Os auditores que estão a trabalhar na reestruturação da Sonangol terão detetado perdas (imparidades) ou diferenças de valores por contabilizar nas contas da empresa da ordem dos 50 mil milhões de dólares (44 mil milhões de euros), de acordo com informação avançada pelo jornal angolano Valor Económico.

A avaliação feita às contas da petrolífera estatal revelou “discrepâncias” entre os fundos recebidos e os valores investidos e mostra que a empresa terá retido receitas do governo, de acordo com a edição do Valor Económico publicada na segunda-feira, o mesmo dia em que Isabel dos Santos tomou posse como presidente não executiva da Sonangol.

A nova presidente da Sonangol foi questionada na segunda-feira sobre as informações reveladas pelo Valor Económico, que recusou comentar com o argumento de que não tinha visto a notícia, segundo avança a Bloomberg, a agência financeira internacional que reproduziu a notícia da publicação angolana. Mais tarde, a petrolífera angolana emitiu um comunicado em que desmente os números.

Segundo a informação avançada pelo Valor Económico, auditores terão encontrado ativos sobrevalorizados e contratos que não foram negociados na defesa do melhor interesse do Estado.

Um exemplo possível de ativos sobrevalorizados pode ser a participação no BCP cujo valor de mercado já desvalorizou de forma muito expressiva desde que a petrolífera angolana investiu e reforçou no banco português. Outra situação que poderá configurar essa realidade é a valorização no balanço das reservas de petróleo angolano, cujo preço de mercado também caiu de forma acentuada no último ano.

A dimensão das imparidades técnicas identificadas terá pesado na decisão do presidente angolano indicar a filha, que é também a mais conhecida e importante empresária angolana, para a administração da empresa petrolífera, acrescenta ainda o jornal.

A nomeação de Isabel dos Santos para a liderança da Sonangol, através de um despacho assinado pelo seu pai, o presidente de Angola, faz parte de um plano de reorganização da petrolífera angolana que tem estado sob a forte pressão da queda do preço do petróleo.

Isabel dos Santos vai ser acompanhada de uma nova equipa de gestão e ainda de consultores externos como a Boston Consulting Group (BCG), a auditora PwC e o escritório de advogados português Vieira de Almeida & Associados

Nova presidente promete mais transparência

Entre as medidas já conhecidas do plano de transformação da petrolífera estatal está a focagem da Sonangol na atividade petrolífera onde é a concessionária do Estado com forte presença na concessão, mas também na exploração dos recursos petrolíferos do país.

Neste quadro, prevê-se a separação entre as atividades de regulação e gestão, bem como o destaque de participações financeiras em outras empresas, que inclui o investimento de cerca de 18% no capital do BCP. Reduzir os custos de produção de petróleo e reforçar os mecanismos de controlo interno e transparência, são outras grandes linhas do plano de transformação.

Em comunicado emitido na segunda-feira, Isabel dos Santos anunciou a renúncia dos cargos que tem nos conselhos de administração de empresas portuguesas onde tem investimentos relevantes, com o “objetivo de reforçar as garantias de transparência no desempenho das novas funções”.

Isabel dos Santos vai abandonar os órgãos sociais da NOS, BIC Português e Efacec, com efeitos a partir de julho. A empresária mantém, para já, os seus investimentos que incluem ainda cerca de 18% do BPI e uma participação, em associação com a Sonangol, na Amorim Energia, a maior acionista da Galp Energia.

Apesar de não ser acionista do BCP, a sua nomeação para a presidência da Sonangol, a maior acionista do banco português, levantou dúvidas em Portugal em relação a potenciais conflitos de interesses entre as duas instituições financeiras. As dúvidas sobre a nomeação da empresária e os potenciais conflitos de interesse também existem em Angola onde um grupo de juristas vai tentar impugnar a sua nomeação.