Marcelo Rebelo de Sousa teve uma “rentrée em força”, com “elogios rasgados ao governo” (na gestão do caso de Ponte de Sor) mas, também, vários “avisos e bofetadas, mesmo” sobre temas como os incêndios, o Galpgate e as leis da banca e do sigilo bancário. A análise é de Luís Marques Mendes, no seu comentário semanal na SIC, ex-líder do PSD que também avança que Assunção Cristas deverá anunciar “mais semana, menos semana” a candidatura à Câmara Municipal de Lisboa — e a candidata do PSD, admite Marques Mendes, pode ser Maria Luís Albuquerque.

Depois dos elogios sobre a gestão de Ponte de Sor (um caso que, agora, vai depender de o Iraque retirar ou não a imunidade diplomática), Marcelo Rebelo de Sousa mandou vários recados ao governo. O primeiro: sobre os incêndios: “Marcelo disse, eu vou estar atento para saber se uma promessa de um conselho de ministros extraordinário em outubro vai dar em resultados”.

Houve, depois, uma “desautorização total aos ministros das Finanças e da Economia” sobre a questão dos secretários de Estado que foram ao futebol a convite da Galp, a Paris. Marcelo lembrou que “os critérios têm de ser iguais para todos, portanto, os secretários de Estado que foram patrocinados por esta empresa não podem intervir em processos que tenham relação com esta empresa. Isto é o contrário do que tinham dito os ministros das Finanças e da Economia”, nota Marques Mendes.

Além destas questões, Marques Mendes salienta, também, as intervenções de Marcelo sobre “a alteração que o governo queria fazer à lei bancária para que os administradores chumbados na Caixa não entrassem pela porta mas entrassem pela janela”. A intervenção do Presidente da República? “O Presidente disse acabou. E o governo obedeceu e retirou a lei”. Depois, a lei que o governo quer fazer para aceder ao sigilo bancário dos cidadãos. “O presidente disse não concordo“.

Isto é relativamente inédito na política portuguesa“, diz Marques Mendes. “Acho que é provavelmente o presidente da República mais interventivo que já tivemos. Reforça a componente presidencial do nosso sistema semi-presidencialista”, notou o ex-líder do PSD, acrescentando que Marcelo está a impor “uma espécie de autoridade com afeto: na forma é suave, mas no conteúdo é muito firme”.

PCP e BE “engolem tudo. Quem os viu e quem os vê”

Sobre o tema da Caixa Geral de Depósitos, Marques Mendes diz que viu “algumas pessoas a dizerem que o dossiê Caixa encerrou”.

Eu diria que não: falta saber como chegámos aqui. Eu tenho, pessoalmente, a minha ideia: este buraco, chamemos-lhe assim, tanto dinheiro para a Caixa tem a ver, sobretudo, com o período 2005-2010, em que foram concedidos financiamentos que nunca deviam ter sido concedidos, em que foram aprovados créditos sem garantias. Estamos a falar de operações muito volumosas. Falta investigar quem são os responsáveis pela concessão desses empréstimos que levaram a este buraco? Quais são as operações? Quem são os beneficiários? Porque é que não foram asseguradas as garantias?”

O ex-líder do PSD diz que, na Caixa, “houve favores políticos, houve, provavelmente, interferências partidárias, tem a ver com pessoas do lado do PS e do lado do PSD. Depois pode haver irregularidades ou não”. A este respeito, Marques Mendes lembra que Marcelo Rebelo de Sousa disse que era “muito importante” a auditoria (conhecida por forense) que o governo prometeu em junho que ia fazer às principais operações ruinosas na Caixa.

Ainda ligado à Caixa Geral de Depósitos, Marques Mendes aproveitou para fazer uma “reflexão” sobre o papel que tiveram o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista Português (PCP).

“O PCP e o BE vieram esta semana dizer que, no essencial, concordavam com aquilo. Mas imagine-se que estávamos a lidar com esta matéria da CGD no ano passado, no governo anterior, eu acho que o BE e o PCP teriam uma posição totalmente diferente”, diz Marques Mendes, lembrando que “vai haver despedimentos, vai haver fecho de balcões, aumento dos salários dos gestores, já tinham chamado todos os nomes ao governo”.

E porquê a diferença? “O PCP e o BE são apoiantes do governo, engolem tudo, na prática. Até as divergências são concertadas ao pormenor”, diz o comentador político. “O exemplo da CGD mostra como o PCP e o BE mudaram radicalmente, hoje já não estão na oposição, estão no poder. Noutros tempos apresentariam uma moção de censura. Quem os viu, quem os vê”, remata.

Cristas (e Maria Luís?) para a Câmara de Lisboa?

Marques Mendes adiantou, ainda, que o INE poderá em breve rever em alta, ligeiramente, a taxa de crescimento da economia no segundo trimestre. “Foi de 0,2% mas poderá subir, ligeiramente, para 0,3%”. O ex-líder do PSD falou, também, sobre as Eleições Autárquicas e disse que “mais semana, menos semana teremos Assunção Cristas como candidata a Lisboa”. “É uma jogada política de grande alcance, Assunção não tem nada a perder”.

Resta saber, então, que decisão tomará o PSD. Marques Mendes confidencia que “nos últimos dias tem havido conversas, contactos entre o PSD e o CDS, para que o PSD apoie Assunção Cristas. Mas estes contactos não vão dar em nada. O PSD não vai apoiar Assunção Cristas. Seria um suicídio coletivo, porque o PSD já tem dificuldades no Porto e não ter um candidato em Lisboa geraria alguma revolta”.

A solução preferida pelo PSD é Pedro Santana Lopes, seria o candidato mais forte. Falta saber se tem vontade, disponibilidade, abertura, se quer ser candidato. Jorge Moreira da Silva é outra hipótese mas a concelhia não gosta, José Eduardo Martins a concelhia adora mas o líder pode não gostar”.

“Uma terceira via pode ser Maria Luís Albuquerque, especula Marques Mendes, tendo em conta a admiração que Pedro Passos Coelho tem em relação à ex-ministra das Finanças, lembra o comentador.