

O PAM está a trabalhar com o governo da Somália para apoiar 7,6 milhões de pessoas, dos 10 milhões que precisam de ajuda alimentar, sendo os restantes ajudados por um grupo de várias organizações não-governamentais, adiantou.

Challiss McDonough disse ser “também preocupante” a situação devido à seca no norte da Somália (áreas de Puntlândia e Somalilândia), que considerou “semelhante à da Etiópia”.

O número de pessoas afetadas é menor, porque a região não tem muita população, “mas o nível de necessidade é elevado”, disse. Cerca de 1,7 milhões de pessoas naquelas zonas precisam de algum tipo de assistência humanitária, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

A seca teve ainda “impacto significativo” no Sudão do Sul, cuja guerra civil agravou a situação, disse ainda Challiss McDonough.

No caso da África Austral, o último relatório do PAM, divulgado a 26 de abril, estima em 32 milhões o número de pessoas em risco de fome, “largamente devido à seca que teve como consequência colheitas fracas no ano passado”.

O estado de emergência foi declarado no Lesoto, Malaui, Suazilândia e Zimbabué, assim como em sete das nove províncias da África do Sul, enquanto Moçambique declarou um Alerta Vermelho, o nível mais alto de preparação de emergência nacional, nas províncias centrais e do sul. Além disto, o PAM, a maior agência humanitária do mundo, indicou que tem apenas 13% do orçamento necessário para dar resposta às necessidades na região da África Austral entre abril deste ano e março de 2017 e que precisa de mais 677 milhões de dólares (594,7 milhões de euros).

No Lesoto, um dos países mais afetados na região, 80% dos agricultores não esperam ter colheitas em maio/junho e mais de 500.000 pessoas correm risco de fome, segundo o PAM, que indica que a situação deverá piorar na segunda metade do ano até 2017.

Em relação ao Malaui, a agência da ONU revelou que o número dos que recorreram aos estabelecimentos de saúde devido a “desnutrição aguda moderada” quadruplicou desde janeiro. O PAM presta assistência a 2,4 milhões de pessoas em 24 dos 28 distritos do país.

Na Suazilândia, são 320.000 as pessoas que precisam de assistência alimentar urgente, enquanto no Zimbabué 2,8 milhões de pessoas — mais de um quarto da população rural — corre risco de fome e “o número deve aumentar exponencialmente nos próximos 12 meses”.

Em Moçambique, foram contabilizadas 1,5 milhões de pessoas com insegurança alimentar aguda e a precisarem de ajuda humanitária nas províncias centrais (Zambézia, Manica, Sofala e Tete) e do sul (Gaza, Inhambane e Maputo).

O relatório do PAM indica ainda que são poucos os lares com reservas de cereais e que o preço dos alimentos de primeira necessidade nos mercados aumentou quase 100% em relação ao mesmo período do ano passado.

No caso da África do Sul, trata-se da pior seca em 30 anos e milhões podem ser afetados. Segundo o ‘site’ News24, a deputada da Aliança Democrática (o maior partido da oposição) Annette Steyn considerou que o pleno efeito da seca poderá ser visto no final de julho, princípio de agosto.

“Quase um milhão de crianças precisam de tratamento devido a desnutrição aguda grave na África Oriental e Austral. Dois anos de chuva irregular e a seca combinaram-se com um dos mais fortes casos do El Niño em 50 anos para destruir as vidas das crianças mais vulneráveis”, alertou em fevereiro a diretora regional para a África Oriental e Austral do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Leila Gharagozloo-Pakkala considerou que “esta é uma situação sem precedentes” e que o custo para as crianças “será sentido por muitos anos”.