O jornalista e ativista angolano Rafael Marques disse hoje à Lusa, em Lisboa, que pretende apelar e “dar seguimento” ao trabalho dos 17 prisioneiros de consciência durante os trabalhos do ‘Oslo Freedom Forum’, que começam sábado na Noruega.

“Não farei apenas um apelo, mas darei continuidade e farei um exercício sobre métodos de não-violência. Falarei obviamente do trabalho que os 17 estavam a fazer e como esse trabalho deve ter seguimento em Angola, educando as pessoas”, disse à Lusa o autor do livro “Diamantes de Sangue”, referindo-se aos prisioneiros de consciência detidos em junho de 2015 e que atualmente cumprem penas de prisão efetiva em Luanda, incluindo o luso-angolano Luaty Beirão.

O Oslo Freedom Forum, que se realiza oficialmente entre 23 e 25 de maio, inicia sessões paralelas a partir de sábado, reunindo ativistas de direitos humanos de 81 países, na capital norueguesa.

Estão previstas comunicações de Julian Assange, fundador da rede WikiLeaks, Aung San Suu Kyi da Birmânia, ex-prisioneira política e prémio Nobel da Paz, assim como do artista Ai Weiwei, dissidente chinês e a ativista russa Nadezhda Tolokonnikova, que esteve presa por participar nas atuações na banda punk de Moscovo “Pussy Riot”, entre outros.

Rafael Marques disse à Lusa que vai expor a situação em Angola e que pretende, durante os trabalhos do fórum, frisar “que é preciso apoiar” e dar continuidade ao trabalho dos ativistas condenados a penas de prisão, em Luanda.

“É muito importante que o trabalho dos 17 [ativistas] tenha continuidade em Angola: é digno e é honroso que jovens como estes tenham atenção pelo futuro de Angola. Que queiram mudanças e que queiram que essas mudanças ocorram de forma pacífica e de forma inteligente. Isso deve ser encorajado”, sublinhou Rafael Marques.

O jornalista vai participar também em debates acerca de protestos e sobre a relação entre ativistas angolanos e dissidentes cubanos, porque, afirma, há uma história comum de luta e de sofrimento, já que “muitos cubanos perderam a vida em Angola” durante a guerra civil (1975-2002).

Rafael Marques afirma que, “para lá das relações políticas entre os dois Estados”, há também uma “boa recordação” dos cubanos, apesar do clima de guerra e do envolvimento político de Havana na “repressão” em Angola.

“Estou a falar dos soldados, dos professores, dos médicos que fizeram muita coisa e com bastante generosidade. Muitos desses cubanos que saíram de Angola tornaram-se, também, dissidentes e hoje também sofrem em Cuba”, afirmou Rafael Marques.

O ativista disse ainda à Lusa à Lusa que está a reunir informações para alertar “instituições internacionais” sobre a falta “generalizada” de cuidados médicos em Angola.

“No Hospital do Prenda (Luanda), em março, numa semana morreram 76 crianças. Nas províncias já nem se conta, porque há hospitais que já não têm uma seringa. Os pacientes até para fazerem análises de sangue são obrigados a levarem seringas. Nas zonas rurais onde é que os pacientes encontram seringas, se o próprio Estado não as tem, e quando se enviam medicamentos são os próprios funcionários que os vendem na candonga?” acusa o jornalista angolano.

“Esta é uma situação quotidiana. A corrupção está fora de controlo e hoje somos governados pela corrupção e é preciso estancar isto, porque está em jogo a vida de milhares de angolanos que estão a morrer, sem necessidade”, afirmou.

Rafael Marques referiu que “existe um surto” de febre-amarela e de malária que está a “ceifar dezenas de vidas diariamente no país”, acrescentando que a situação real está a ser “abafada” pelas autoridades oficiais angolanas.

Segundo o ativista, as várias delegações internacionais que estiveram em Angola repetem as estatísticas do Governo, “que indica que, até agora, morreram perto de duzentas pessoas”, vítimas da febre-amarela, um número que diz não corresponder à realidade.

Rafael Marques explicou à Lusa que está a “preparar um dossier” sobre o estado da saúde e as condições hospitalares em Angola – com a colaboração de uma rede de contactos nas províncias – para alertar as instituições internacionais, já que os atropelos aos direitos humanos não acontecem unicamente quando o Governo “viola fisicamente” os direitos dos cidadãos através da repressão.