A mensagem repete-se nos textos de promoção que chegaram à imprensa: o projeto pretende “cruzar a produção de energia eólica com a energia criativa das artes”. Além disso, o WindArt servirá para promover a região que o acolhe.

Foi com este espírito que decorreu esta segunda-feira ao início da noite, no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, a apresentação pública da intervenção de dois artistas plásticos em duas torres eólicas da Serra de Leomil, em Moimenta da Beira, distrito de Viseu.

Presentes estiveram o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, e o ex-titular da pasta, António Pires de Lima.

Em rigor, a apresentação era sobre o Parque Eólico do Douro Sul, pronto a funcionar em pleno desde há poucos dias. As obras de arte serviram apenas de dispositivo de promoção.

Joana Vasconcelos e Vhils (nome com que Alexandre Farto assina a sua obra) são os artistas em causa, convidados a projetar e desenhar o revestimento de duas torres.

As obras têm cerca de 100 metros de altura e em ambos os casos exibem formas e símbolos inspirados no ambiente natural que as rodeia. Funcionam como uma segunda pele dos aerogeradores, tornando-os notados entre o conjunto de 73 máquinas idênticas que desde 15 de maio dominam parte da paisagem da Serra de Leomil.

Durante a apresentação, a crítica e historiadora de arte Luísa Soares de Oliveira afirmou que se trata das “obras de arte mais altas alguma vez feitas em Portugal e provavelmente sem corresponde internacional”.

A investigadora explicou que a relação entre indústria e arte vem do movimento Bauhaus, do início do século XX, enquanto o diálogo arte e paisagem teve o ponto máximo na década de 60, com o movimento Land Art.

“Joana Vasconcelos sempre se interessou por levar os motivos da arte popular portuguesa para dentro do museu”, descreveu Luísa Soares de Oliveira. “Vhils, que tem formação em pintura, pegou nessa formação e levou-a para a rua. Agora, ambos saíram da cidade para a paisagem natural.”

Alexandre Farto, de 28 anos, tornou-se conhecido como autor de murais e outras obras de arte pública, geralmente em edifícios degradados, em cujas fachadas cria imagens picotadas. Não esteve no Padrão dos Descobrimentos, mas, horas antes, tinha explicado ao Observador que esta obra, sem título, demorou vários meses a ser concebida, tendo por base uma técnica de revestimento em vinil impresso, aplicado ao aerogerador.

“Uma espécie de farol com um olho humano que emerge de um fundo de padrões com base em texturas arbóreas”, para assim “humanizar e iluminar a paisagem à sua volta”, descreve Vhils.

Joana Vasconcelos, de 44 anos, a artista pop e kitsch consagrada em 2012 com a exposição no Palácio de Versalhes e, em Portugal no ano seguinte, no Palácio da Ajuda, chamou à obra “Gone With the Wind”.

“Tem um coração ao centro, que decidi virar para Moimenta da Beira, para demonstrar que há esperança no amor, esperança no país”, descreve a artista. “Tem também estrelas, porque ali é fácil observar o céu, é um sítio excelente para ver as estrelas.”

A técnica foi a mesma utilizada por Vhils — formas desenhadas, impressas em vinil e depois aplicadas. Um processo muito trabalhoso e difícil em termos de logística que a leva a não ter interesse na repetição: “Peças de grande escala são a minha especialidade, como se sabe, mas por mais museus e exposições que haja nunca mais farei um trabalho nesta escala”.

As torres integram o Parque Eólico do Douro Sul, explorado pelo consórcio Âncora Wind Energia Eólica, detido pela Ferrostaal e Ventiveste (Galp e Martifer). A área abrange os municípios de Moimenta da Beira, Sernancelhe, Castro Daire e Viseu.

Vão produzir 500 gigawatts de energia por ano, o que corresponde a 1% do total de consumo em Portugal, equivalente a 170 mil lares, de acordo com José Saldanha Bento, presidente do conselho de administração do consórcio.

O parque custou 227 milhões de euros, disse aquele responsável, contornando com o entusiasmo as críticas segundo as quais o projeto iria “afetar a sobrevivência” do lobo ibérico, como têm afirmado associações ambientalistas desde há vários anos.

Como que em resposta às críticas, o ministro da Economia, esse sim, tinha uma frase preparada: “Mais do que incomodados, os lobos sentem-se desafiados por estas obras”.