Benfica, Porto e Sporting (por ordem alfabética para não ferir suscetibilidades). É comum encontrarem-se em três frentes: campeonato nacional, Taça de Portugal e Taça da Liga (por ordem de importância para não atropelar prioridades). Lá fora, no estrangeiro, é mais difícil os pontos de contacto. Da ameaça de um Porto-Boavista na final da Taça UEFA-2003 à concretização do Benfica- Braga na meia-final da Liga Europa-2011 (avança o Braga, derrotado pelo Porto na decisão de Dublin).

E se abríssemos uma exceção para falar dos três grandes na mesma fase de grupos da Liga dos Campeões? Uyyyyyy, claro. Até calha bem e tudo. Com a clara vitória à Roma no Olímpico (3-0), o Porto passa o play-off e junta-se a Benfica mais Sporting. Eeeep eeeeep uraaaaaaay. Que fartar de vilanagem – a partir de amanhã e, pelo menos, até dezembro. Um dois três, diga lá outra vez. Abre o Benfica, já esta terça-feira, vs. Besiktas, na Luz. Segue-se o Sporting em Madrid, com o Real, e o Porto no Dragão, vs. FC Copenhaga. Antes da ação, as respostas às perguntas pertinentes.

Qual a primeira jornada de sempre? Anote aí: 12, 13 setembro 2006. O arranque é dado em Alvalade, com o Sporting em grande estilo a derrubar o Inter com um golo fantástico de Caneira. O onze de Paulo Bento contempla figuras como Ricardo; Abel, Tonel, Polga e Caneira; Miguel Veloso; Nani, Romagnoli e Moutinho; Yannick e Liedson.

No dia seguinte, a ditadura do 0-0 é imposta por FC Copenhaga (Benfica) e CSKA Moscovo (Porto). Só por graça, Fernando Santos joga com Quim, Alcides, Luisão, Ricardo Rocha e Léo; Katsouranis e Petit; Paulo Jorge, Nuno Assis e Simão; Nuno Gomes. E o Porto de Jesualdo? Helton; Bosingwa, Bruno Alves, Pepe e Ezequias; Paulo Assunção, Lucho González e Anderson; Tarik, Adriano e Quaresma. Pormenor: nunca nunca nunca mais há uma jornada assim, sem golos sofridos por parte dos portugueses.

Qual a pior jornada de sempre? Marque aí na agenda: 27, 28 novembro 2007. A aventura começa em Manchester. Mais uma vez, é o Sporting de Paulo Bento. Agora com Rui Patrício; Abel, Tonel, Polga e Had; Miguel Veloso, Izmailov, Romagnoli e Moutinho; Liedson e Purovic. O lateral Abel silencia Old Trafford, aos 21 minutos. Só se ouve o ruminar da pastilha elástica de Alex Ferguson. De repente, autogolo de Had e 1-1. No último instante, um livre direto de Ronaldo fixa o 2-1.

No dia seguinte, ainda em Inglaterra, o invencível Porto de Jesualdo apresenta Helton; Bosingwa, Stepanov, Bruno Alves e Cech; Paulo Assunção, Kazmierczak, Lucho González e Mariano González; Lisandro Lopéz e Quaresma. Ao intervalo, 1-1 por Torres e Lisandro. Depois, abre-se a torneira do golo em Anfield, através de Torres, Gerrard (penálti) e Crouch. Acaba 4-1.

Na Luz, o Benfica de Camacho recebe o campeão europeu Milan. Na baliza, Quim. À defesa, Luís Filipe, Luisão, David Luiz e Léo. No meio, Katsouranis e Petit. Lá à frente, Nuno Gomes à espera do trio Maxi, Rui Costa e Cristian Rodríguez. Há esperança de uma vitória para continuar a sonhar com os oitavos-de-final. De repente, um pesadelo chamado Pirlo (15’). O empate chega a seguir, por Maxi (20’). É como voltar à estaca zero e, já se sabe, os italianos sentem-se bem nesse papel. Um-um, o Benfica eliminado por Milan e Celtic (2-1 ao Shakhtar).

Qual é a melhor jornada de sempre? Ahhhhh, finalmente um tema divertido, em que é obrigatório subdividir em temas. O primeiro e o segundo. Sim, os três só ganham todos juntos em duas ocasiões. A primeira é em 2007-08, a segunda em 2014-15. Há aqui um detalhe importante. A tripla vitória em dezembro 2007 estica-se por uma semana. Porque o Benfica ganha 2-1 em Donetsk no dia 4 (bis de Cardozo), enquanto Porto (Lucho e Quaresma, 2-0 ao Besiktas) e Sporting (Polga, Moutinho e Liedson, 3-0 ao Dínamo Kiev) celebram vitórias generosas nos dias 11 e 12. Posto isto…

Qual é a melhor jornada de sempre (parte 2)? Aponte sff: 4, 5 novembro 2014. Agora é que é, três vitórias portuguesas na mesma semana. O primeiro ato está marcado para a Luz. De um lado, Leonardo Jardim (Monaco). Do outro, Jorge Jesus com Júlio César; Maxi, Luisão (cap), Jardel e André Almeida; Enzo e Samaris; Salvio, Talisca e Gaitán; Derley.

