Jill Scott é extraordinária. Cantora, poeta, atriz, modelo, o seu talento é demasiado grande para se esgotar numa só coisa muito embora a sua carreira como cantora predomine sobre tudo o resto. Não admira, tem uma voz poderosa e versátil, capaz de preencher todo espetro de emoções e ainda domina as palavras ao ponto de escrever grandes canções. Foi descoberta por ?uestlove, baterista dos The Roots, quando ainda fazia só espetáculos de spoken word, estreou-se em estúdio e em palco com a banda de hip hop, com quem escreveu “You Got Me”, canção que acabou por ficar conhecida na interpretação de Erykah Badu.

[“You Got Me” ao vivo, pelos The Roots com Jill Scott]

Jill e Erykah são, aliás, muitas vezes comparadas, apesar do que as separa. Miss Badu faz questão de manter-se próxima das raízes hip hop, da rua e dos beats experimentais. Jill Scott também não renega as origens mas aproximou-se da soul mais madura e do jazz, até da folk, mantém uma postura clássica mas tem atitude fresca e é uma das grandes forças da chamada “nova soul”. Isso percebeu-se logo álbum de estreia, Who Is Jill Scott (2000), e continua a ser verdade em Woman, o sexto álbum, editado o ano passado (sétimo, se contarmos com um disco ao vivo gravado em Paris em 2008).

jill scott woman

Na verdade, poucas cantoras se podem comparar a Jill Scott. A sua voz de soprano é acrobática e intensa, lembra Minnie Riperton e outras divas clássicas que se entregavam às palavras com toda fé do mundo. Os três Grammys e os vários outros prémios que recebeu também atestam sobre isso. Ainda assim, a sua carreira não tem sido das mais mediáticas, talvez porque Jill Scott não faça muito por isso, ou porque criar um filho (agora em idade escolar) e múltiplas atividades paralelas lhe dispersam a atenção.

Woman, um disco de auto-reflexão, feito a partir de desabafos que foi escrevendo nos seus diários, surgiu 4 anos depois de The Light Of The Sun. É um registo pós-rutura (do marido, da editora) que demorou também porque a artista de Filadélfia descobriu ter cada vez mais espaço no cinema e televisão: não só participou em filmes como “Get On Up”, uma biografia de James Brown em que faz o papel da segunda mulher do Padrinho da Soul, vítima de violência doméstica, como teve pequenos papéis em episódios de séries de televisão com grande projeção, como “Fringe” e “Lei & Ordem”. E além disso tudo, ainda há a poesia, nas canções, e em livro (The Moments, The Minutes, the Hours é precioso). Como ela própria diz precisa de diversidade criativa porque “sentir-se presa é ser infeliz”.

[“You Don’t Know”, do álbum “Woman”, do ano passado]

Capaz de soar forte como um trovão e vulnerável como uma criança, Jill Scott faz magia cada vez que abre a boca. Em registo soul-funk, gospel, spoken word, hip hop ou cool jazz, a sorrir ou a sofrer, ela é envolvente e destemida, sempre tocante e inspiradora. A sua estreia em Portugal é no mínimo imperdível e — suspeito — abrirá caminho para vários regressos.

[O concerto de Jill Scott, esta terça-feira, dia 12 de julho (jardins do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, primeira parte de Charlie Wilson, bilhetes entre os 25 e os 50 euros), abre o festival EDP Cool Jazz. Cartaz completo do festival aqui.]

Isilda Sanches é jornalista e animadora de rádio na Antena 3