Cinema

Phiona Mutesi. A xadrezista sem teto que deu uma história para um filme da Disney

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Phiona Mutesi estava a procurar comida quando conheceu um missionário que a ensinou a jogar xadrez e ser mestre. Dez anos depois, a sua história deu um filme, com estreia no Festival de Toronto.

AFP/Getty Images

Autor
  • Milton Cappelletti
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Quando Tendo Nagenda viu pela primeira vez na ESPN a história de Phiona Mutesi, a xadrezista sem teto de Uganda que virou mestre da modalidade, sabia que daria um bom filme. Nagenda, também nascido no país, trabalha como diretor criativo para a Disney e conseguiu a aprovação do estúdio para levar o projeto adiante.

Após entrar em contacto com a realizadora Mira Nair, que tem no currículo nomeações para os óscares e globos de ouro, realizou um extenso trabalho de investigação e entrevistas, que resultou no título Queen of Katwe, com David Oyelowo e Lupita Nyong’o no elenco. Este sábado, a história de Mutesi faz a estreia mundial no Festival de Cinema de Toronto.

Mas o que há de tão especial na história de Phiona Mutesi para receber a atenção da Disney? A superação através do desporto, explica Nair, em entrevista ao jornal The New York Times. “É estranho pensar que uma fábula moderna africana sem animais não tenha sido feita antes”, revelou.

Phiona Mutesi vivia no bairro de lata de Katwe, em Kampala, capital do Uganda. Aos três anos, perdeu o pai, vítima de sida, e teve de deixar a casa onde vivia, pois a mãe não podia pagar a renda. Segundo relata o jornal El País, Mutesi tinha dez anos quando procurava comida com o irmão nas ruas da cidade africana, momento no qual conheceu Robert Katende, um missionário que alimentava crianças em troca de aprenderem a jogar xadrez. “[O xadrez] ensina as crianças a avaliar, tomar decisões lógicas e, o mais importante neste contexto, a não dar-se por vencidos. Em situações tão extremas como a de Phiona quando a conheci, isto é fundamental”, explicou Kalende à publicação.

Apesar das críticas que recebia por praticar um desporto “de brancos”, Mutesi rapidamente aprendeu a dominar os adversários no tabuleiro, o que lhe garantiu vitórias em diversas competições regionais, que a qualificavam para disputas internacionais. Em 2012, tornou-se na primeira mulher de Uganda a ser Candidata a Mestre Feminina de xadrez, primeira certificação atribuída a jogadoras após uma sequência de bons resultados em competições internacionais.

Em 2013, foi a primeira mulher a vencer o Campeonato Nacional Júnior de xadrez, em Uganda, e em 2014 representou o país nas Olimpíada de Xadrez, na Noruega. Com o dinheiro conseguido nas competições, conseguiu em menos de cinco anos comprar uma casa para a mãe e melhorar a qualidade de vida da família, além de investir em escolas de xadrez para crianças.

A “ascensão meteórica” de Mutesi no xadrez chamou a atenção de Tim Crothers, antigo editor da revista desportiva Sports Illustrated, que lançou em 2012 o livro The Queen of Katwe. Na altura, justificou o motivo pelo qual se havia interessado na história da xadrezista. “Nascer africano é ser um marginal no mundo. Nascer no Uganda é ser um marginal em África. Nascer em Katwe é ser um marginal no Uganda. Nascer rapariga é ser uma marginal em Katwe”, disse, citado pelo El País.

Para a realizadora Mira Nair, The Queen of Katwe vai servir para “desmistificar” a África para a filmografia da Disney. “O título foi importante para desmistificar o ‘continente negro’. Revela um mundo cheio de vitalidade, luta e dignidade, e mostra que a minha abordagem [sobre o continente] é sobre a vida, não sobre o sofrimento em África”, disse, em entrevista ao New York Times. “Adoro qualquer história sobre pessoas que fazem algo a partir do nada”, justificou.

Lupita Nyong’o também partilhou com a realizadora a alegria de participar no projeto, ao revelar que demorou apenas “alguns segundos” para aceitar o papel de Nakku Harriet, mãe de Mutesi. “Uma mulher africana a enfrentar este tipo de situação? Eu vivo por este tipo de material. Nunca nos meus sonhos pensei que interpretaria uma mãe de cinco crianças na minha idade. Não recebi nada tão desafiante desde 12 Anos Escravo”, afirmou. “Não há ‘salvadores brancos ‘ nesta história, pelo menos na maneira como é contada aqui”, destacou à publicação.

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