O Benfica entra com querer, a música de sempre. Só que o Benfica do campeonato é o Michel Vaillant e o da Liga dos Campeões é o Mr. Magoo. A bola simplesmente não entra. Ora por culpa alheia (Subasic defende remate de Gaitán, aos 3’), ora por falta de pontaria (Talisca desmarca Salvio e este atira ao lado, aos 4’). A partir dos 20 minutos, o Benfica encolhe-se e o Monaco arrisca o golo, por Traoré (desvio de Júlio César) e Ocampos (corte de Luisão). Perto do intervalo, Gaitán falha clamorosamente o 1-0 numa jogada dos argentinos com Salvio e Enzo. O 10 benfiquista entra na área e remata forte para o desvio de Raggi com a ponta da bota por cima da trave. Na segunda parte o Monaco é rei e senhor do jogo em matéria de ocasiões claras de golo, por obra e graça de um miúdo descabelado chamado Ferreira-Carrasco. Quando mete a quinta, não há defesa que o trave. Por três vezes, Júlio César opõe-se com galhardia e adia o golo. No outro lado, também Subasic se estica todo para desviar o poderoso tiro de Talisca (52’). A partir dos 65 minutos, mais ou menos quando Lima substitui Samaris, o Benfica vai para a frente sem medos e obriga o Monaco a recuar, recuar, recuar.

O domínio nem é avassalador por aí além. Subasic é incomodado vezes sem conta. Logo ele, o único guarda-redes imbatível nesta Liga, sobretudo a partir do momento em que o Dortmund sofre um golo do Galatasaray aos 61’. É para manter esse estatuto? Lima diz que não, mas Ricardo Carvalho faz outro corte à… Ricardo Carvalho – in extremis. O juiz espanhol Fernández Borbalán assinala pontapé de baliza. O quê? É canto, señor. Todo bien, não se repetirá. Aos 81’, o bom do Ricardo Carvalho faz outro corte dos dele e aí sim, canto. Marca-o Gaitán, a bola é desviada por Derley (joga bem de costas o 9) e isola Talisca. Sem ninguém a incomodá-lo, o brasileiro encosta com naturalidade e categoria. É aquela base, e num instante tudo muda: 1-0, vitória, três pontos e um milhão de euros.

Passa-se um dia e continuamos sem sair de Lisboa. É dia de Sporting-Schalke. O onze de Marco Silva inclui Mané no lugar de Carrillo (opção), Sarr no de Maurício (suspenso) e Jefferson no de Jonathan (opção). De resto, Patrício, Cédric, Paulo Oliveira, William, João Mário, Adrien, Slimani e Nani. Há esperança. Há, e são verdes. Um verde bonito, por sinal. O Sporting sente-se confortável e assertivo. Tanto assim é que até marca cinco dos seis golos do jogo. Sim, o primeiro é de Slimani na baliza errada. Falta desnecessária de Sarr, livre de Aogo e cabeceamento do argelino na molhada (a meias com Choupo-Moting). É o cúmulo do azar, o terceiro autogolo da época após os de Sarr (FC Porto) e Maurício (Vitória SC).

Calma, ele há-de de dar a volta a esta situação e na mesma baliza. Acredite. Aos 26 minutos, Adrien marca um livre e Sarr (1,96 m) empata de cabeça, sem tirar os pés do chão. Falha inconcebível do Schalke porque Slimani também está ali solto. O golo anima o leão e William tem o 2-1 nos pés no minuto seguinte. Vale a intervenção com os pés de Fahrmann. O Schalke, 7.º classificado na Alemanha, não é nenhum bicho-papão e sofre a bom sofrer até ao intervalo: Nani (37’) e João Mário (38’) fazem brilhar Fahrmann, Mané (44’) cabeceia ao lado. Quando o italiano Tagliavento apita para o início da segunda parte, ninguém espera um vendaval de golos, três deles para o Sporting. Aos 52’, Nani segura dois adversários e atrasa para o pontapé de Jefferson. A receção à futsal do lateral (sola do pé esquerdo em cima da bola e depois o cá vai disto) é um primor. O Schalke abana e quer reagir. Arrisca aqui e ali, o Sporting defende-se como pode, às vezes atabalhoadamente. Aos 72’, o recém-entrado Carrillo pega na bola na linha do meio-campo, passa pelo pobre Fuchs e ninguém o trava até ao cruzamento rasteiro para o 3-1 de Nani. Fechado? Ainda não. O Schalke assusta com Aogo, assistido por Boateng (88’), e o Sporting arruma a questão nos descontos. Uma bola longa apanha Slimani em corrida desenfreada para o 4-2.

Só falta mesmo o Porto. Se ganhar, jackpot. A viagem a Bilbau rapidamente se transforma em visita. Uma visita cultural para conhecer o Guggenheim e mostrar aos bascos como se joga aquilo a que se chama “football association”, um termo muito em voga no passado para exultar um futebol coletivo, de pé para pé, entre os onze intervenientes. Já agora, ei-los: Fabiano; Danilo, Maicon, Indi e Alex Sandro; Casemiro, Herrera e Óliver; Tello, Jackson e Brahimi. Aquilo é um carrossel sem igual. Pobre Athletic. Nem sabe de que terra é. O Porto de Lopetegui faz uma exibição cinco estrelas, é rabo e orelha. Ao intervalo, o 0-0 é mentiroso. Culpa de Jackson, cujo penálti aos 43 minutos acerta na trave. Na segunda parte, o colombiano emenda o erro e abre o marcador, aos 55’. O 2-0 final é de Brahimi, o indiscutível melhor em campo com jogadas mirabolantes em San Mamés, inclusive a do 1-0 em que leva três defesas atrás.

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Contas feitas à tripla participação dos três grandes portugueses na Liga dos Campeões, o balanço é a puxar prò negativo: 18 vitórias, 14 empates e 22 derrotas em 54 jogos. Estes resultados significam realmente o quê? O Porto é o único a seguir em frente nas três ocasiões. O Sporting é eliminado em 2006-07, desce em 2007-08 (Taça UEFA) e 2014-15 (Liga Europa). O Benfica atira-se para a Taça UEFA nas duas primeiras experiências e sai-se francamente mal na última, com o último lugar do grupo, só com dois golos marcados.